Governo argentino diz ter provas de ligação entre jornais e ditadura

Por BBC Brasil |

compartilhe

Tamanho do texto

Ministro mostrou 1,5 mil documentos que, segundo ele, possuem listas de perseguidos políticos entre 1973 e 1983

BBC

Em meio à disputa com setores da imprensa argentina, o ministro da Defesa, Agustín Rossi, mostrou, na segunda-feira (4), diante das câmeras de televisão, pastas de documentos da ditadura argentina (1976-1983). Segundo o ministro, os papeis contem supostos vínculos dos dois principais jornais do país, Clarín e La Nación, com o regime militar.

Conheça a nova home do Último Segundo

AP
Homem caminha em frente a muro com desenho de Cristina Kirchner segurando uma moldura diante de rosto com símbolo do Clarín em Buenos Aires, Argentina

O ministro sugeriu que foi graças a este vínculo que os dois jornais teriam conseguido o controle da empresa Papel Prensa, que fornece papel para outros jornais do país. Os 1,5 mil documentos possuem listas de perseguidos políticos entre 1973 e 1983, incluindo artistas, escritores e políticos, de acordo com o governo.

Segundo Rossi, os documentos mostrados na TV foram encontradas por um militar no subsolo do edifício Condor, sede da Força Aérea.

Lei de Mídia: Clarín apresenta plano para se adequar a nova lei argentina

Seis partes: Governo da Argentina inicia processo para dividir Grupo Clarín

"É a primeira vez que encontramos documentos que abarcam todo o período da ditadura. Estão ordenados por ordem cronológica", disse. Rossi afirmou que em meio à pilha de pastas estariam "treze atas originais referentes ao tema Papel Prensa". Segundo ele, a venda da empresa, naquele período, estava "diretamente relacionada com a detenção da família Graiver" – então dona da empresa.

A denúncia do governo em relação a este caso não é nova, mas agora o ministro disse que as pastas incluem "documentos históricos" que confirmariam as acusações de autoridades do kirchnerismo.

Os jornais Clarín e La Nación têm a maiorida das ações da Papel Prensa, motivo de embates seguidos entre o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, e os acionistas. Moreno já interrompeu várias reuniões do grupo e as imagens foram mostradas nas redes sociais.

Lei de Meios

As declarações do ministro foram feitas sete dias depois de a Suprema Corte de Justiça declarar constitucional todos os artigos da chamada Lei de Meios – projeto do kirchnerismo para, segundo o governo, "democratizar" a imprensa e "acabar com os monopólios" do setor. Os jornais, em especial, o Clarín, acusam o governo de perseguição política e cerceamento da liberdade de imprensa.

Supremo: Lei argentina contra monopólio da mídia é constitucional

As declarações do ministro se deram poucas horas depois que o Clarín comunicou ter iniciado o processo "voluntário" de "adequação" à Lei de Meios, que limita as licenças de rádio e televisão a fim de evitar a concentração midiática.

No comunicado, o Clarín diz que a decisão foi tomada "após o avanço da AFSCA (Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual) sobre as licenças" que o grupo possui e que ainda estariam em vigor, mas que deverão ser transferidas para outros grupos.

A disputa do governo da presidente Cristina Kirchner com setores da imprensa, principalmente o Clarín, incluiu as suspeitas de que os filhos da empresária Ernestina de Noble, dona do jornal, teriam sido adotados ilegalmente e seriam filhos de desaparecidos políticos. Os exames de DNA eram negativo.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas