China adota medidas para conter 'invasão cultural' do Ocidente

Em artigo, presidente afirma que 'forças hostis internacionais intensificam seus golpes para ocidentalizar China e separar país'

BBC Brasil |

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O regime chinês tomará precauções para conter a disseminação da cultura ocidental no país e tentar, nas palavras do presidente chinês, Hu Jintao, salvaguardar a cultura chinesa das ameaças do exterior. Em um artigo publicado na revista "Seeking the Truth" ("Buscando a Verdade"), Hu afirma que as chamadas "forças hostis internacionais estão intensificando seus golpes estratégicos de ocidentalizar a China e separar o país". Para o líder político, "os campos ideológicos e culturais são o foco da infiltração de longo prazo deles".

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Apresentadoras do show 'Super Girl' são vistas em palco na China em 21/6/2006. Programa foi um dos cortados por governo chinês
O pronunciamento é consoante com a reforma cultural aprovada por unanimidade em outubro pelos membros do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCC), durante seu 17º Congresso Anual. Dentre as medidas citadas no plano de reforma estão a revitalização da indústria cultural do país por meio de investimentos, a expansão dos Institutos Confúcio no exterior e o controle da entrada de manifestações culturais ocidentais.

"A força da indústria cultural do país não é proporcional à sua influência internacional", alegou Hu Jintao no texto. "A cultura ocidental é forte, enquanto ainda nos mostramos fracos", acrescentou.

Ecos da revolução

Como uma das primeiras publicações legais de 2012 acerca da reforma, a Administração Estatal para Rádio, Filme e Televisão (Sarft, na sigla em inglês) anunciou no dia 1º o fim de 2/3 dos programas de entretenimento veiculados pela televisão chinesa em canais fechados.

Saiba mais: China vai cortar programas de entretenimento da televisão

As atrações vetadas, programas de namoro, concurso de calouros e talk shows, emulam programas ocidentais. Antes mesmo da reforma, em setembro, o programa "Super Girl", um show de calouros que contava com o voto dos telespectadores, foi cancelado.

Na época, muitos acreditaram que as autoridades não viam com bons olhos o tímido exercício de democracia de escolher os vencedores. A atração existia desde 2004 e chegou a ter uma audiência de 400 milhões de pessoas. Desde que posta em prática, a nova diretriz cultural já cortou 88 horas de programação de entretenimento da televisão a cabo - de 126 horas para 38 horas semanais.

Conforme a agência oficial de notícias, Xinhua, a Sarft ordenou as emissoras a substituir a programação "de mau gosto" por atrações que "promovam virtudes tradicionais e valores socialistas". Para os críticos, as palavras reacendem os fantasmas da Revolução Cultural, política iniciada em 1966 por Mao Tsé-tung que tirou 70 milhões de vidas durante os dez anos em que vigorou.

Durante a Revolução Cultural, aos chineses só se permitia estudar os trabalhos marxistas e os de Mao, publicados no Livro Vermelho. Intelectuais e cidadãos da classe alta eram mandados para o campo de trabalho forçado.

Han Han, o mais famoso blogueiro do país, publicou no final de 2011 um post em que criticava as determinações da reforma cultural. Sob o título "Da liberdade", o escritor avaliou que, "mais do que impulsionar economicamente a indústria cultural chinesa, a reforma promoverá apenas artistas e ações que estejam de acordo com os ideais do Partido Comunista, aumentando a censura no país".

Fim de ano ocidental

Entretanto, a reforma não significa necessariamente que a cultura ocidental desaparecerá do país. A virada do ano na China, por exemplo, mostrou-se mais alinhada com os costumes ocidentais. Embora o ano-novo chinês só seja celebrado no próximo dia 23, a administração de Pequim organizou pela primeira vez na história uma celebração para a contagem regressiva do início de 2012 no Templo do Céu, um dos pontos turísticos mais visitados da capital.

EFE
Espetáculo de luzes e som no Templo do Céu, em Pequim (China)
A Televisão Central continuou exibindo o Concerto de Ano-Novo da filarmônica de Viena. Por diversas cidades, como Shenzhen, shows de orquestras ocidentais também foram programas de alta lucratividade durante o ano-novo.

As tentativas de controlar o avanço da cultura ocidental também não tiveram sucesso no cinema. Em 2011, os filmes mais vistos figuram produções hollywoodianas: Transformers 3 (que faturou US$ 145,5 milhões nas bilheterias); Kung Fu Panda (US$ 95 milhões); e Piratas do Caribe 4 (US$ 73 milhões).

Conforme as leis chinesas, apenas 20 produções estrangeiras podem ser exibidas nos cinemas do país por ano. O cinema chinês foi salvo pelo último trabalho do diretor Zhang Yimou, Flores da Guerra, que arrecadou US$ 66 milhões até o dia 29 de dezembro. O filme é protagonizado pelo ator inglês Christian Bale.

Em Pequim, o estilo de vida ocidental já fora banido de propagandas e outdoors em março do ano passado. De acordo com o governo local, palavras como "luxo", "supremo" e "classe alta" estão proibidas de ser utilizadas em peças publicitárias sob a pena de uma multa de 30 mil yuans (R$ 8,7 mil).

Tais expressões, disse o governo na época, encorajavam a população a aspirar por "estilo de vida ocidental". Em dezembro, planos de criar uma Cidade do Inglês em Pequim foram vetados pelo Partido Comunista de Miyun, distrito ao noroeste da capital onde a cidade seria implantada.

Censura online: China impõe novas censuras sobre a mídia e a internet

O projeto envolvia a construção de 16 distritos de arquitetura europeia, dentro dos quais o inglês seria a língua obrigatória. O controle do regime também aumenta sobre a internet e o uso das redes sociais . Desde dezembro, os usuários do Sina Weibo de Pequim, Xangai e Guangzhou são obrigados a se registrar com seus nomes reais e documentos de identidade.

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