O homem que explodiu estátuas históricas para o Talebã

Por BBC - Nasir Behzad e Daud Qarizadah |

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Antigas esculturas de arenito, que chegaram a ser as mais altas estátuas de Buda do mundo, foram aniquiladas em um ato de destruição que chocou o mundo

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Mirza Hussain diz que, se não tivesse ajudado a destruir as estátuas, teria sido morto pelo Talebã
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Mirza Hussain diz que, se não tivesse ajudado a destruir as estátuas, teria sido morto pelo Talebã

Mirza Hussain tinha 26 anos quando líderes do Talebã ordenaram que ele colocasse bombas nas famosas estátuas de Budas em sua província natal, Bamiyan, no Afeganistão.

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As antigas esculturas de arenito, que chegaram a ser as mais altas estátuas de Buda do mundo, foram aniquiladas em um ato de destruição que chocou o mundo e abriu precedente para o recente vandalismo de antiguidades iraquianas por parte de combatentes do grupo autodenominado "Estado Islâmico".

Passados 14 anos desde a destruição dos Budas, muito mudou no Afeganistão. Mas Mirza ainda se lembra com detalhes do episódio.

"Primeiro, eles atingiram os Budas com tanques e disparos. Quando viram que não fazia efeito, colocaram explosivos para destruí-los", disse à BBC.

Foi quando Mirza foi recrutado, junto a outros moradores da região que estavam sob o poder do Talebã.

Como a maioria da população da cidade de Bamiyan, Mirza é um muçulmano xiita - portanto, era visto como um inimigo e um infiel sob os olhos do Talebã, que é um grupo muçulmano sunita.

O grupo tomou controle da província em maio de 1999, depois de meses de combate. Moradores fugiram ou foram capturados.

"Eu estava junto com 25 prisioneiros. Não havia civis na cidade, apenas combatentes do Talebã", recorda Mirza. "Fomos escolhidos porque não havia mais ninguém. Éramos prisioneiros e tratados como pessoas que poderiam ser descartadas a qualquer momento."

As estátuas, antes e depois; patrimônio histórico foi destruído em 2001 pelo Talebã
AP/APF/BBC Brasil
As estátuas, antes e depois; patrimônio histórico foi destruído em 2001 pelo Talebã

Armas e dinamite
Mirza conversou com a BBC diante dos majestosos penhascos de Bamiyan onde, até 2001, estavam as estátuas gigantes. Ele contou que o Talebã levou armas e dinamite para detonar no local. Ele e os demais reféns esperavam morrer a qualquer momento, fosse nas explosões ou nas mãos dos guardas.

"Quando um dos homens, que tinha um problema na perna, não conseguiu mais carregar os explosivos, o Talebã atirou nele na hora e deu o corpo a outro prisioneiro, para que ele o descartasse."

Segundo Mirza, os homens passaram três dias colocando os explosivos ao redor das estátuas, de até 55m de altura. Foram detonados aos gritos de "Allah Akbar" (Deus é grande).

Foram necessários diversos dias para destruir as esculturas - que remetiam ao século 6, quando Bamiyan era um local sagrado para o budismo.

Mesmo diante da condenação internacional, o Talebã não recuou. Mirza diz que mais explosivos foram levados ao local.

"A partir de então, eles faziam duas ou três explosões por dia para destruir os budas completamente. Fazíamos buracos nas estátuas para plantar dinamite. Não tínhamos as ferramentas adequadas. O processo todo durou 25 dias."

Os reféns eram alimentados com pequenas porções de arroz e pão, e Mirza diz que durante todo esse tempo ele usou a mesma roupa e um fino cobertor para se proteger nas noites frias.

Quando as estátuas foram finalmente destruídas, o Talebã comemorou.

"Eles dispararam tiros ao ar, dançaram e levaram nove vacas para serem sacrificadas."

Sem escolha
Mirza diz que hoje se sente seguro em Bamiyan e espera que o governo e doadores estrangeiros reconstruam as estátuas. Quanto ao seu papel na destruição, ele só sente remorso.

"Lamentei na época, lamento agora e sempre lamentarei", diz. "Mas não tinha como resistir, não tinha escolha, porque eles teriam me matado."

Seu desejo pela reconstrução, no entanto, provavelmente não será realizado, pelo menos não no futuro próximo.

Arrastou-se por anos um debate sobre reconstruir ao menos uma das estátuas ou deixar seus buracos gigantes como uma recordação da destruição.

Para moradores como Mirza, conservar a herança histórica da região não significa apenas preservar a identidade de Bamiyan, mas também construir um futuro sustentável calcado no turismo.

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