Entenda como será o enterro de Mandela

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Funeral do ex-presidente da África do Sul e líder antiapartheid, Nelson Mandela, será marcado por uma série de rituais especiais, carregados de simbolismo

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Milhares de pessoas formaram filas para ver o corpo de Mandela em Pretória

O funeral do ex-presidente da África do Sul e líder antiapartheid, Nelson Mandela, será marcado por uma série de rituais especiais, carregados de simbolismo. Ele será enterrado neste domingo (15), na cidade onde cresceu, Qunu, na província de Cabo Oriental em cerimônia restrita a parentes e convidados.

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Corpo de Mandela chega em Qunu para enterro no domingo

Neste sábado (14), o corpo chegou ao pequeno vilarejo, sob forte aparato de segurança, vindo de Pretória, onde fora velado por três dias. Celebrada pelo clã Thembu, a cerimônia seguirá a tradição Xhosa, etnia à qual Mandela pertence e da qual é considerado um líder.

Segundo a tradição Xhosa, quando alguém morre longe de sua casa, como o ex-líder sul-africano (que faleceu em sua residência em Joanesburgo), rituais de 'retorno simbólico' têm de ser realizados. Por trás da liturgia, explica o especialista Somadoda Fikeni, está a crença de que a alma do morto precisa voltar para casa, além de ser reunida no funeral com seus restos mortais, de forma a alcançar sua 'harmonia espiritual'.

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Caso esses rituais não sejam executados, os membros da etnia Xhosa acreditam que o espírito poderia vagar sem descanso, trazendo azar à família do morto. Por outro lado, o cumprimento da tradição agradaria ao criador e aos antepassados (mediadores entre o criador e os vivos), trazendo sorte e proteção à família de quem morreu.

Se alguma das etapas não for cumprida, a cerimônia precisa corrigir "o erro", de maneira a aplacar a fúria dos ancestrais e do criador. Enquanto os restos mortais são transportados de volta para casa, um membro sênior ou especialista na tradição Xhosa é selecionado para celebrar os rituais necessários para invocar o retorno do espírito.

Entre esses ritos, estão conversar com o morto, indicando que a jornada de retorno a seu local de nascimento e onde o seu cordão umbilical foi enterrado, está começando. Ervas especiais e remédios são ocasionalmente usados na cerimônia. O espírito é guiado à sua casa à medida que os nomes dos rios e dos lugares que ele cruzou são mencionados.

Uma das etapas inclui a invocação do izibongo (canções da família ou do clã) e a menção dos antepassados, com quem o morto "se reunirá". Na chegada, o espírito também é informado de seu retorno e solicitado a ajudar a fazer a mediação com o criador e com os ancestrais para proteger a família e a nação.

Reveja a trajetória de Nelson Mandela

Mandela (ao fundo) chega ao tribunal em Pretória em agosto de 1958, para audiência de julgamento que durou mais de quatro anos. Foto: APEm 11 de fevereiro de 1990, Mandela deixa a prisão ao lado de sua mulher, Winnie Madikizela-Mandela. Foto: AFPEm 1993, Mandela recebe o Nobel da Paz ao lado de Frederick Willem de Klerk. Foto: APMandela entrega taça da Copa do Mundo de Rugby a François Pienaar, capital da seleção sul-africana (24 de junho de 1995). Foto: Getty ImagesMandela acena para a torcuda durante a abertura da Copa das Nações Africanas de futebol em Johanesburgo, em janeiro de 1996. Foto: Getty ImagesMandela e Graça passeiam em Johanesburgo, em setembro de 1996. Foto: APGraça Machel, então namorada de Mandela, dá risada ao lado do líder em evento em Soweto (fevereiro de 1997). Foto: APMandela leva o então presidente dos EUA, Bill Clinton, para conhecer a cela onde ficou 18 dos 27 anos em que esteve preso (março de 1998). Foto: APRei da Espanha, Juan Carlos, observa beijo de Mandela e Graça Machel durante cerimônia na Cidade do Cabo em fevereiro de 1999. Foto: APMandela encontra o vocalista do U2, Bono, em show beneficente na Cidade do Cabo em novembro de 2003. Foto: Getty ImagesMandela participa de comício do então candidato à presidência da África do Sul Jacob Zuma, em abril de 2009. Foto: Getty ImagesMandela e a mulher, Graça Machel, participam de comemoração dos 20 anos de sua libertação (11 de fevereiro de 2010). Foto: APNelson Mandela comparece ao funeral de sua bisneta Zenani Mandela, em Johanesburgo (17/6/2010). Foto: APAo lado da mulher, Graça Machel, Mandela acena ao público antes da final da Copa do Mundo em Johanesburgo, em 11 de julho de 2010 - sua última aparição pública. Foto: Getty ImagesCrianças de escola perto de hospital onde Mandela ficou internado janeiro de 2011 em Johanesburgo mostram cartas desejando melhoras ao ex-presidente. Foto: APCrianças de escola perto de hospital são vistas em janela onde cartaz diz: 'Te amamos, Madiba' (27/01/2011). Foto: AFPMichelle Obama visitou Mandela em sua casa em Joanesburgo, na África do Sul (21/06/2011). Foto: AFPEx-presidente sul-africano Nelson Mandela (E) recebe tocha que celebra centenário do governista Congresso Nacional do Povo (30/05/2012). Foto: APMandela e a família posam para foto em sua casa em Qunu, na África do Sul (17/07/2011). Foto: APO ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela recebe uma visita do ex-presidente americano Bill Clinton (17/07/2012). Foto: APSecretária de Estado americana, Hillary Clinton, visitou Mandela em Qunu, África do Sul (06/08/2012). Foto: AP

No momento do enterro, um boi é sacrificado por uma pessoa designada que usa uma lança tradicional da casa do morto ou de seu clã. Se a vaca, o boi ou o touro sacrificado "berrar" durante o sacrifício, trata-se de um sinal de que os ancestrais estão agraciados e darão as boas-vindas à pessoa que partiu.

Em algumas ocasiões, outro animal é sacrificado caso o primeiro não emita o som estridente.

Rituais elaborados

Se o morto for de uma família real ou é chefe ou rei, esses rituais são mais elaborados. Por exemplo, o caixão é gerado coberto com pele de leopardo se o morto era um chefe (caso de Mandela) ou uma pele de leão se a pessoa tiver sido um rei.

Durante o funeral, líderes tradicionais ou reais montam guarda ao lado do caixão. Em um dado momento, um imbongi (uma espécie de trovador com profundo conhecimento da história do chefe ou do rei a ser enterrado) apresenta o morto recitando seus nomes tradicionais e descrevendo suas características.

Em seguida, o corpo da pessoa, especialmente o de um líder tradicional, é envolvido na pele de um animal, normalmente o do que foi sacrificado momentos antes.

O morto é, então, enterrado com seus pertences e as coisas de que gostava e usava durante a sua vida terrena. Lanças, um escudo e tabaco também são alguns dos itens depositados no caixão.

Algumas pessoas são enterradas sentadas, enquanto outras deitadas.

De novo, rituais envolvendo a libação (derramamento de água) são celebrados durante o enterro e na lápide.

A chuva durante os dias anteriores à cerimônia ou no próprio dia do enterro são interpretadas como um bom sinal de que os céus e o mundo espiritual estão acolhendo o morto.

A manhã do funeral – e as semanas posteriores ao enterro – são consideradas um assunto privado da família, que envolve o sacrifício de uma ovelha ou de uma cabra e o uso de ervas para limpar os parentes do morto e pedir por sua proteção.

Na ocasião, os membros mais velhos da família também fazem discursos, nos quais confortam os outros integrantes da família com palavras de conforto e sabedoria enquanto lembram todos de seus respectivos papéis, considerados cruciais para a sobrevivência e sustentação do clã.

Luto

É também nesse momento que detalhes específicos de como a família vai encarar o período de luto. Frequentemente, os que estão de luto não participam de eventos sociais.

Algumas famílias Xhosa usam roupas pretas durante esse período. Ao final dele, essas vestimentas são queimadas. Também é costume em algumas famílias que a viúva do morto não cozinhe durante esse tempo.

Depois de seis meses ou um ano, o período de luto se encerra com uma outra celebração, na qual a família e os amigos levam presentes para a(s) viúva(s) ou filhos de quem morreu.

A entrega dos presentes é uma maneira simbólica de substituir os itens antigos associados ao morto, como, por exemplo, uma cama ou lençóis.

Nesse momento, a ênfase é sobre a liberdade que o enlutado volta a ter, mas com dignidade e respeito à honra do morto e de sua família.

Anos mais tarde, os rituais familiares e as cerimônias envolverão a invocação do espírito do morto como um antepassado para fazer a mediação entre os vivos e o criador. Tal honra é reservada apenas às pessoas que se distinguiram e foram virtuosas durante a vida.

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