Crise no Iraque alimenta sonhos de independência dos curdos

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Etnia curda no norte do Iraque aproveita tumulto causado por avanço sunita para reforçar controle na petrolífera Kirkuk

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Enquanto o caos se alastra no Iraque e se aproxima da capital Bagdá, os curdos no norte aproveitam silenciosamente o tumulto para expandir e reforçar o seu controle na cidade de Kirkuk, rica em petróleo, e que estava há tempos nos sonhos de conquista da etnia.

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AP
Reprodução de vídeo mostra forças de segurança curdas, conhecidas como peshmerga, combatendo o Exército Islâmico do Iraque e do Levante em Tel Al Wared, a 20 km de Kirkuk

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A tomada da cidade no norte do país foi um movimento tanto defensivo quanto ambicioso e envolveu oportunismo e risco. "Parte da motivação foi evitar um desastre humanitário", disse uma fonte de alto escalão em Irbil.

"Se não tivéssemos preenchido o vazio deixado pela saída do Exército iraquiano, todos teriam invadido a região do Curdistão. Tivemos meio milhão de pessoas batendo em nossas portas."

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"É muito mais simples enviar 100 militares curdos para manter a segurança e assim as pessoas podem ficar. Uma vez que nossas unidades entraram, os desabrigados começaram a voltar."

Mas a situação é claramente mais do que isso. Os meios de comunicação curdos comemoraram a tomada da cidade como um passo para a reunificação histórica das terras curdas.

Joia da coroa

A cidade de Kirkuk, que tem uma população mista de curdos, árabes e turcomanos, tem sido um assunto delicado da política iraquiana.

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Seu estatuto especial de cidade disputada foi reconhecido na Constituição iraquiana pós-Saddam Hussein e indicava alguns itens para que a cidade fosse "normalizada":

- retorno para o sul dos árabes que lá se estabeleceram durante o regime de Saddam;
- volta dos curdos expulsos;
- realização de um censo;
- convocação de referendo para decidir se a cidade deve se unir à região autônoma do Curdistão.

Veja fotos da crise no Iraque:

Membros do Exército feminino treinam habilidades de combate antes de combaterem o Estado Islâmico em acampamento militar no Iraque (18/09). Foto: ReutersMilitar curdo lança morteiros em direção Zummar, controlada pelo Estado Islâmico, em Mosul, Iraque (15/09). Foto: ReutersMilitantes do Estado Islâmico levam soldados iraquianos capturados depois de assumir base em Tikrit, Iraque (junho/2014). Foto: APObama prometeu ofensiva com ataques aéreos na Síria e no Iraque para combater EI (12/09). Foto: ReutersMilitares curdos em tanque enfrentam militantes do Estado islâmico em Mosul, Iraque (7/09). Foto: ReutersMilitante curdo dá cobertura durante confrontos do Estado Islâmico na linha de frente da vila de Buyuk Yeniga, Iraque (4/09). Foto: ReutersMilicianos xiitas do Iraque disparam suas armas enquanto celebram a quebra de cerco do Estado Islâmico em Amerli (1/09). Foto: ReutersGrupo carrega caixão de militante xiita iraquiano da Organização Badr, que foi morto em confrontos com militantes do Estado Islâmico no Iraque (1/09). Foto: ReutersCriança chora em helicóptero militar após ser retirada pelas forças iraquianas de Amerli, ao norte de Bagdá (29/08). Foto: ReutersCurdos e militantes islâmicos lutam no norte do Iraque (12/08). Foto: ReutersIraquianos carregam retratos do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki enquanto se reúnem em apoio a ele em Bagdá, Iraque (11/08). Foto: ReutersMilhares de iraquianos fugiram com avanço de militantes do EI, inclusive integrantes de minorias religiosas (9/08). Foto: APTropas curdas implantam segurança intensa contra os militantes islâmicos do Estado em Khazer (8/08). Foto: ReutersTropas curdas patrulham em um tanque durante operação contra militantes do Estado Islâmico em Makhmur, nos arredores da província de Nínive, Iraque (7/08). Foto: ReutersParentes choram a morte de homem da YPG, morto durante confrontos com combatentes do Estado Islâmico na cidade iraquiana de  Rabia, na fronteira do Iraque-Síria (6/08). Foto: ReutersVoluntários xiitas do Exército iraquiano se recuperam em hospital após serem feridos em confrontos com militantes do Estado Islâmico em Basra, sudeste de Bagdá (6/08). Foto: ReutersMulher visita túmulo de um parente em cemitério durante as celebrações do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, em Bagdá (28/07). Foto: ReutersSoldado iraquiano perto de corpo de um membro do Estado Islâmico que morreu durante confrontos com forças iraquianas em Tikrit, Iraque (19/07). Foto: ReutersBandeira preta usada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante flamula de delegacia danificada em Mosul, norte do Iraque (1/7). Foto: APVoluntário xiita do Conselho Supremo Islâmico Iraquiano aponta arma durante treinamento em Najaf, Iraque (26/6). Foto: ReutersMembros das forças de segurança iraquianas tomam suas posições durante reforço de segurança no oeste de Bagdá, Iraque (24/6). Foto: ReutersXiitas iraquianos se preparam para patrulhar a aldeia de Taza Khormato, na rica província petrolífera de Kirkuk, no Iraque (22/6). Foto: APCombatentes xiitas levantam suas armas e entoam palavras de ordem após autoridades pedirem ajuda para conter os insurgentes em Sadr, em Bagdá, Iraque (17/06). Foto: APManifestantes gritam em favor do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em frente do governo provincial de Mosul (16/4). Foto: APCombatentes tribais xiitas mostram suas armas enquanto tomam parte de Dujail, ao norte de Bagdá, Iraque (16/06). Foto: ReutersCombatentes tribais xiitas levantam suas armas e gritam palavras de ordem contra sunita Exército Islâmico em Basra, Iraque (16/6). Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL mirando contra soldados à paisana depois de tomar base in Tikrit, Iraque. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque
. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

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Mas isso nunca ocorreu e Kirkuk, bem como as outras áreas disputadas por iraquianos árabes (sunitas e xiitas) e curdos, têm sido palco de embates entre essas forças. Agora, o governo iraquiano deixou Kirkuk cair nas mãos dos curdos.

Com o restante do Iraque envolvido em conflitos sectários e o governo de Bagdá em desordem, fica claro que a autoridade iraquiana terá dificuldade para desafiar a tomada de Kirkuk pelos curdos, já que eles acreditam que a cidade historicamente sempre lhes pertenceu.

A região do Curdistão já preocupou o governo iraquiano ao vender por conta própria seu petróleo e gás para a vizinha Turquia, com quem o governo regional havia desenvolvido uma estreita parceria mesmo com as suspeitas de que os turcos apoiaram os curdos.

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Agora parece que a tomada de Kirkuk, rica em petróleo, pode levar à independência da região do Curdistão. "De fato, ficamos mais perto da independência", disse uma fonte influente. "Ninguém se esforçou mais do que a gente para manter o Iraque unido, mas agora estamos desistindo, não há esperança".

Mas essas ambições não são isentas de riscos.

Se a instabilidade se espalhar, pode afetar o atual boom de investimentos e da atividade econômica no Curdistão, que floresceu, enquanto a maior parte do Iraque se viu estagnada.

Até o momento, o grupo político que tem mostrado a cara na recente crise iraquiana é o extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), inspirado na al-Qaeda.

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Mas desde o início da insurgência anti-EUA desde 2004, ficou evidente que existem outras vertentes revoltadas, o que explica a rapidez com que avançam principalmente sobre as áreas sunitas.

Os curdos não têm simpatia pelos radicais do EIIL, mas mantêm contato com outros grupos, como os líderes dos Conselhos Militares e Revolucionários Iraquianos (MCIR, sigla em inglês), que inclui muitos ex-oficiais do Exército iraquiano.

Os curdos receberam garantias do MCIR de que não vão se aproximar das fronteiras do Governo Regional do Curdistão, segundo um porta-voz do MCIR.

Esse grupo considera que seus combatentes são a voz mais importante nessa revolta, seguidos de militantes tribais e do EIIL, apesar destes atraírem as atenções da mídia internacional.

Quando os rebeldes sunitas tomaram a cidade de Fallujah, a oeste de Bagdá, em janeiro, o primeiro-ministro Nouri Maliki pediu aos curdos para enviar forças militares para ajudar a expulsá-los, segundo fontes.

Mas o pedido foi recusado. A mensagem da liderança curda ao MCIR simbolizava que eles não tinham nada contra os sunitas procurarem um caminho próprio, como o Curdistão.

Não é difícil prever um cenário futuro onde as forças curdas ajudem grupos "moderados", como o MCIR. Mas há sinais de um potencial conflito entre as vertentes do movimento rebelde, embora no momento elas estejam atuando em conjunto.

Visões diferentes

Os sunitas veem o primeiro-ministro xiita como um intruso, um "terrorista", e a revolta deles têm muito a ver com isso.

Os americanos e demais países estão conscientes de que a turbulência reflete o fracasso de Maliki de incluir as principais forças políticas sunitas no processo político.

Apesar de suas diferenças visíveis, os vários grupos da revolta sunita estão de acordo sobre a necessidade de seguir em direção a Bagdá.

Mas, como ocorreu com os curdos no norte, o curso dos acontecimentos dependerá muito do grupo que vai predominar dentro do movimento rebelde.

Se o EIIL prevalecer, conflitos sectários poderão ser esperados. Mas, se os grupos mais moderados predominarem, pode haver espaço para um acordo.

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