Vinte anos após levante, zapatistas têm 'independência' no sul do México

Por BBC |

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Revolução do EZLN aconteceu no réveillon de 1994 e desde então, quando o grupo iniciou domínio em Chiapas

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Há um buraco de bala no segundo andar da prefeitura de San Cristóbal de las Casas, no sul do México.

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É uma marca do Réveillon de 1994, quando rebeldes armados invadiram o edifício e pegaram o segurança de surpresa.

Surpreenderam também o Exército e o governo federal mexicano.

Antes, haviam circulado rumores de que diversos grupos indígenas da região estavam organizando um grupo rebelde. Mas não se esperava que, em questão de horas, o EZLN - mais conhecido como Zapatista - tomasse o controle de grande parte do estado sulista de Chiapas.

A luta foi rapidamente sufocada pelo Exército. Menos de duas semanas depois, a Igreja Católica negociou um cessar-fogo.

Comunidades rebeldes

As demandas iniciais dos rebeldes eram bastante básicas: terra, comida, saúde, educação e trabalho, explica Concepción Villafuerte, que na época comandava o jornal esquerdista El Tiempo.

"As demais (demandas) eram mais genéricas: justiça, democracia, liberdade. Eram necessidades básicas de todos os pobres, não apenas os índios."

Desde o fim do confronto, os Zapatistas criaram municipalidades autônomas, chamadas caracoles, independentes do governo local e estabelecidas em terras que eles conseguiram retomar de latifundiários nos anos 1990.

Após diversos pedidos, a BBC conseguiu acesso exclusivo a um município zapatista chamado Oventic, nos arredores de San Cristóbal.

A população de Oventic continua extremamente desconfiada de forasteiros. O guia que acompanhou a reportagem, com o rosto coberto por uma máscara, recusou-se a dizer seu nome e respondeu perguntas de maneira monossilábica.

A BBC não pôde fazer imagens de ninguém que não tivesse o rosto coberto; a liderança do coletivo, conhecida como Junta de Bom Governo, recusou-se a falar diante das câmeras.

Mas foi possível ter uma ideia de como essas comunidades reclusas vivem.

Sua escola está repleta de grafites e imagens de Che Guevara e do líder zapatista, o Subcomandante Marcos. Há também uma clínica de saúde com ambulâncias antigas.

As mulheres têm um papel decisório muito mais igualitário do que em outras comunidades indígenas ou rurais.

Nos campos, os homens plantam café, milho, chilli e feijão. Algumas colheitas são vendidas para gerar verba à comunidade, mas a maior parte é consumida internamente.

Os Zapatistas não pedem nenhum tipo de ajuda ao Estado; em troca, costumam ser deixados à própria sorte.

A reportagem tentou conversar com um grupo de jovens que jogavam basquete. Foi o bastante para que a visita fosse abruptamente interrompida.

Violência

Mas perto dali, ainda na área rural do estado de Chiapas, a BBC encontrou-se com comunidades indígenas que queriam contar sua história.

Moradores da pequena aldeia de Acteal criaram um grupo pró-direitos indígenas chamado Los Abejas, no início dos anos 1990. Eles concordavam com as demandas básicas dos Zapatistas, mas não apoiaram o uso da violência.

Apesar dessa diferença crucial, grupos paramilitares entraram em Acteal em dezembro de 1997 e massacraram 47 pessoas desarmadas, incluindo crianças e mulheres grávidas.

Elias Gomez perdeu sete parentes no ataque, incluindo seu pai e seu irmão. Ele mostrou à BBC o local onde a violência ocorreu - e onde os indígenas estão construindo um memorial.

"Quando os Zapatistas se rebelaram, apoiamos porque suas demandas eram justas", diz o líder comunitário Antonio Vázquez. "É o que as pessoas querem. Não há justiça no México. O governo é completamente surdo."

O partido governista, tanto em San Cristóbal como em âmbito federal, é o mesmo hoje que era em 1994: o Partido Revolucionário Institucional (PRI).

"O PRI tem mais consciência social atualmente", diz o prefeito de San Cristobal, Francisco Martínez, insistindo que o Estado investiu fortemente nas comunidades indígenas.

Mas os níveis de pobreza e marginalização em Chiapas estão entre os mais altos do México, sobretudo entre a população indígena, que representa cerca de 65% da população local.

Luta ideológica

Hoje, ainda que em teoria permaneçam em guerra com o Estado mexicano, os rebeldes travam uma luta muito mais ideológica do que armada.

Independentemente do que os Zapatistas tenham ou não conquistado passadas duas décadas desde seu levante, poucos discordariam que sua rebelião mudou definitivamente a relação entre as autoridades e a população indígena de Chiapas.

Esse sentimento é resumido pela placa na entrada de Oventic: "Você está em um território Zapatista em rebelião - aqui, as pessoas comandam e o governo tem de obedecer".

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