Brasil 'não deve pagar o preço' por disputa cambial global, diz Meirelles

Para presidente do Banco Central, País precisa lidar com a excessiva desvalorização de moedas para não perder competitividade

BBC Brasil |

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O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse nesta terça-feira em Londres que o Brasil "não deve pagar" pela excessiva desvalorização de outras moedas, que acabam tornando o real mais forte no cenário internacional.

Nos últimos meses, vários países têm usado mecanismos de mercado para desvalorizar suas moedas. A moeda fraca torna os produtos mais baratos no mercado global, o que favorece as exportações e a balança comercial de cada país.

"O Brasil não deve pagar o preço por isso", disse Meirelles, que viajou à capital britânica para dar uma palestra sobre as perspectivas da economia brasileira, a convite da BB Securities.

"Se nós não lidarmos com a excessiva desvalorização de moedas pelo mundo, o Brasil vai perder competitividade no mercado internacional."

Mantega
Na segunda-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia dito que o mundo passa por uma guerra cambial internacional, com vários países forçando a desvalorização das suas moedas para tornar seus produtos competitivos no mercado internacional. Mantega citou os Estados Unidos, a União Europeia e a China no seu discurso.

Em conversa com jornalistas, Meirelles disse que prefere não usar adjetivos como o empregado por Mantega para descrever a disputa cambial entre os países, embora reconheça que o problema da desvalorização de várias moedas é "muito sério".

Por outro lado, o presidente do BC teve que falar sobre as declarações de Mantega a respeito da "guerra cambial internacional", que tiveram grande repercussão na imprensa internacional.

Sem citar nomes, Meirelles fez uma distinção entre dois tipos de países com moedas fracas.
De um lado, segundo o presidente do BC, estão os países cujas moedas estão desvalorizadas naturalmente como consequência de suas políticas econômicas. Na outra ponta estão os países que estão tentando forçar suas moedas a se desvalorizarem, para aumentar a competitividade dos seus produtos.

É este segundo grupo que estaria provocando maiores problemas na economia global, segundo ele.
Meirelles sugeriu que há duas soluções para lidar com o problema.
"Cada país pode adotar suas próprias medidas para lidar com o problema. Ou ele deverá ser debatido pelo G20", disse, em referência ao grupo que reúne as vinte maiores economias do mundo.

Desvalorização do real
Em novembro, os líderes do G20 encontram-se em Seul, na Coreia do Sul. A atual disputa cambial deve ser um dos principais temas do encontro.

O secretário americano do Tesouro, Timothy Geithner, já indicou que uma das maiores reivindicações dos Estados Unidos no encontro será pressionar a China a valorizar o yuan. A moeda fraca da China tem prejudicado as exportações americanas, que não conseguem competir com os produtos chineses.

O presidente do BC do Brasil disse que o país vai continuar monitorando o mercado para evitar que as oscilações da moeda provoquem qualquer tipo de desequilíbrio na economia brasileira.

Apesar das críticas à disputa cambial feitas por Meirelles e Mantega, as autoridades financeiras do Brasil sinalizaram que estão preparadas para também forçar a desvalorização do real e assim manter a competitividade das exportações brasileiras.

Na semana passada, o ministério da Fazenda anunciou que usará o Fundo Soberano do Brasil (FSB) para comprar dólares no mercado e segurar a valorização do real. Esse tipo de operação era feita apenas pelo Banco Central.

O FSB foi criado em 2008 para promover investimentos em ativos no país e no exterior, formar poupança pública e permitir que o governo fizesse investimentos sem aumentar o déficit das suas contas.

O uso do dinheiro do FSB nas operações cambiais é visto como um sinal de que o Brasil está se tornando mais agressivo nas suas intervenções no real, a exemplo do que fazem os demais países.

Na conversa com jornalistas nesta terça-feira, Meirelles disse que a estrutura para as operações cambiais com o FSB está pronta.

O presidente do BC afirmou que as autoridades econômicas continuarão monitorando o mercado e intervindo na cotação do real quando necessário, mas não quis sinalizar qual é a cotação ideal da moeda.

Na semana passada, o real sofreu novas pressões para se valorizar, já que houve uma entrada grande de capital estrangeiro devido ao processo de oferta pública de ações da Petrobras, cujos papéis foram comercializados apenas na moeda nacional.

Meirelles também evitou falar sobre o seu futuro político após as eleições de outubro. Ele afirmou que é preciso se concentrar na sua tarefa atual, que "já exige bastante".

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