Bloqueio israelense a Gaza fortaleceu Hamas, afirma ONU

Estudos indicam que medida produziu efeitos contrários aos esperados por Israel e levou à falência grande parte do setor privado

BBC Brasil |

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De acordo com o relatório da agência de apoio aos refugiados da ONU (UNRWA), o bloqueio israelense à Faixa de Gaza transformou o Hamas no principal empregador da região, fortalecendo a força política e a popularidade do grupo.

O estudo da UNRWA afirma que o bloqueio imposto à Faixa de Gaza há cinco anos produziu os resultados contrários aos esperados por Israel. "Se o objetivo do bloqueio era enfraquecer o governo do Hamas, os números de funcionários do setor público (da Faixa de Gaza) sugerem um fracasso", afirmou o porta-voz da agência, Chris Gunness.

Reuters
Crianças palestinas brincam no campo de refugiados de Shati, na Cidade de Gaza
O bloqueio de Israel à Faixa de Gaza, que praticamente isolou o território em junho de 2006, depois da captura do soldado israelense Gilad Shalit, e se agravou mais ainda em maio de 2007, após o Hamas tomar o controle da região, levou à falência grande parte do setor privado da economia local.

A proibição da exportação de mercadorias causou o fechamento de fábricas que exportavam produtos para Israel e para o exterior. O setor de construção civil ficou completamente paralisado em consequência da proibição à entrada de materiais de construção. De acordo com o governo israelense, a proibição relacionada aos materiais de construção, principalmente aço e cimento, tem o objetivo de impedir que o Hamas utilize os materiais para fins militares.

Empregador

Nessas circunstâncias, o setor público, controlado pelo Hamas, tornou-se o principal empregador da população da Faixa de Gaza, onde o índice de desemprego é um dos maiores do mundo, chegando a 45%. Segundo o relatório da agência da ONU, dos 1,5 milhão de habitantes da Faixa de Gaza, apenas 190.365 trabalham, e a maioria deles é empregada pelo governo do Hamas.

O estudo também indica que, desde a imposição do bloqueio, o número de pessoas que vivem com um orçamento de cerca de US$ 1 por dia se triplicou, chegando hoje a 300 mil - um quinto da população.

Segundo o porta-voz da agência da ONU, "o bloqueio à Faixa de Gaza é um dos mais longos na história da humanidade e é chegado o momento de repensá-lo". O porta-voz também afirmou que as conclusões do relatório são "preocupantes", sendo os refugiados palestinos que vivem na Faixa de Gaza, que compõem cerca de 70% da população, os principais afetados pela situação.

O relatório publicado pelo Centro Peres pela Paz, ONG fundada pelo presidente de Israel, Shimon Peres, confirma os dados publicados pela ONU. O estudo da ONG afirma que "a política israelense que visava ao enfraquecimento econômico do Hamas fracassou".

'Economia dos túneis'

Segundo o estudo, o bloqueio levou ao empobrecimento geral da população de Gaza, porém o governo do Hamas "se fortaleceu muito" em decorrência da chamada "economia dos túneis". Durante esses cinco anos de bloqueio, a maioria dos bens de consumo no território foi trazida de fora para a Faixa de Gaza por intermédio de centenas de túneis escavados em direção ao Egito.

De acordo com o relatório do Centro Peres, com a "economia dos túneis", empresários ligados ao Hamas controlam o comércio da Faixa de Gaza e cobram taxas que, por sua vez, financiam a atividade das forças de segurança da organização.

"Os empresários de Gaza que tinham relações comerciais com Israel (antes do bloqueio) praticamente pararam de trabalhar, enquanto o Hamas conseguiu importar mercadorias através dos túneis", afirma o estudo. "Assim, o Hamas transformou as restrições israelenses em instrumento para seu sucesso econômico", conclui o relatório do Centro Peres.

Desde junho de 2010, Israel vem aumentando o volume de mercadorias que podem entrar na Faixa de Gaza, porém as restrições à exportação e à entrada de materiais de construção continuam. Em 28 de maio, o Egito abriu a fronteira de Rafah para entrada e saída de palestinos da Faixa de Gaza. A medida, no entanto, não vislumbra o trânsito de mercadorias.

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