História de amor cruza fronteiras na Síria

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'Eu odeio o regime, mas amo uma garota do regime', relata jovem apaixonado por filha de alto oficial do Exército

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A capital da Síria, Damasco, é uma cidade dividida, com algumas partes sob o controle das forças do governo e outras áreas dominadas pelos rebeldes. Mas o que acontece quando o amor cruza estas fronteiras?

Um trabalhador que conheci na capital era como a maioria dos jovens sírios de hoje - endurecido, sarcástico e aparentando mais idade do que tem.

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Nos encontramos em uma rua movimentada no centro de Damasco - dos cafés era possível ouvir o barulho do bombardeio atingindo os subúrbios controlados pelos rebeldes.

Veja imagens do conflito na Síria:

Família síria acena a parentes após entrar em ônibus em direção a aeroporto para ir à Alemanha, onde foram aceitos como asilados temporários, em Beirute, Líbano (10/10). Foto: APTanque velho sírio é cercado por fogo após explosão de morteiros nas Colinas do Golan, território controlado por Israel (16/07). Foto: APCombatentes do Exército Sírio Livre carregam suas armas e se preparam para ofensiva contra forças leais a Assad em Deir al-Zor (12/07). Foto: ReutersCombatente do Exército Livre da Síria corre para buscar proteção perto de aeroporto militar de Nairab, em Aleppo (12/06). Foto: ReutersProtesto em Beirute contra a participação do Hezbollah na guerra síria (09/06). Foto: APFumaça é vista no vilarejo sírio de Quneitra perto da fronteira de Israel´(06/06). Foto: APLibanês foi ferido após segundo foguete de rebeldes sírios atingir sua casa em Hermel (29/05). Foto: APRefugiados sírios são abrigados em prédio da cidade turca de Reyhanli, perto da fronteira com a Síria (12/05). Foto: APHomens carregam ferido após explosão em cidade turca perto da fronteira síria (11/05). Foto: ReutersExplosão em cidade turca perto da fronteira com a Síria deixa dezenas de mortos (11/05). Foto: ReutersResidente caminha sobre destroços de prédios em rua de Deir al-Zor, Síria (09/05). Foto: ReutersCombatente do Exército Livre da Síria descansa em pilha de sacos de areia em campo de refugiados (06/05). Foto: APIsrael atacou instalações militares na área de Damasco, acusa Síria (05/05). Foto: BBCReprodução de vídeo mostra fumaça e fogo no céu sobre Damasco na madrugada deste domingo (05/05). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad (D), visita universidade em Damasco (04/05). Foto: APReprodução de vídeo mostra corpos em Bayda, Síria (03/05). Foto: APBombeiros apagam fogo de carro em chamas em cena de explosão no distrito central de Marjeh, Damasco, Síria (30/04). Foto: APReprodução de vídeo mostra bombardeio em Daraya, Síria (25/04). Foto: APDruso carrega retrato do presidente sírio em que se lê 'Síria, Deus protege você', nas, Colinas do Golan (17/04). Foto: APFumaça e carros destruídos na praça Sabaa Bahrat, em Damasco, após explosão de carro-bomba (08/04). Foto: APMembro de Exército da Libertação da Síria segura arma em rua de Deir al-Zor (02/04). Foto: ReutersReprodução de vídeo mostra militantes do Exército Livre da Síria durante combates em Damasco (25/03). Foto: APManifestantes protestam contra Bashar al-Assad em Aleppo, na Síria (23/03). Foto: ReutersMesa de xeque Mohammad Said Ramadan al-Buti, aliado de Assad, é vista após ataque em Damasco (21/03). Foto: APSírio vítima de suposto ataque químico recebe tratamento em Khan al-Assal, de acordo com agência estatal (19/03). Foto: APSírias são vistos perto de corpos retirados de rio perto de bairro de Aleppo (10/03). Foto: APReprodução de vídeo mostra soldado do governo sírio morto em academia de polícia em Khan al-Asal, Aleppo (03/03). Foto: APHomem chora em local atingido por míssil no bairro de Ard al-Hamra, em Aleppo, Síria (fevereiro). Foto: ReutersMembro do Exército Livre da Síria aponta arma durante supostos confrontos contra forças de Assad em Aleppo (26/02). Foto: ReutersMembros de grupo islâmico seguram armas durante protesto contra regime em Deir el-Zor (25/02). Foto: ReutersMorador escreve em lápide nome de neta morta em ataque contra vila em Idlib, Síria (24/02). Foto: APChamas e fumaça são vistas em local de ataque no centro de Damasco, Síria (21/02). Foto: APRebeldes do Exército Livre da Síria preparam munições perto do aeroporto militar de Menagh, no interior de Aleppo (25/01). Foto: ReutersRebeldes da Frente al-Nusra, afiliada à Al-Qaeda, seguram sua bandeira no topo de helicóptero da Força Aérea da Síria na base de Taftanaz (11/01). Foto: APCrianças sírias viajam em caminhonete em Aleppo (02/01). Foto: Reuters

Ele é de uma das cidades sob ataque e sua família ainda está presa lá. E ele me explicou, sem muita emoção, quão difícil é enviar suprimentos pelos pontos de controle que circundam o local.

Enquanto conversávamos, ele olhava constantemente para as pessoas ao nosso redor sob seus cílios grossos. Estávamos em uma área controlada pelo governo, cheia de consumidores bem vestidos e guardas de trânsito.

Não estávamos fazendo nada de errado, mas a vida sob a vigilância do temível serviço de inteligência militar sírio - o Mukhabarat - deixa sua marca nas pessoas. Ele me pediu para não usar seu nome real - eu o chamarei de Abu Anas.

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Em determinado momento, ele começou a procurar uma foto em seu telefone para me mostrar. Quando pessoas das áreas da oposição mostram o telefone delas a você, é preciso se preparar para ver imagens chocantes de pessoas feridas em bombardeios aéreos do governo.

Mas Abu Anas tinha algo diferente para mostrar - uma jovem de olhos apaixonados vestindo uma camiseta brilhante e calças jeans justas.

'Amo uma garota do regime'

Acontece que este filho dos subúrbios rebeldes tinha se apaixonado. Infelizmente para ele, era pela filha de um alto oficial da inteligência.

"Estou péssimo", suspirou ele, parecendo de repente mais próximo de sua idade real. "Eu odeio o regime, mas amo uma filha do regime."

Ele a conheceu por acaso antes do início do levante popular contra o governo de Bashar Al-Assad, e fala com ela ao telefone quase todos os dias desde então, em meio aos protestos e às bombas.

Como muitas pessoas em sua cidade natal, Abu Anas apoiou as manifestações quando elas começaram, mas isso não o impediu de continuar procurando a filha do oficial do Mukhabarat.

"Eu fiz uma distinção clara entre meu relacionamento com ela e meu relacionamento com o governo", explicou.

Nenhum dos seus amigos em redutos rebeldes locais sabe sobre sua namorada - se souberem, podem suspeitar que ele seja um informante.

O pai da jovem ficou furioso quando descobriu o namoro, mas ainda não sabe que o trabalhador que roubou o coração de sua filha tem laços com a rebelião.

"Eu mantenho em segredo o lado que apoio", ele diz, gabando-se da sua própria audácia de navegar entre os dois mundos.

Não são apenas os amantes proibidos que levam vidas duplas na Damasco de hoje. Uma rede de pontos de controle separa o centro da cidade - quase completamente preservado - dos subúrbios rebeldes bombardeados.

Mas isso não significa que todos de um lado apoiam o governo e do outro, a oposição. À medida em que a guerra continua, muitos se convencem de que vale a pena ser flexível.

Informantes

As áreas sob o controle rebelde estão cheias de informantes pagos, que passam informação para o governo. Na fronteira sul da cidade, um combatente leal ao regime me disse que o governo sabia os nome de todos os que pegaram em armas do outro lado.

"Eles sabem exatamente quem está e quem não está envolvido - temos informantes na comunidade deles como eles têm na nossa", afirmou.

Abu Anas me disse que os soldados e milicianos de olhar preocupado que ficam nos pontos de controle do governo também podem ser subornados. No entanto, eles impõem um cerco muito duro em alguns lugare, que causa fome aguda nos moradores.

Em outros, segundo o jovem, eles ficaram ricos aceitando dinheiro de contrabandistas.

"Alguns oficiais só tinham dinheiro para a comida. Agora eles têm carros, estão se casando, estão progredindo na vida", diz Abu Anas.

Um tom de inveja está na sua voz enquanto ele fala. Neste momento, ele está mais interessado em seguir com a vida do que com a revolução - diz sentir-se completamente desiludido com ela.

Ele saiu dos subúrbios antes que o cerco piorasse e está tentando ganhar a vida no centro da cidade.

Ele também tentou esquecer a garota, porque não conseguia ver como eles poderiam se casar algum dia. Mas quando tentou romper a relação, ele descobriu que não conseguia.

Um caso de amor proibido entre duas pessoas de lados opostos no confronto não dá esperança para a Síria - o conflito aqui parece pior do que nunca. Mas para Abu Anas, isso parece oferecer alguma esperança, em uma vida que se tornou dura e sombria.

"Não é todo dia que você encontra alguém que o adora tanto. É uma história maravilhosa, mas é cheia de conflito", diz ele.

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