Ausência de Chávez evidencia falta de líderes consolidados na Venezuela

Analistas falam em incerteza para eleições de 2012 e alertam para risco de disputas internas dentro do próprio chavismo

BBC Brasil |

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A ausência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que continua se recuperando em Cuba após a retirada de um tumor cancerígeno, evidencia a falta de outras lideranças consolidadas no país, segundo analistas, o que torna incerta a sucessão presidencial e pode colocar em risco a chamada Revolução Bolivariana.

"Neste momento não há revolução sem Chávez, pode haver governo, o que é diferente", afirmou à BBC Brasil o cientista político Nicmer Evans.

As variáveis que determinam o futuro político do país dependem, fundamentalmente, da gravidade do câncer e do tratamento a que Chávez está sendo submetido.

A primeira incerteza é se o líder venezuelano terá capacidade de vencer a doença e retomar o poder nos próximos meses. A segunda, determinante, é se o presidente será capaz de manter a campanha para a reeleição presidencial em 2012. "Caso o presidente não possa participar da campanha, o partido terá de pensar na ideia que vinha sendo combatida até agora: o chavismo sem Chávez", afirmou Evans.

Segundo analistas, são quatro as lideranças políticas que aparecem com mais popularidade e poder no interior do governo: o vice-presidente Elias Jaua, o chanceler Nicolás Maduro, o ministro de Energia e Petróleo Rafael Ramirez, e o menos popular, porém poderoso dentro das Forças Armadas, Diosdado Cabello - deputado da Assembleia Nacional e ex-ministro de Obras Públicas.

Figuras

Para o diretor da consultoria 30-11 Germán Campos, a dupla Jaua-Maduro "tende a se fortalecer" na ausência de Chávez. "Jaua tem o peso da Vice-Presidência e Maduro, sem dúvida, é um dos homens que Chávez tem projetado politicamente ", afirmou Campos à BBC Brasil. Essa liderança, no entanto, não pode se consolidar sem o aval de Chávez, explica Campos.

"Chávez tem o controle das Forças Armadas, e qualquer liderança alternativa precisa ser aceita pelos militares", afirmou Campos. O especialista pondera, no entanto, que até o momento "nem militares, nem o partido do governo, o PSUV, estão pensando em sucessão".

O PSUV tem reforçado a mensagem de que o presidente Chávez é o único líder da revolução bolivariana e, como tal, há de haver unidade. "Aqui quem manda é Chávez (...), o presidente é um batalhador e sairá vitorioso dessa nova luta", afirmou o ministro de Energia e Petróleo, em um ato público em Caracas.

À lista de "sucessores" poderia entrar o irmão do presidente Adán Chávez, que não conta com a mesma base política dos demais, mas pode ter o próprio presidente como alavanca política.

Para o analista político Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis, uma ausência prolongada do presidente venezuelano pode "desatar um conflito interno pelo poder" dentro do chavismo. "A tendência agora é um chavismo muito mais radical, tentando evitar que o adversário tome vantagens da situação", afirmou León.

Oposição

A decisão da oposição de ter um candidato único foi tomada com base em um cenário em que Chávez seria o adversário. Para tentar derrotá-lo, teriam de unir forças. "Se Chávez não for candidato, é provável que a oposição rompa a aliança e articule candidaturas separadas, por coalizões ou partidos", afirmou León.

Segundo Evans, "há uma Chávez-dependência, para bem e para mal, tanto no governo, como na oposição.

A doença de Chávez mostra aos simpatizantes e aos adversários do governo que o presidente é um ser humano e, portanto, mortal. A aparente invencibilidade que o então energético líder venezuelano construiu no imaginário popular ao longo de 12 anos fez com que seus aliados o vissem como um "super-herói", e seus opositores o tratassem como um “supervilão”.

Reuters
Partidária de Chávez pinta seu rosto em muro de Caracas
"Aqui estou como humano, como companheiro, como camarada, agradecido, recuperando fortalezas físicas, intelectuais (...) quem disse que o caminho era fácil?", comentou Chávez, em vídeo transmitido pela TV estatal nesta sexta-feira, durante reunião de trabalho do presidente com Adán, Maduro e o general Henry Rangel Silva.

Em um vídeo gravado no dia 29, Chávez aparece com semblante animado, rindo e cantando, contrastando as imagens transmitidas na noite da quinta-feira, quando Chávez anunciou a detecção de câncer na região pélvica. "Minha disciplina para recuperar a saúde é rigorosa, assim como quando éramos cadetes, até coloquei o uniforme", disse Chávez, bem humorado, ao mostrar o uniforme esportivo do Exército.

O centro de Caracas é palco de pequenas concentrações em apoio ao presidente. A ausência do mandatário venezuelano também será sentida durante a comemoração do bicentenário da independência do país, em 5 de julho.

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