AIEA diz que radiação diminuiu, mas milhares são orientados a ficar em casa

País se aproxima de desastre nuclear após incêndio e nova explosão em usina; para França, situação só perde para Chernobyl

iG São Paulo |

A Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (AIEA) anunciou nesta terça-feira que o nível de radiação nas proximidades da usina de Fukushima Daiichi, no Japão, vem diminuindo significativamente desde a madrugada desta terça-feira. O porta-voz do governo, Yukio Edano, disse que o alto nível de radiação detectado no início da manhã, após a explosão no reator 2 e o incêndio no reator número 4 da usina, " certamente teria efeitos negativos no corpo humano ".

A AIEA disse que outras usinas nucleares japonesas, como Onagawa, Tokai e Fukushima Daini estão "estáveis e seguras', mas que a situação em Fukushima Daiichi, onde estão os reatores danificados, ainda é preocupante. Uma zona de exclusão aérea foi estabelecida sobre o complexo nuclear. Segundo o diretor-geral da agência nuclear da ONU, Yukiya Amano, há o temor de que tenha acontecido um dano no núcleo do reator 2 da usina.

De acordo com a AIEA, 150 pessoas na região da usina foram examinadas para detectar possíveis contaminações por radiação. Já foram tomadas medidas para a descontaminação de 23 pessoas.

A agência diz que o total de radiação a que uma pessoa normalmente se expõe durante um ano, contando todas as fontes normais, é de cerca de 2,4 milisieverts (unidade de medida que avalia os efeitos da radiação absorvida pelo organismo). Pessoas que vivem nas proximidades de instalações nucleares estão expostas a uma dose de 1 milisievert adicional ao ano, segundo a agência.

Dentro da usina de Fukushima Daiichi, uma medição chegou a detectar 400 milisieverts de radiação no ar, entre os reatores número 3 e número 4. Nos arredores da instalação, a quantidade de radiação liberada no ar chegou a atingir 11,9 milisieverts, mas caiu para 0,6 milisieverts seis horas depois.

A Organização Meteorológica Mundial disse que ventos começam a dispersar o material radioativo do ar para o oceano. No entanto, há previsões de que a direção das correntes de ar mudem amanhã.

O primeiro-ministro japonês Naoto Kan pediu aos moradores em um raio de até 30 quilômetros da usina nuclear de Fukushima Daiichi que permaneçam dentro de casa com as janelas fechadas, para evitar a exposição à radiação.

Explosões

A rede de TV pública NHK disse que, segundo a polícia japonesa, todos os moradores a menos de 20 quilômetros da usina já deixaram o local. Horas antes, o premiê Naoto Kan havia determinado que a região fosse evacuada imediatamente. "Ainda há um risco muito alto de que mais radiação vaze", disse Kan em um pronunciamento exibido na televisão japonesa.

Segundo a Kyodo, a empresa que opera a usina, Tokyo Electric Power (Tepco), disse que o problema pode se tornar uma situação crítica caso o núcleo do reator número 2 derreta.

O temor de que possa haver o derretimento dos núcleos dos reatores do complexo nuclear aumentou após uma nova explosão na manhã desta terça-feira (horário do Japão), a terceira desde o terremoto seguido de um tsunami que atingiu o país há quatro dias. A explosão ocorreu no reator 2, que os engenheiros tentavam estabilizar.

Outros dois reatores já haviam sofrido explosões desde que os sistemas de resfriamento das barras de combustível das instalações parou de funcionar, em consequência do terremoto.

Um incêndio no reator 4 nesta terça-feira também teria levado a vazamentos radioativos. Após a explosão, que danificou parte do recipiente que contém o reator, a empresa pediu que quase 800 técnicos deixassem a usina. No entanto, cerca de 70 permanecem realizando a operação de resfriamento do reator 2, na tentativa de evitar seu superaquecimento.

Na Província de Ibaraki, ao sul de Fukushima, o nível de radiação na terça-feira estava 100 vezes maior do que o normal. Na Província de Kanagawa, a sudoeste de Tóquio, radiação nove vezes maior do que o nível normal também foi detectada. Em Tóquio, os níveis estariam acima do normal, mas sem apresentar riscos à saúde, segundo o governo.

Também nesta terça-feira, a Organização Mundial da Saúde manifestou apoio à maneira como o governo japonês está lidando com a situação. O porta-voz da instituição, Gregory Hartl, disse que o país está tomando todas as medidas necessárias para proteger a população.

Nível seis de gravidade

A Autoridade de Segurança Nuclear da França (ASN) informou nesta terça-feira que as explosões ocorridas na central japonesa de Fukushima Daiichi atingiram o nível seis de gravidade em uma escala internacional que vai até sete. O Japão, até o momento, classificou os acidentes em nível quatro.

O nível seis da  chamada escala INES, de classificação de eventos nucleares, que é utilizada pela AIEA, significa "acidente grave, com liberação importante de material radioativo que exige a aplicação integral das medidas previstas (como cuidados sanitários e afastamento da população da área atingida)". O nível sete só ocorreu uma vez no mundo, na catástrofe de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

"Estamos em uma situação diferente da observada ontem (segunda-feira). É evidente que estamos em um nível seis, que é um nível intermediário entre o (acidente) que ocorreu na central americana de Three Mile Island (em 1979) e em Chernobyl", afirmou nesta terça o presidente da Autoridade de Segurança Nuclear francesa, André-Claude Lacoste. "Estamos em uma catástrofe evidente".

Na segunda-feira, a ASN francesa havia informado que o acidente na central de Fukushima Daiichi, situada a cerca de 250 km de Tóquio, se situaria entre o nível cinco e seis.

Os especialistas franceses em energia nuclear afirmam que suas conclusões sobre a gravidade da situação em Fukushima são baseadas em informações transmitidas pela agência nuclear japonesa, pela AIEA e por representantes da embaixada da França em Tóquio.

Segundo Lacoste, a cápsula de confinamento (que protege o núcleo para evitar contaminações radioativas) do reator número dois de Fukushima, que explodiu nesta terça-feira, no horário local, "não está mais vedada".

Desabrigados

Mais de 3,3 mil pessoas morreram em consequência do terremoto e do tsunami no Japão, mas estimativas indicam que o total de mortos no desastre pode ultrapassar 10 mil.

Cerca de 500 mil pessoas estão desabrigadas, enquanto dois milhões de residências permanecem sem eletricidade. Quase o mesmo número de casas está sem água.

Com BBC

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