Brasil saúda 'princípios democráticos' na Guiné Equatorial

Presidente Lula firma acordos com Obiang Nguema, que tomou o poder de Guiné Equatorial há 31 anos por meio de um golpe de Estado

BBC Brasil |

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Em um país onde o presidente tomou o poder por meio de um golpe de Estado há 31 anos e o governo é acusado de fraudar eleições e reprimir a oposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um empreendimento saudando os "princípios democráticos" e o "respeito aos direitos humanos".

RODOLFO STUCKERT
Presidente Lula conversa com Obiang Nguema, que tomou o poder de Guiné Equatorial há 31 anos por meio de um golpe de Estado

Em uma cerimônia realizada no suntuoso palácio presidencial em Malabo, capital da Guiné Equatorial, os dois países assinaram também um acordo na área de defesa e cooperação bilateral. Além disso, o Brasil apoiou a entrada da Guiné Equatorial na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

É a primeira vez que um presidente brasileiro é recebido no palácio do governo guinéu-equatoriano, protegido permanentemente por tanques de guerra desde a última tentativa fracassada de golpe de Estado, em 2004.

"Os dois chefes de Estado reconheceram a importância da democracia para o desenvolvimento, e renovaram sua continuada adesão aos princípios da democracia, ao respeito aos direitos humanos (...) no marco da formulação das políticas nacionais e desenvolvimento", diz um comunicado emitido após o encontro de Lula com o presidente Obiang Nguema nesta segunda-feira.

O acordo de defesa tem como objetivo promover a relação nessa área "com ênfase nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, apoio logístico, e a aquisição de produtos e serviços de defesa".

O entendimento também visa a "promover ações conjuntas de treinamento e instrução militar, de exercícios militares conjuntos".

Negócios à parte

O Brasil tem defendido a aproximação com o regime de Ngema alegando que " negócios são negócios " e que uma relação mais próxima poderia ajudar a promover a democracia no país.

"Nós não estamos ajudando nem promovendo ditaduras", disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, antes do encontro. "Quem resolve os problemas de um país é o povo de cada país", acrescentou Amorim.

"Negócios são negócios. Nós estamos em um continente em que os países ficaram independentes há pouco tempo. Isso é uma evolução que tem a ver com o social, o político" disse o ministro.

Corrupção

Para a Human Rights Watch, o presidente Obiang Nguema é um dos líderes mais criticados por corrupção e violação aos direitos humanos do mundo.

Amorim disse que a aproximação com o Brasil e com o grupo de países de língua portuguesa CPLP, que exigem padrões mínimos de democracia, "vai ajudar que estas práticas que nós apreciamos sejam também adotadas pelos outros".

O português é, ao lado do espanhol e do francês, uma das línguas oficiais do país. O governo quer ajuda da CPLP para difundir o idioma e para acolher estudantes guinéu-equatorianos. Para o ministro, o exemplo "tem muito mais força que a pregação moralista".

Desde que descobriu imensas reservas de petróleo nos anos 90, a Guiné Equatorial tem sido alvo de uma reaproximação com países ocidentais como a Espanha e os Estados Unidos. A petroleira americana Exxon Mobil é a grande investidora no setor de petróleo. A China também tem grandes investimentos em gás natural.

A delegação empresarial que acompanha o presidente é marcadamente focada em infraestrutura, de olho na construção de estradas e de uma seção mais moderna da capital, Malabo 2, ao lado da antiga Malabo, e no levantamento de uma infraestrutura para a Copa da África de 2012, que será co-sediada pela Guiné Equatorial e pelo Gabão.

"Temos de imaginar que esta é uma área importante, rica em petróleo, com grandes possibilidades de construção. Há 20 anos, esse era um dos países mais pobres do mundo. Melhorando socialmente, melhora politicamente", disse Amorim.

Entidades de direitos humanos dizem que a riqueza petroleira não melhorou os indicadores sociais do país, cuja população de 600 mil habitantes é composta de 60% de pobres, segundo estimativas.

Em vez disso, acusam os críticos, o dinheiro obtido com a exploração de petróleo teria ajudado o presidente Ngema a engrossar sua fortuna, estimada em US$ 600 milhões, segundo cálculos da revista Forbes.

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