Saga dos decasséguis, "tapa-buracos" da indústria japonesa, faz 25 anos

Por BBC |

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Lei em 1990 permitiu que descendentes de japoneses pudessem trabalhar no país, atraindo milhares de brasileiros

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Ricardo Juneck começou em uma indústria e hoje já é chef registrado, ensinando japoneses
Ewerthon Tobace/BBC Brasil
Ricardo Juneck começou em uma indústria e hoje já é chef registrado, ensinando japoneses

Há 20 anos, Ricardo Juneck, 46, viu no Japão uma oportunidade de dar impulso a sua carreira como chef de cozinha. Fechou um restaurante em Registro (SP), fez as malas e foi encarar o trabalho pesado das fábricas japonesas.

"Vim com o objetivo de buscar recursos financeiros para investir e ampliar o negócio no Brasil", contou o brasileiro à BBC Brasil.

Assim como Juneck, milhares de outros brasileiros apostaram no Japão como uma forma de levantar dinheiro para conseguir realizar seus sonhos, em um espaço relativamente curto de tempo de trabalho.

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Eles são conhecidos como decasséguis, palavra japonesa que significa, literalmente, sair de sua terra para trabalhar em outro lugar. Ela era usada antes para se referir a migrantes internos, que deixavam suas cidades no interior para trabalhar nas metrópoles, mas hoje se refere principalmente aos descendentes que retornam ao Japão.

A saga dos decasséguis brasileiros completa 25 anos agora em junho. A BBC Brasil publica ao longo desta semana, uma série especial de reportagens contando a trajetória de vários deles. 

Eles são filhos e netos de japoneses que imigraram para o Brasil no século passado. Os japoneses começaram a chegar em 1908 e foram trabalhar em plantações de café e outras atividades essencialmente agrícolas.

Com a mudança da situação política e econômica nos dois países, houve uma inversão no fluxo: os descendentes tomaram rumo contrário de seus pais e avós e passaram a buscar no Japão uma oportunidade de uma vida melhor.

No entanto, para estes novos imigrantes, as oportunidades não estavam na lavoura, mas na indústria.

Visto especial
Oficialmente, o movimento teve início em junho de 1990, com a mudança na legislação de imigração japonesa.

A partir daquele ano, os descendentes nipônicos ganharam o direito a um visto temporário de longa estada, que permite trabalhar no país.

A lei deu início a uma grande onda de imigração - alguns decasséguis já tinham chegado antes, na segunda metade dos anos 80, entrando com visto de turista ou com o passaporte japonês.

No Brasil, o cenário era de inflação alta e desemprego, enquanto o Japão prosperava, com suas indústrias de eletrônicos, de carros e de autopeças em pleno vapor.

Faltava mão de obra não-qualificada – o baixo índice de natalidade e o alto grau de instrução dos japoneses contribuíram para a falta de trabalhadores braçais.

"Os japoneses queriam suprir essa demanda sem abrir as portas para qualquer estrangeiro. Solução mais rápida que trazer os descendentes não havia, ainda que fosse um tremendo 'tapa-buracos'", disse o sociólogo Angelo Ishi, professor da Universidade Musashi e pesquisador do movimento decasségui.

Sonho realizado
No auge do movimento decasségui, em 2008, o número de brasileiros no Japão chegou a 320 mil. Sem contar os que já haviam se naturalizado japoneses.

Mas com a chegada da crise econômica, os trabalhadores braçais estrangeiros foram os primeiros a serem cortados das fábricas e, desde então, a comunidade brasileira diminuiu bastante.

Hoje são cerca de 170 mil brasileiros que continuam acreditando no Japão como trampolim para realizar os sonhos.

Juneck, por exemplo, conseguiu trocar o uniforme de fábrica pelo avental de chef.

"Nos finais de semana eu e minha esposa fazíamos salgadinhos e comida brasileira. Os pedidos foram aumentado, fui comprando equipamentos e, com o dinheiro que juntamos na fábrica, abri meu primeiro negócio aqui mesmo no Japão", disse.

Há 15 anos, Juneck não bate mais cartão de ponto. Hoje ele possui uma escola de culinária japonesa e uma empresa de catering. É um dos poucos estrangeiros que possui o certificado de mestre de sushi.

"Ensino até japoneses a fazer a iguaria", conta ele, que já formou mais de 2,5 mil alunos.

Patrícia Shibata queria comprar uma casa para os pais e pagar a faculdade, mas hoje trabalha como fotógrafa freelance
Arquivo pessoal/BBC Brasil
Patrícia Shibata queria comprar uma casa para os pais e pagar a faculdade, mas hoje trabalha como fotógrafa freelance

O brasileiro continua com o sonho de expandir os negócios no Brasil. "Dou cursos em algumas cidades lá e a ideia é abrir uma filial da minha escola", afirmou o chef, que também dá cursos em Portugal.

No ano passado, Juneck foi um dos escolhidos pela Associação Nacional de Sushi do Japão, órgão que certifica os profissionais da área, para representar o país na Copa do Mundo de Sushi, ao lado de outros 20 chefs do mundo todo.

Juneck ficou em 4º na categoria sushi tradicional. "O Japão ajudou a realizar meu sonho. Tenho hoje um filho na faculdade e consegui ser reconhecido na área que investi a vida toda", afirmou.

Vida difícil
Mas grande parte dos decasséguis não conseguiu realizar os seus sonhos.

Na época da crise econômica, por exemplo, muitas famílias perderam emprego e, sem dinheiro, tiveram de deixar o alojamento. Precisaram ainda da ajuda de outros conterrâneos para poder comer.

"O Japão era para ser uma plataforma para crescer. Mas por falta de experiência e de alguém para me guiar acabei não fazendo poupança e, sem planejamento, não atingi os objetivos que tinha colocado na cabeça", disse Patrícia Rodrigues Shibata, 40, que chegou ao Japão em 1991.

Agora, ela tenta se estabelecer por aqui. Ainda sonha conseguir um bom emprego e ter uma vida tranquila. "O Japão me fez distanciar da família e dos amigos. Acabei ficando sozinha", lamentou a brasileira, que hoje trabalha como fotógrafa freelance.

Natural de Piedade, no interior de São Paulo, Patrícia conta que sofreu muito para se adaptar à cultura japonesa. "Além disso, só peguei serviço pesado e um trabalho de inspeção de peças acabou com minha vista", contou.

O objetivo era ficar pouco tempo, o suficiente para juntar recursos para comprar uma casa para os pais e pagar a sonhada faculdade. "Mas fiquei grávida e tive de mudar os planos", afirmou.

Hoje, separada, ela cuida dos três filhos – 20, 17 e 13 anos, respectivamente. Ainda se esforça para aperfeiçoar o idioma japonês e, apesar de todos os problemas pelos quais passou, diz que não se arrepende de ter vindo ao Japão.

"O único arrependimento da minha vida é não ter terminado os estudos", afirmou.

Ajuda do governo

Outra brasileira que enfrentou dificuldades é Sueli Gushi, de 47 anos.

Há quase 22 anos morando no Japão, ela veio com a ideia de juntar economias para comprar um imóvel no Brasil.

Sueli tentava comprar uma casa no Japão mesmo, mas ficou doente e agora começou a carreira de cantora
Arquivo pessoal/BBC Brasil
Sueli tentava comprar uma casa no Japão mesmo, mas ficou doente e agora começou a carreira de cantora

Aos poucos foi mudando de ideia e resolveu investir em uma casa própria no Japão mesmo. Ela tentava juntar dinheiro com trabalhando numa fábrica.

Mas o drama na vida de Sueli começou no final de 1999, quando perdeu os rins por causa de uma diabetes. Depois disto, a saúde dela só se debilitou.

Passou por cirurgia nos olhos, nos pulmões e teve de colocar ainda quatro pontes de safena.

"Meu pai me doou um rim, mas por causa de uma série de infecções ele parou de funcionar e tive de voltar à hemodiálise", disse.

A doença transformou radicalmente a rotina da brasileira. Desde o começo dos anos 2000, ela não trabalha e vive de uma ajuda de sobrevivência do governo japonês.

"Apesar de todas as cirurgias e do tratamento desgastante que tenho de fazer, ainda consigo estar mais ou menos ativa", afirmou Sueli, que, entre uma sessão e outra de hemodiálise, atua como voluntária e, ainda, faz shows como cantora.

"Dificuldades todos temos, mas aprendi que o melhor lugar do mundo é onde se vive bem. E o Japão é um lugar que ainda me permite lutar por meus sonhos. Afinal, onde eu poderia começar a cantar depois dos 47 anos?", disse.

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