Com ruas sem nome, capital do Afeganistão é pesadelo de carteiros

Encontrar destinatários de cartas é tarefa difícil em Cabul, cidade com 4 milhões de habitantes e sem código postal

BBC Brasil |

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Poucas ruas de Cabul têm nomes oficiais e casas devidamente numeradas. Então, como fazem os carteiros para entregar as correspondências?

Para os carteiros da capital afegã, navegar pelo labirinto das ruas de Cabul é uma tarefa intimidante. A cidade tem mais de 4 milhões de habitantes, e ruas novas sendo construídas a cada ano. Para dificultar, o Correio Central ainda não conseguiu desenvolver um sistema completo de código postal para o país.

Sendo assim, as cartas percorrem um caminho tortuoso para encontrar seu destinatário. A reportagem da BBC acompanhou o trabalho de uma agência dos correios em Cabul, que naquele dia tinha mais de 30 cartas - privadas e oficiais - sem endereço exato, apenas uma série de direções vagas.

Uma, postada nos Estados Unidos, apenas dizia: "Hamid Jaan - atrás do palácio Darul-Aman". Outra pedia para ser entregue "atrás da mesquita Omar Jan"; uma terceira era endereçada a uma pessoa que vive "perto da escola Alauddin".

"Os endereços dos destinatários são sempre vagos. Eles (os remetentes) escrevem o endereço como se eu fosse um amigo do destinatário", diz Ahmad Omif, que há mais de dois anos trabalha no Correio do Afeganistão.

Ele cruza Cabul montado em uma bicicleta, buscando os endereços a partir de seu conhecimento sobre a cidade e pedindo ajuda dos locais. Para entregar a carta americana a Hamid Jaan, ele se dirigiu ao palácio de Darul-Aman, palácio ao sul de Cabul que foi construído há nove décadas, no reinado de Amanullah Khan, o antigo rei afegão. O edifício foi severamente danificado durante a guerra civil dos anos 70.

Pergunte pelo açougueiro

No caminho, ele perguntou de Hamid Jaan para todos com quem cruzou - de policiais a estudantes. Alguns diziam apenas "siga reto"; outros passavam os endereços de um Hamid Jaan que conheciam, mas nenhum deles parecia ser a pessoa certa.

Os cidadãos afegãos são em geral conhecidos localmente por sua profissão, e o Hamid "correto" era um açougueiro. Após horas pedalando sob um sol de 32ºC, o destinatário foi encontrado. Missão cumprida.

O Afeganistão se tornou um membro da União Postal Universal (UPU) em 1928, mas teve desde então dificuldades em implementar um sistema postal. Hoje conta com um serviço de correios que depende de ajuda privada para realizar suas entregas. Por exemplo, diversas companhias privadas trabalham junto com o governo para dar conta de entregar todas as correspondências.

Mohammad Yasin Rahmati, chefe do Correio de Cabul, diz que há planos para formalizar um código postal no país, "mas levará tempo até que as pessoas se acostumem com isso".

Mapas

Além disso, o serviço só poderá ser completo se as ruas tiverem nomes e as casas forem numeradas. O empresário Abdul Ali Haidari vende avisos de ruas e números para casas aos moradores do distrito Afshar.

A ideia do negócio surgiu após ele passar por muitas dificuldades para encontrar endereços. "Quando as pessoas vinham para cá, caminhavam por horas para encontrar um lugar. O governo de Cabul não pôs sinalização. Então decidi colocar placas nas ruas e casas", diz ele.

A tarefa é dificultada pelo fato de Cabul não ter sequer um mapa oficial de ruas. Para contornar isso, algumas pessoas decidiram desenhá-lo por conta própria.

Laurence Leusar, que comanda uma organização cultural financiada pela embaixada francesa no Afeganistão, fez seu próprio mapa com a ajuda de moradores de Cabul. Assim, cada vez que vai para um lugar diferente, chega meia hora antes apenas para ter tempo de perguntar aos locais como fazer para chegar no endereço certo.

"É sempre difícil encontrar um endereço em Cabul, você depende dos locais para obter informações", ela conta. A vantagem, agrega, é que acaba sendo "divertido", já que "acabo conhecendo muitos cidadãos afegãos".

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