Cidade italiana fecha o cerco a imigrantes chineses

A pequena cidade de Prato, na região da Toscana, na Itália, decidiu fechar o cerco aos imigrantes ilegais que já representam 25% de sua população de 180 mil pessoas. A comunidade chinesa tem sido alvo de constantes operações policiais desde que o novo prefeito, da direita conservadora, assumiu o poder em meados do ano passado prometendo combater a ilegalidade.

BBC Brasil |

Desde o começo do ano, mais de cem imigrantes em situação irregular já foram identificados. A maioria trabalha em fábricas de tecidos que competem com a indústria local. Nas duas últimas semanas, dois empresários chineses foram presos e quatro estabelecimentos comerciais foram fechados por empregar mão-de-obra ilegal.

Depois de 63 anos com governos de esquerda, os cidadãos mudaram de lado e elegeram um representante da Liga Norte, partido de extrema-direita. Não por acaso, o ministro do Interior, Roberto Maroni, expoente do partido, recentemente visitou Prato e prometeu dar maior apoio logístico e de pessoal para o combate aos clandestinos.

Prato é um município exemplar para a demonstração dessa política. Tem o maior percentual de imigrantes na Itália comparado com a população local. O índice de estrangeiros na cidade, de 25%, é quatro vezes maior do que a média italiana de estrangeiros por cidade, de 6%.

O controle de documentos acontece nas calçadas, nas lojas e nas fábricas e já provocou protestos de diplomatas chineses.

"Não é tanto um discurso de caça, mas, sim, de retomada da legalidade. A ilegalidade é uma questão econômica, que provoca danos fiscais", disse o prefeito de Prato, Roberto Cenni, em entrevista à BBC Brasil.

Concorrência
Os empresários italianos do setor têxtil dizem sofrer com a concorrência das cerca de 3,5 mil fábricas instaladas em Prato.

Representantes da indústria local acusam essas pequenas confecções familiares de sonegar impostos, copiar produtos e explorar empregados.

A Associação dos Industriais de Prato, da Confindustria, apoia as medidas de controle. Ela reúne 80% dos empresários da região, mas conta apenas com um associado chinês.

"Infelizmente, eles criaram um sistema de trabalho no qual as pessoas são tratadas como animais. E isso não pode ser aceito", disse à BBC Brasil o presidente da Associação, Ricardo Marini.

Imigrantes
Muitos operários chineses entram na Itália com visto de turista. Quando são detidos sem documentos, não podem ser repatriados porque a China se recusa a recebê-los sem uma identificação oficial. Com um papel de expulsão no bolso, os clandestinos ficam livres e mergulham de novo no mercado informal. No ano passado, a Itália conseguiu extraditar apenas dois chineses.

No início dos anos 80, começaram a desembarcar os primeiros chineses na vizinha Florença. Um pioneiro núcleo de 38 imigrantes fixou residência em Prato, em 1989.

Na década seguinte, a população de etnia chinesa cresceria exponencialmente, primeiro ocupando um espaço abandonado pelos italianos na base da cadeia de produção, depois, como empresários.

Integração
A barreira linguística sempre foi o principal obstáculo para a integração. "Com a necessidade de trabalhar muito, o imigrante não encontrava tempo para se inserir na sociedade. A primeira geração pensava em ganhar dinheiro e voltar para China. Já a segunda, da qual faço parte, sente-se italiana e nem pensa em retornar", disse à BBC Brasil, Marco Wong, presidente da Associação dos Chineses.

O domínio do idioma é um instrumento fundamental para acabar com os preconceitos e os guetos chineses. "Estamos em contato com o Ministério do Interior para fomentar cursos sobre as regras e as leis italianas. Falta é comunicação entre as instituições e a comunidade chinesa", acrescentou Marco Wong.

Até mesmo a arte marcial Tai Chi Chuan poder ser um instrumento de integração. "Um imigrante chinês, já idoso, começou a usá-la para interagir com os italianos. O grupo exercitava os movimentos num jardim público. Mas um conselheiro da prefeitura quis alterar os horários de abertura do parque para impedir a aula", lamentou Marco Wong.

"Já pensou em proibir a capoeira em um parque no Brasil?", questionou.

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