Obama enfrenta revolta de diplomatas por gafes de indicados a embaixador

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Aliados ou doadores de campanha tiveram 53% das nomeações diplomáticas, enquanto diplomatas de carreira alcançaram 47%

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Uma série de declarações que revelam ignorância de futuros embaixadores - indicados pelo presidente Barack Obama - sobre os países onde vão atuar vem causando constrangimento à diplomacia norte-americana.

Cenário: Obama tenta superar legado de 2013 ao iniciar os últimos anos de governo

Os protagonistas desses episódios têm em comum a falta de experiência diplomática e o fato de serem grandes doadores para a campanha de reeleição de Obama, no segundo caso, uma tradição no país.

A American Foreign Service Association (AFSA), entidade que representa mais de 16 mil diplomatas de carreira, realizará na próxima semana uma reunião para decidir se manifesta oficialmente oposição a essas nomeações.

Veja galeria de fotos de Obama:

Presidente dos EUA, Barack Obama, domina bola que havia sido chutada por robô Asimo em visita ao Museu Nacional de Ciência e Inovação (Miraikan), em Tóquio (24/4)
. Foto: APPresidente dos EUA, Barack Obama, faz seu discurso sobre o Estado da União no Capitólio, em Washington (28/1). Foto: APObama segura menino durante dia do Natal em base dos marines no Havaí (25/12/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaPresidentes dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, trocam aperto de mão em cerimônia em homenagem a Mandela (10/12/2013). Foto: Getty ImagesObama tira selfie com premiês britânico e dinamarquesa durante cerimônia em homenagem a Mandela em Johanesburgo (10/12/2013). Foto: Getty ImagesSul-africanos celebram enquanto Obama espera em túnel para entrar em estádio para homenagem a Mandela (10/12/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaMichelle Obama reage depois de Ashtyn Gardner perder o equilíbrio ao ser cumprimentada pelo cachorro Sunny (4/12/2013). Foto: APFuncionários fazem sinal positivo enquanto Obama conversa como secretário de Estado John Kerry sobre negociações para acordo com o Irã (23/11/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaBo espera enquanto Obama e primeira-dama participam de entrevista na Casa Branca (22/11/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaMenina conversa com Obama em lanchonete do Brooklyn, Nova York (25/10/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaObama é visto conversando depois de encontro na Casa Branca com a liderança democrata (15/10/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaObama visita centro de caridade em Washington (14/10/2013). Foto: APObama, primeira-dama Michelle e sua filha Malia reúnem-se com ativista paquistanesa Malala Yousafzai (12/10/2013). Foto: Pete Souza/Casa BrancaPresidente dos EUA é visto em carro 
passando por empregados de fábrica da Ford em Liberty, Missouri (20/9/2013) 
. Foto: Pete Souza/ Casa BrancaObama escreve bilhete para professora de Alanah Poullard justificando sua falta na escola (19/9/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaObama e a primeira-dama Michelle Obama participam de cerimônia pelos 12 anos dos ataques do 11 de Setembro (11/9/2013). Foto: APObama é visto durante encontro da cúpula do G20 na Rússia (6/9). Foto: ReutersObama senta-se ao lado de presidente Dilma Rousseff durante encontro do G20 em São Petersburgo, Rússia (5/9/2013). Foto: APObama sai de seu avião ao chegar em São Petersburgo, na Rússia, para a reunião do G20 (5/9/2013). Foto: APObama faz pronunciamento para marcar 50º aniversário de discurso de Martin Luther King (28/8/2013). Foto: APObama visita prisão onde Nelson Mandela ficou preso por 18 anos na África do Sul (30/6/2013). Foto: APObama tira o paletó por causa do calor na área do Portão de Brandenburgo, onde discursou em Berlim, Alemanha (19/6/2013). Foto: APPresidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Vladimir Putin, reúnem-se em Enniskillen, Irlanda do Norte (17/6/2013). Foto: APObama abraça Tolu Olubunmi, uma ativista da imigração, antes de falar sobre a reforma migratória (11/6/2013). Foto: APObama conversa com sobreviventes de escola que foi destruída por tornado (26/5/2013). Foto: ReutersObama e funcionários da Casa Branca olham através de janela do Air Force One para ver danos deixados por tornado em Moore, Oklahoma (26/5/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaProtegido por guarda-chuva segurado por marine, Obama dá coletiva em conjunto com premiê turco, Recep Tayyip Erdogan (não visto) (16/5/2013). Foto: APObama faz pausa durante coletiva na Casa Branca, Washington (30/4). Foto: APObama brinca durante encontro com jornalistas na Casa Branca (27/4/2013). Foto: APObama ri sentado entre sua mulher e a ex-primeira-dama Barbara Bush na inauguração de Centro Presidencial George W. Bush (25/4/2013). Foto: APMichelle reage durante conversa com menino no Aeroporto de Love Field, em Dallas, Texas (24/4/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaLíder dos EUA conversa com presidente da Câmara, republicano John Boehner, no Capitólio (23/3/2013). Foto: Pete Souza/ Casa BrancaDe jaqueta preta e óculos escuros, presidente dos EUA visita a cidade antiga de Petra, Jordânia (23/3/2013). Foto: ReutersObama cumprimenta  o presidente palestino, Mahmud Abbas, em Ramallah, Cisjordânia (21/3/2013). Foto: APPresidente dos EUA, Barack Obama, olha para multidão enquanto tenta ouvir pessoa gritando durante seu discurso no Centro de Convenção Internacional em Jerusalém (21/3/2013). Foto: APPresidente dos EUA, Barack Obama, e premiê israelense, Benjamin Netanyahu, são vistos durante coletiva em Jerusalém (20/3/2013). Foto: APPresidente dos EUA, Barack Obama, e primeira-dama MIchelle dançam em baila da posse em Washington (21/01/2013). Foto: APPresidente dos EUA, Barack Obama, e sua mulher, Michelle, caminham depois de sair de limousine durante parada da posse (21/01/2013). Foto: ReutersCasa Branca divulga foto de Obama praticando tiro ao prato em Camp David, em agosto de 2012. Foto: APTensos, Obama e sua equipe acompanham desenrolar da operação que matou Bin Laden (02/05/2011). Foto: Divulgação / Casa BrancaBarack Obama (E) assume presidência dos EUA ao lado de sua mulher, Michelle, e de suas filhas, Sasha (D) e Malia (20/01/2009). Foto: AP

Caso decida agir publicamente, será uma atitude rara, a primeira vez desde o início dos anos 1990. "Vamos decidir se realmente queremos nos envolver e, caso a resposta seja positiva, de que maneira vamos agir, se com uma declaração sobre indivíduos específicos ou um comentário sobre o sistema como um todo", disse à BBC Brasil um dos diretores da AFSA, Ásgeir Sigfússon.

Requisitos

A associação também acaba de publicar um manual com pré-requisitos que deveriam ser levados em conta na indicação e confirmação de candidatos a chefe de missão.

São qualificações que poderiam ser consideradas óbvias, como ter conhecimento de relações internacionais e do país em questão - além dos principais interesses dos EUA na região -, mas que faltam a nomeados recentes.

Desde o mês passado, pelo menos três casos ganharam manchetes por causa do desconhecimento demonstrado pelos escolhidos sobre os países nos quais deverão representar os EUA.

Ao ser sabatinada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado, a produtora de telenovelas Colleen Bell, indicada para comandar a Embaixada dos EUA na Hungria, não conseguiu responder quais os interesses estratégicos dos EUA naquele país.

O futuro embaixador em Buenos Aires, Noah Bryson Mamet, reconheceu que nunca foi à Argentina.

O nomeado para a embaixada em Oslo, George Tsunis, um executivo do setor hoteleiro, demonstrou não saber que o país para onde será enviado é uma monarquia constitucional. Ele também descreveu o Partido do Progresso como um elemento "à margem, responsável por um discurso de ódio" e afirmou que "a Noruega havia denunciado o partido", cujo discurso anti-imigração é notório.

Após a declaração, ele foi informado pela segunda vez pelo senador republicano John McCain de que o partido faz parte da coalizão de governo, o que poderia provocar imediatamente um constrangimento entre EUA e Noruega.

Em seguida, Tsunis tentou se corrigir, dizendo que a sociedade norueguesa prezava pelo direito à livre expressão e havia sido rápida em criticar o discurso de ódio do partido.

Tradição

Diferentemente da maioria das grandes potências, os EUA adotam a prática de recompensar aliados e doadores de campanha com postos diplomáticos, em uma tradição que resiste, apesar das críticas.

"Infelizmente, é uma prática comum em ambos os partidos (Democrata e Republicano)", disse à BBC Brasil o diplomata Ronald Neumann, ex-embaixador dos EUA no Afeganistão e presidente da American Academy of Diplomacy (Academia Americana de Diplomacia).

Ao assumir o poder, em 2009, Obama falou em mudar a prática, dando preferência a diplomatas de carreira.

No entanto, segundo dados da AFSA, diplomatas de carreira respondem por apenas 47% das nomeações feitas em seu segundo mandato – entre elas a de Liliana Ayalde, embaixadora em Brasília, que tem mais de 30 anos de experiência.

Os outros 53% foram nomeações políticas, de aliados e doadores de campanha. Segundo a AFSA, isso representa um aumento em relação à média histórica, que é de 30% de indicações políticas e 70% de diplomatas de carreira.

A Casa Branca tem rebatido as críticas dizendo que a doação de recursos para a campanha do presidente "não garante um emprego no governo, mas não o impede de conseguir um". Mas críticos afirmam que esses nomeados, em muitos casos, não têm preparo e acabam envergonhando os EUA e colocando em risco os interesses americanos.

Qualificações

Neumann ressalta que o importante não é que os embaixadores sejam diplomatas de carreira, mas sim que tenham as qualificações necessárias para exercer a função.

Ao longo dos anos, os EUA tiveram casos de sucesso entre embaixadores que não eram diplomatas. A Casa Branca ressalta exemplos como o do ex-vice presidente Walter Mondale, que ocupou o cargo no Japão, e o de Robert Sargent Shriver, na França.

Mas há também diversos escândalos, como o caso de um embaixador dos EUA na Dinamarca obrigado a deixar o cargo por manter prostitutas na residência oficial e o de uma embaixadora enviada por Obama a Luxemburgo, que renunciou após um relatório denunciar seus gastos excessivos em bebidas e viagens e seu estilo de gestão "hostil e agressivo" e "sem senso de direção".

Alguns defensores das indicações políticas afirmam que é uma vantagem ter um embaixador próximo ao presidente. Neumann, no entanto, discorda. "A maioria dos indicados políticos não são realmente próximos do presidente. Eles doaram dinheiro, mas isso não significa que seus telefonemas serão prontamente atendidos", afirma.

Segundo o diplomata, é provável que alguns dos nomeados busquem se educar e consigam desempenhar a tarefa com sucesso. "Mas outros não. É um trabalho de muita responsabilidade", afirma.

Ele observa que o Departamento de Estado costuma fazer um esforço para que esses embaixadores que não são diplomatas de carreira tenham profissionais qualificados trabalhando a seu lado.

Mas ele faz uma comparação com o setor privado: "Não conheço nenhum negócio no mundo em que você contrata um gerente sem que ele precise ser competente, só porque pode contar com seus funcionários."

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