Busca por chefe do cartel de Sinaloa mobiliza México

Joaquín 'El Chapo' Guzmán chegou a ser preso em 1993, mas conseguiu fugir oito anos depois e permanece foragido desde então

BBC Brasil |

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Depois que Osama Bin Laden foi morto por forças americanas no Paquistão em maio do ano passado, pode-se argumentar que o título não-oficial de "homem mais procurado do mundo" tenha passado para Joaquín "El Chapo" Guzmán.

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Guzmán lidera o cartel de Sinaloa no México, muitas vezes descrito como a mais poderosa organização de tráfico de drogas no Hemisfério Ocidental. O cartel de Sinaloa controla grande parte do fluxo de cocaína, maconha e metanfetaminas para os Estados Unidos por ar, terra e mar e teria ramificações em até 50 países.

El Chapo, ou Baixinho, foi preso em 1993, mas escapou de uma prisão de segurança máxima dentro de um cesto de roupa suja oito anos depois, envergonhando e enganando as autoridades desde então.

O Departamento de Estado dos EUA ofereceu uma recompensa de até US$ 5 milhões (R$ 9,2 milhões) por informações que levem à sua prisão.

'Vivo ou morto'

Nos últimos meses, o governo mexicano aumentou a pressão sobre Guzmán, que teria cerca de 50 anos de idade, e sua organização. Diversos de seus homens de confiança e soldados do tráfico foram presos, incluindo seu suposto chefe de segurança, Felipe Cabrera Sarabia, conhecido como "O Engenheiro".

Um artigo publicado em outubro do ano passado pelo jornal The Washington Post disse que o México criou três equipes de elite, da Marinha, Exército e Polícia Federal, dedicadas a capturar Guzmán, vivo ou morto.

Em um ano de eleições no México, certamente seria conveniente para o governista Partido da Ação Nacional (PAN) encontrá-lo antes que os eleitores cheguem às urnas, em julho.

Com a segurança na fronteira também ocupando um lugar de destaque nas eleições americanas, principalmente nos Estados da Califórnia, Texas e Arizona, o governo Obama apreciaria a prisão de uma figura de tamanha proeminência.

Será que isso significa que o cerco está se fechando em torno do traficante bilionário?  "Eles sabem mais ou menos onde ele está", diz Malcolm Beith, autor de The Last Narco, livro sobre a procura por Guzmán. "Mas chegar lá, montar a operação e tratar a prisão de El Chapo como prioridade já é outra coisa."

Beith diz que apesar de alguns traficantes de nível médio do cartel de Sinaloa já terem sido presos, a captura de Guzmán faria toda a diferença para a manchada reputação do PAN.

Busca hi-tech

O PAN parece fadado a perder as eleições para o partido que governou o país durante 70 anos, o Partido Revolucionário Institucional (PRI).

"Politicamente, prender El Chapo seria um grande impulso para o governo. Isso permitiria a eles chegar ao pleito recebendo menos críticas. As pessoas ainda falam de um pacto entre o governo e o cartel de Sinaloa. A prisão de Guzmán calaria os críticos nessa questão", diz Beith.

Mas não é fácil chegar até Guzmán. Algumas das tecnologias mais avançadas de vigilância e espionagem do Exército dos EUA, incluindo caças não tripulados, estão varrendo o espaço aéreo mexicano tentando encontrá-lo.

Acredita-se que ele esteja vivendo nas isoladas regiões montanhosas dos Estados de Sinaloa, Durango e Chihuahua, com um Exército de mercenários armados para protegê-lo, além de contar com uma vasta rede de informantes dentro das forças de segurança.

Para o ex-vice-procurador-geral do México Samuel Gonzalez Ruiz, o desafio enfrentado pelo governo do México para capturar Guzmán é parecido com o que foi transposto pelos EUA para encontrar Osama Bin Laden.

El Chapo Guzmán é muitas vezes comparado a Pablo Escobar, o traficante colombiano que foi morto em 1993, mas Gonzalez diz que há diferenças claras entre os dois casos.

"(A caça por Escobar) foi uma busca muito intensa realizada ao longo de dois anos em uma área bem definida que ele controlava, Medellín. Aqui, as autoridades mexicanas enfrentam um desafio bem diferente."

Segundo ele, não é apenas uma questão de vontade política, mas de metodologia e de coleta de inteligência.
Gangue rival
As autoridades mexicanas se recusaram a dar informações sobre as buscas por Guzmán quando seu suposto chefe de segurança, Felipe Cabrera Sarabia, foi exibido para as câmeras, preso, em dezembro.

A única declaração foi que a captura de Cabrera iria "afetar a estrutura e liderança do cartel de Sinaloa".
Guzmán é considerado um homem pragmático, que cria alianças forjadas com sangue e casamentos, enquanto defende ferozmente suas rotas de tráfico de cartéis rivais.

Ele usa sua vasta riqueza para conseguir apoio entre agricultores pobres e, segundo Malcolm Beith, onde não é visto como herói, ele é temido pelo tratamento brutal que dá a seus inimigos.

"O governo sempre disse que ele é uma figura simbólica, mas ele é mais que isso. Quando você pergunta em Sinaloa, vê o poder que o nome dele tem. Ele ainda tem muita influência", diz Beith.

Guzmán também é ousado. Em setembro de 2011, sua esposa, uma cidadã americana e ex-miss, teria cruzado a fronteira para dar à luz gêmeos antes de voltar ao México sem ser interrogada pelas autoridades uma vez sequer.

Ao longo do último ano, no entanto, Guzmán foi pressionado não só pelas autoridades, mas também por grupos rivais, especialmente o cartel Los Zetas, que passou a fazer incursões em áreas previamente consideradas seu território. Mas ainda assim El Chapo ainda é considerado o traficante número um do México.

Segundo o analista de segurança Jorge Chabat, para que sua prisão ou morte tenha algum valor eleitoral no país, é preciso que isso aconteça no momento certo.

"Se o presidente Calderón e o candidato do PAN quiserem se beneficiar politicamente de El Chapo Guzmán, eles precisam prendê-lo em abril."

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