Saiba quais são as opções do Ocidente para lidar com a crise da Ucrânia

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Ocidente poderia impor medidas para atingir Rússia em ponto sensível: o bolso. E isso pode ser feito sem o apoio da ONU

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“Um ato descarado de agressão em violação da lei internacional, em violação da Carta das Nações Unidas.” Essa foi a forma usada pelo Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, para descrever a intervenção da Rússia na Ucrânia. Ele ameaçou dizendo que a ação russa pode causar repercussões e também que “todas as opções estão sobre a mesa”.

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Mas o que os EUA podem considerar como “todas as opções”? De forma realista, o que os EUA e o Ocidente podem fazer?

Opções diplomáticas

O primeiro grande passo dado em resposta a uma ofensa internacional é uma condenação pelo Conselho de Segurança – que normalmente é seguido por resoluções prevendo etapas a ser cumpridas pelo ofensor. Quando isso falha, o órgão pode autorizar uma ação militar internacional.

Mas essas opções estão efetivamente descartadas. A Rússia é um membro permanente do conselho e pode – e vai – vetar qualquer tentativa de condenar suas ações. Essa é a falha estrutural do sistema do Conselho de Segurança: ser impotente contra seus membros permanentes.

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Mas há outros fóruns possíveis. Sete membros do G8, o grupo das nações mais industrializadas do mundo se voltaram contra seu oitavo membro, a Rússia, ao cancelar as preparações para uma reunião do grupo que ocorreria no país em junho.

Há também outras formas de cooperação com a Rússia que podem ser suspensas. A parceria entre Rússia e União Europeia, como seus encontros a cada dois anos, é uma delas. O Conselho Otan-Rússia é outra.

Mas voltar as costas para a Rússia na diplomacia causa grandes riscos. A cooperação da Rússia é vital para a política do Ocidente no Irã, na Coreia do Norte e no Afeganistão. O país também tem grande peso na Síria.

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AP
Secretário de Estado dos EUA, John Kerry (D), cumprimenta manifestante ucraniano em barricadas em Kiev, Ucrânia

A Grã-Bretanha teria ordenado um boicote ministerial aos Jogos Paralímpicos que começam nesta sexta-feira em Sochi – que fica a menos de 480 quilômetros da capital da Crimeia, Simferopol. Mas muitos países têm se mostrado relutantes para impor boicotes aos esportes desde retaliações em 1980 e 1984 durante a Guerra Fria.

Opções econômicas

Indo além das opções diplomáticas, o Ocidente poderia impor medidas para atingir o país em um ponto sensível: o bolso. E isso pode ser feito sem o apoio da ONU.

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A Rússia tem fortes ligações com o Ocidente. Os EUA recentemente cancelaram negociações com os russos sobre um tratado de investimento bilateral e questões energéticas.

Um dos maiores fatores que podem ser usados pela Europa para pressionar a Rússia - a energia do petróleo e do gás - é também uma fraqueza. A Rússia é o maior fornecedor internacional da Europa, vendendo cerca de 25% do gás em contratos de cerca de US$ 100 milhões por dia. Mas exatamente por causa dessa profunda dependência, a área de petróleo e gás se torna um campo de batalha improvável.

A Europa não têm alternativas para compensar uma eventual escassez dos produtos – apesar do fato de que depois de um inverno ameno o gás estocado deve ser suficiente para suprir o bloco por muitos meses.

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A elite rica da Rússia poderia ser um alvo. Visitantes frequentes do Ocidente, ela mantém bilhões investidos em bancos, propriedades e até times de futebol ocidentais.

O analista de segurança especializado em Rússia Mark Galeotti afirma: “A arma mais poderosa contra o Kremlin é mirar nas elites das quais eles dependem.” Ele afirmou que ações possíveis poderiam ser expulsão de autoridades, congelamento de recursos, restrições para vistos e até sanções contra empresas russas.

A pressão econômica do Ocidente sobre a Rússia pode ter que vir em longo prazo e enfatizar a redução de investimento e comércio.

Comboio de caminhões brancos com ajuda humanitária deixa Alabino, nos arredores de Moscou, Rússia (12/08). Foto: APManifestante ao lado de transeuntes na Praça da Independência em Kiev (9/08). Foto: ReutersManifestante segura coquetel molotov enquanto tenta impedir que trabalhadores municipais e voluntários limpem barricadas em Kiev (9/08). Foto: ReutersMembro de equipe antibomba inspeciona cratera com os restos de um projétil depois de uma noite de combates em Donetsk, Ucrânia (6/08). Foto: APMulher deixa prédio danificado por suposto bombardeio levando seus pertences na área central de Donetsk, Ucrânia (29/07). Foto: ReutersRebeldes pró-Rússia em um tanque com a bandeira da Rússia em uma estrada a leste de Donetsk, Ucrânia (21/07). Foto: APPrimeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk, à dir., conversa com um oficial durante inspecção ao Exército fora da cidade de Slovyansk, Ucrânia (16/07). Foto: APPremiê ucraniano, Arseniy Yatsenyuk (E), cumprimenta soldado ao inspecionar tropas em Slovyansk, leste da Ucrânia (16/07). Foto: APMulher chora perto de prédio que desmoronou após ataque aéreo em Snizhne, a 100 km a leste da cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia (15/07). Foto: APCombatente da República Popular de Donetsk se despede de sua família, que deixa essa cidade no leste da Ucrânia para refugiar-se na Rússia (14/07). Foto: APCombatentes separatistas pró-russos esperam atrás de sacos de areia em posto de controle em Donetsk, Ucrânia (10/07). Foto: ReutersMilitares ucranianos perto das armas apreendidas de separatistas pró-russos perto Slaviansk, Ucrânia (8/07). Foto: ReutersMilitante mascarado pró-Rússia organiza o trânsito em posto de controle após ataque das tropas ucranianas em Slovyansk (24/4). Foto: APAtiradores mascarados pró-Rússia guardam entrada de escritório regional ucraniano do Serviço de Segurança em Luhansk com bandeira russa ao fundo (21/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional capturado em Donetsk. Cartaz diz: 'EUA, tirem as mãos do leste da Ucrânia' (19/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia olha para o lado de fora de janela em prédio da administração regional de Donetsk, Ucrânia (18/4). Foto: APAtirador pró-Rússia abre caminho para veículo de combate com homens armados em seu topo em Slovyansk, Ucrânia (16/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional em Donetsk, Ucrânia (15/4). Foto: APAtivista pró-Rússia é visto durante invasão de delegacia na cidade de Horlivka, leste da Ucrânia (14/4). Foto: APAtivistas armados pró-Rússia ocupam a delegacia de polícia no leste da Ucrânia, na cidade de Slaviansk (12/04). Foto: APAtivistas pró-Rússia ocupam delegacia de polícia e constroem uma barricada na cidade ucraniana oriental de Slovyansk (12/04). Foto: APHomens armados não identificados caminham em área perto de unidade militar ucraniana em Simferopol, Crimeia (18/3). Foto: APSoldado armado, provavelmente russo, anda perto de uma base militar ucraniana na aldeia de Perevalnoye (9/3). Foto: ReutersUm homem armado, que se acredita ser um soldado russo, anda perto da base naval ucraniana na Crimeia, no porto de Yevpatory (8/3). Foto: ReutersMarinheiro observa navio inativo Ochakov, que foi afundado por tropas russas e bloqueou o tráfego de cinco embarcações ucranianas em Myrnyi, oeste da Crimeia, Ucrânia (6/3). Foto: APCriança brinca perto de soldado russo (D) enquanto soldados ucranianos observam do outro lado do portão de base em Perevalne, Crimeia (4/3). Foto: APSoldado pró-Rússia bloqueia base naval na vila de Novoozerne, Crimeia, na Ucrânia (3/3). Foto: APGrupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APComboio russo se move de Sevastopol para Sinferopol na Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APHomem com uniforme sem identificação monta guarda enquanto tropas tomam controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, em Sevastopol (Crimeia), na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Península da Crimeia (1/3)
. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

Restrições de vistos e congelamento de bens já foram usados antes – notadamente pelos Estados Unidos contra autoridades russas envolvidas na prisão, morte e julgamento póstumo do advogado Sergei Magnitsky. Essas sanções, relativamente limitadas tiveram um efeito ruim para as relações com a Rússia – que retaliou com medidas entre as quais o banimento das adoções entre americanos e russos.

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Mas Francesco Giumelli, especialista em sanções internacionais da Universidade de Groningen, na Holanda, diz que esse recurso não pode ser usado indiscriminadamente contra qualquer russo rico. “Legalmente é muito difícil... como você ligaria essas pessoas da elite a ações específicas na Crimeia? Você precisa provar que eles estão envolvidos em alguma coisa errada.”

Segundo ele, a proibição de viagens – não as medidas financeiras – são o primeiro passo mais provável, direcionado a generais e autoridades da Defesa com um papel direto na crise da Crimeia ou parlamentares que tenham apoiado a ação. Segundo ele, isso pode parecer “simbólico” mas mostra um comprometimento em agir – que pode passar por uma escalada mais tarde.

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Usar medidas mais duras contra o círculo mais próximo a Vladimir Putin ou que atinjam os empresários russos poderosos é provavelmente uma forma de apenas provocar retaliações. “E como isso pode ajudar a Ucrânia?”, diz Giumelli.

“É fácil dizer que nós precisamos ser fortes, mas e se eles (os russos) disserem o mesmo? Eu não acho que a União Europeia tem o desejo de elevar isso a uma situação em que alguém terá de recuar”, afirma.

Opções militares

Partir do pressuposto de que o termo “todas as opções” usado por Kerry não descarta a ação militar pode ser uma interpretação literal demais. Analistas concordam que não há perspectivas da Otan entrar em guerra com a Rússia por causa da Ucrânia. O chanceler britânico Willian Hague disse explicitamente: “Por enquanto, nenhuma ação militar está na mesa.”

A Ucrânia é um país parceiro da Otan mas não um membro da aliança militar ocidental e por causa disso não recebe garantias de segurança.

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O principal objetivo nesse momento é desmilitarizar a crise e tentar encaminhar negociações diplomáticas entre a Rússia e a Ucrânia, segundo o correspondente diplomático Jonathan Marcus. Assim, a Otan deve se mover com cuidado.

Qualquer envio de forças para a região do Mar Negro ou ofertas de meios de vigilância pode ser visto por Moscou como uma inclinação da Otan para o lado de Kiev – o que funcionaria como “uma capa vermelha para um touro”, segundo o correspondente. Esse não é o tipo de guerra que a Ucrânia pode vencer em termos militares, com ou sem o apoio da Otan, afirmou.

O que esperar

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Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ouve pergunta de jornalista sobre atual situação da Ucrânia na residência presidencial de Novo-Ogaryovo, nos arredores de Moscou

Muitos analistas pensam que uma ação decisiva e súbita do Ocidente é improvável. Quaisquer sanções devem começar pequenas e depois aumentar, e levará tempo para elaborar e implementar qualquer uma delas.

E o Ocidente deverá estar preparado para o fato de que qualquer ação pode prejudicar suas próprias ligações econômicas com a Rússia, especialmente se Moscou escolher retaliar.

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