Etnia curda no norte do Iraque aproveita tumulto causado por avanço sunita para reforçar controle na petrolífera Kirkuk

BBC

Enquanto o caos se alastra no Iraque e se aproxima da capital Bagdá, os curdos no norte aproveitam silenciosamente o tumulto para expandir e reforçar o seu controle na cidade de Kirkuk, rica em petróleo, e que estava há tempos nos sonhos de conquista da etnia.

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Reprodução de vídeo mostra forças de segurança curdas, conhecidas como peshmerga, combatendo o Exército Islâmico do Iraque e do Levante em Tel Al Wared, a 20 km de Kirkuk
AP
Reprodução de vídeo mostra forças de segurança curdas, conhecidas como peshmerga, combatendo o Exército Islâmico do Iraque e do Levante em Tel Al Wared, a 20 km de Kirkuk

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A tomada da cidade no norte do país foi um movimento tanto defensivo quanto ambicioso e envolveu oportunismo e risco. "Parte da motivação foi evitar um desastre humanitário", disse uma fonte de alto escalão em Irbil.

"Se não tivéssemos preenchido o vazio deixado pela saída do Exército iraquiano, todos teriam invadido a região do Curdistão. Tivemos meio milhão de pessoas batendo em nossas portas."

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"É muito mais simples enviar 100 militares curdos para manter a segurança e assim as pessoas podem ficar. Uma vez que nossas unidades entraram, os desabrigados começaram a voltar."

Mas a situação é claramente mais do que isso. Os meios de comunicação curdos comemoraram a tomada da cidade como um passo para a reunificação histórica das terras curdas.

Joia da coroa

A cidade de Kirkuk, que tem uma população mista de curdos, árabes e turcomanos, tem sido um assunto delicado da política iraquiana.

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Seu estatuto especial de cidade disputada foi reconhecido na Constituição iraquiana pós-Saddam Hussein e indicava alguns itens para que a cidade fosse "normalizada":

- retorno para o sul dos árabes que lá se estabeleceram durante o regime de Saddam;
- volta dos curdos expulsos;
- realização de um censo;
- convocação de referendo para decidir se a cidade deve se unir à região autônoma do Curdistão.

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Mas isso nunca ocorreu e Kirkuk, bem como as outras áreas disputadas por iraquianos árabes (sunitas e xiitas) e curdos, têm sido palco de embates entre essas forças. Agora, o governo iraquiano deixou Kirkuk cair nas mãos dos curdos.

Com o restante do Iraque envolvido em conflitos sectários e o governo de Bagdá em desordem, fica claro que a autoridade iraquiana terá dificuldade para desafiar a tomada de Kirkuk pelos curdos, já que eles acreditam que a cidade historicamente sempre lhes pertenceu.

A região do Curdistão já preocupou o governo iraquiano ao vender por conta própria seu petróleo e gás para a vizinha Turquia, com quem o governo regional havia desenvolvido uma estreita parceria mesmo com as suspeitas de que os turcos apoiaram os curdos.

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Agora parece que a tomada de Kirkuk, rica em petróleo, pode levar à independência da região do Curdistão. "De fato, ficamos mais perto da independência", disse uma fonte influente. "Ninguém se esforçou mais do que a gente para manter o Iraque unido, mas agora estamos desistindo, não há esperança".

Mas essas ambições não são isentas de riscos.

Se a instabilidade se espalhar, pode afetar o atual boom de investimentos e da atividade econômica no Curdistão, que floresceu, enquanto a maior parte do Iraque se viu estagnada.

Até o momento, o grupo político que tem mostrado a cara na recente crise iraquiana é o extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), inspirado na al-Qaeda.

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Mas desde o início da insurgência anti-EUA desde 2004, ficou evidente que existem outras vertentes revoltadas, o que explica a rapidez com que avançam principalmente sobre as áreas sunitas.

Os curdos não têm simpatia pelos radicais do EIIL, mas mantêm contato com outros grupos, como os líderes dos Conselhos Militares e Revolucionários Iraquianos (MCIR, sigla em inglês), que inclui muitos ex-oficiais do Exército iraquiano.

Os curdos receberam garantias do MCIR de que não vão se aproximar das fronteiras do Governo Regional do Curdistão, segundo um porta-voz do MCIR.

Esse grupo considera que seus combatentes são a voz mais importante nessa revolta, seguidos de militantes tribais e do EIIL, apesar destes atraírem as atenções da mídia internacional.

Quando os rebeldes sunitas tomaram a cidade de Fallujah , a oeste de Bagdá, em janeiro, o primeiro-ministro Nouri Maliki pediu aos curdos para enviar forças militares para ajudar a expulsá-los, segundo fontes.

Mas o pedido foi recusado. A mensagem da liderança curda ao MCIR simbolizava que eles não tinham nada contra os sunitas procurarem um caminho próprio, como o Curdistão.

Não é difícil prever um cenário futuro onde as forças curdas ajudem grupos "moderados", como o MCIR. Mas há sinais de um potencial conflito entre as vertentes do movimento rebelde, embora no momento elas estejam atuando em conjunto.

Visões diferentes

Os sunitas veem o primeiro-ministro xiita como um intruso, um "terrorista", e a revolta deles têm muito a ver com isso.

Os americanos e demais países estão conscientes de que a turbulência reflete o fracasso de Maliki de incluir as principais forças políticas sunitas no processo político.

Apesar de suas diferenças visíveis, os vários grupos da revolta sunita estão de acordo sobre a necessidade de seguir em direção a Bagdá.

Mas, como ocorreu com os curdos no norte, o curso dos acontecimentos dependerá muito do grupo que vai predominar dentro do movimento rebelde.

Se o EIIL prevalecer, conflitos sectários poderão ser esperados. Mas, se os grupos mais moderados predominarem, pode haver espaço para um acordo.

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