Considerações sobre o Oscar

Uma dúvida nas escolhas: qual cerimônia cívica a acompanhar? A entrega dos prêmios ou as eleições no Iraque? O que fariam Kathryn Bigelow ou James Cameron se tivesem uma vida real? Felizmente as eleições foram (aqui) de tarde e a papagaiada com tapete vermelho de madrugada. *** Pela primeira vez, desde 1943, a lista de indicações para melhor filme subiu de 5 para 10.

BBC Brasil |

Mais um motivo para se desconfiar do nível de qualidade das produções. Nada de novo nas frentes de infantilismo, sentimentalismo e politicagem barata correta. A receita de sempre.

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Pela primeira vez também duas senhoras de idade avançada (uma gorda de olhos claros e outra magra de cabelos brancos) fizeram a apresentação com a habitual e desesperada falta de graça. Não sendo nenhuma das duas - Alec Baldwin e Steve Martin - homossexuais assumidos, presume-se que a indústria esteja querendo dizer alguma coisa àquelas pessoas que já foram minoria, ao menos em 1943, para ficar no mesmo ano.

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A dupla do barulho fez um sucesso dos diabos entre os ícones boiolas dos movimentados círculos que, em supina agitação, num apartamento apertado do Leblon, tomaram vinho branco morno acompanhado de frios. Ouviu-se muito "Audácia do bofe!" e "Eu, hem, Rosa!".

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Voltando a 1943: já que sofremos nova reforma ortográfica com legislação à altura, por que não dar um plural decente à fálica estatueta ("Puxa, que bela espada ostentas!"): Óscares. Ou, para sermos coerentes, Oscares.

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E por falar em águas passadas e moinhos movidos: que fim levaram nossos Sacis e Índios de Ouro?
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Todas as minhas previsões provaram ser corretas à exceção de Lee Daniels na direção de Preciosa, Uma História de Esperança. (Nós precisamos sempre qualificar um filme. Feito Darling, A Que Amou Demais, e Blow-Up, Depois Daquele Beijo, entre centenas de outros). Falar nisso, o grande desapontamento da noite foi não conseguirem um único close das vencedoras pernas cabeludas de Mo'Nique. Deixaram na dúvida os fãs curiosos que especulam em torno dos chumaços de pelos nas axilas e outras partes íntimas da festejada apresentadora de talk shows. As duas modas deverão pegar por uns tempos. Capilaridades e nomes próprios com apóstrofe. Mi'Chelle, Lu'La, Dil'Ma, Ma'Rina e assim por diante.

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E por que Carey Mul'Ligan? - quem é, o que faz, qual sua razão de ser, mesmo que por breve espaço de tempo? Aqui só deu ela (sentido restrito) na primeira página de jornais e jornalecos. E o outro perobão, ao menos no papel que vive em Direito de Amar (um samba de Lúcio Alves, lembremos), tal de Colin Fir'Th. Abaixo os dois perdedores e tudo que insignificam.

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Sandra Bul'Lock. Também inexplicável. Um Sonho Possível. A terna história de uma família branca procupada com o potencial de um jovem negro. Por que não chamar logo o filme de Precioso e botar o rapaz na engorda? Mesmo assim levou o cobiçado boneco.

Bul'Lock é uma das piores coisas a acontecer ao cinema americano desde o Código Hays e a Legião da Decência. San'Dra fez questão de comparecer à entrega, na véspera, dos Flatuchos (braaap) de Ouro - velhacos traques bocais --, por outro (quiuspa) filme que enfeitou. Só para mostrar que o que não tem em talento abunda em senso de humor. E que história é essa de chamar os Golden Rasperries ou Razzies de "Framboesas"?
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Vera Farmiga. Sem apóstrofe. Farmiga. Direitinho uma dessas infantilidades em animação modernosa gerada por computador contando com as vozes de Tom Hanks e Woody Allen. A estória (aí é estória mesmo, dane-se) de uma Formiga do campo que queria viver na cidade grande. Oscar nela.

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George Clooney é o único ator do mundo a conseguir rebolar com olhinhos travessos e boquinha brejeira.

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Avatar é o maior insulto bi- e tridimensional a todas as pessoas com mais de 12 anos de idade que não pensam em praticar, seja em forma passiva ou ativa, o que muitas religiões chamam de nefandas abominações. O trailer do filme lembra um travesti vestido como nossa querida Elza Laranjeira cantou em Estou Amando Azul. Ou, em Na'vi (este foi o ano do apóstrofe agressivo), Nik'Ki Nik'Ki Ba'Balu.

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Bastardos Inglórios, do Ta'Rantino. Os baitolões encarregados de traduzir títulos insistiram em não manter os erros da grafia original. Poderia ser, digamos, Engloriosos Fios da Mãi. Ou por aí. Em compensação, respeitaram a integridade da nova versão de Spartacus, Invictus, desta vez com Morgan Freeman no papel-título antes vivido por Kirk Douglas.

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Terrível mesmo vai ser suportar, durante uns tempinhos, ao menos, a imensamente vitoriosa Guerra ao Terror, no original The Hurt Locker, um pequeno armário que dói como só sabem doer os pequenos armários onde a milicagem se esconde das realidades de suas vidas frustradas e jamais assumidas. Como Guerra ao Terror? É o contrário. O Terror Contra a Guerra. Você aí na quinta fila: jura mesmo que estava louco para aguentar mais de duas horas de contorções da aguçada sensibilidade de soldados americanos alistados a serem detonados e a detonarem membros da resistência de um país onde centenas de milhares de habitantes, inclusive velhos, mulheres e crianças, foram massacrados, apenas por interesse de seus comandandantes se aproveitando de uma rapaziada que se cansou de ficar em casa brincando com apenas a violência dos videogames por companhia? Eles lá, os Am'Ericanos, precisam entender que tem muita gente que torce pelo outro lado, pomba!
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Eu votei, ao menos espiritualmente, pelo Iraque de verdade, sem efeitos especiais e fantasias sentimentalóides. Senhores e senhoras membros da Academia de Artes Cinematográficas: um pouquinho mais de modos e menos modas, por favor. Grato.

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