Greenspan teme que EUA enfrentem nova crise da dívida

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Ex-homem forte da política monetária americana faz duras críticas às táticas 'antidemocráticas' do Tea Party

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O ex-diretor do Federal Reserve (o banco central americano) Alan Greenspan disse que é "perfeitamente concebível" que os EUA voltem a ter em breve uma crise política com repercussões econômicas como a da semana passada, sobre o teto do endividamento do governo.

AP
Economista americano Alan Greenspan em foto de arquivo

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Greenspan foi o homem forte da política monetária americana entre 1987 e 2006, durante gestões democratas e republicanas.

Apesar de dizer que simpatiza com alguns dos objetivos do movimento Tea Party, uma facção do Partido Republicano que defende políticas mais liberais na economia, Greenspan criticou duramente as táticas do movimento na negociação do teto da dívida. Em entrevista à BBC, ele disse que a atuação do Tea Party é "antidemocrática".

Na semana passada, a falta de um entendimento político entre democratas e republicanos quase levou o governo dos EUA a uma moratória da sua dívida pública – que poderia ter consequências graves na economia do país e do mundo.

A legislação americana estabelece um limite para o endividamento do governo. A administração estava prestes a passar deste limite, e necessitava alterar a lei para permitir mais empréstimos e evitar o calote.

No entanto, essa lei só pode ser alterada pelo Congresso. Os oposicionistas do partido Republicano – fortemente influenciados pelo Tea Party – condicionavam mudanças na lei ao corte de gastos públicos com programas sociais, como a reforma de saúde do presidente Barack Obama.

Obama não recuou. Os republicanos só desistiram dessa tática no último dia, e finalmente votaram a favor da mudança da lei. "Isso não faz o menor sentido. Na verdade, eu concordo com uma boa parte do que o Tea Party tenta fazer, mas discordo completamente com suas táticas. Eu nunca vi nada disso, com toda a minha experiência em Washington ou até mesmo antes", disse Greenspan.

"Não sei para onde vamos agora. É perfeitamente concebível que daqui a três ou seis meses estejamos exatamente onde estávamos antes. E isso é inadmissível. Não se pode administrar uma sociedade assim."

Greenspan disse ser contra a legislação que impõe um limite à dívida do governo. "Eu não entendo exatamente por que insistimos em ter um limite de endividamento neste país e em outros países. Temos fundos que nos dizem quanto será nosso gasto. Temos códigos fiscais que nos dizem quanto arrecadaremos. Com um pouco de aritmética, é possível tentar descobrir qual será o impacto na dívida", disse.

"Minha visão é: se você quer reduzir impostos, primeiro corte seus gastos. Se você quer reduzir o deficit (das contas públicas), controles os gastos antes."

Críticas à sua gestão

Na entrevista à BBC, Greenspan também falou sobre a economia europeia e a China e sobre as críticas à sua gestão. O economista de 87 anos hoje administra sua própria consultoria e está lançando um livro, "The Map and the Territory" (O Mapa e o Território), no qual analisa o porquê de as previsões econômicas serem tão falhas.

Ele defende sua gestão do Federal Reserve da crítica de que sua flexibilização das regras de crédito e baixo nível de regulação contribuíram substancialmente para a grande crise deflagrada em 2008.

"Uma coisa que me choca é que não foram só os modelos altamente sofisticados do Federal Reserve que fracassaram em antever (a crise de) 15 de setembro de 2008, mas também os do FMI, do (banco) J.P. Morgan, que previam crescimento econômico americano três dias antes de a crise ser deflagrada, com aumento nas previsões ao longo de 2009 e 2010."

Ele afirmou que existe uma diferença entre prever quando uma bolha econômica vai ocorrer e quando ela pode estourar.

Greenspan negou que não tenha sido claro o suficiente quanto aos perigos de um colapso dos mercados financeiros. Ele disse que suas palavras sempre precisaram ser medidas cuidadosamente. "Eu ficava muito preocupado sobre o impacto que elas teriam", disse.

Sobre a China, ele afirmou que as taxas de crescimento podem começar a cair se o país não melhorar no quesito da inovação tecnológica. "Um recente estudo da Reuters lista as cem empresas mais inovadoras. Quarenta são americanas e nenhuma é chinesa", disse.

"A produtividade chinesa é a maior do mundo, mas eles fazem isso tomando tecnologia estrangeira emprestada, com empreendimentos conjuntos ou por outros meios."

"O que eles vão acabar descobrindo – eu acho que antes que seja tarde demais – é que a não ser que eles melhorem no quesito inovação, seu crescimento vai desacelerar."

Europa

Sobre a economia europeia, ele disse que a crise na zona do euro deve continuar até que haja uma "consolidação política". "A cultura da Grécia não é a mesma cultura da Alemanha, e fundir ambas em uma unidade é algo extremamente difícil", disse Greenspan.

"A única forma de fazer isso é através de uma união política, como (a que ocorreu) entre as Alemanhas Oriental e Ocidental, e nem isso está funcionando exatamente como deveria."

Greenspan se mostrou otimista com as tentativas do governo britânico de reanimar a sua economia. "O que o Reino Unido fez com seu programa de austeridade funcionou muito melhor do que eu imaginava", disse Greenspan.

"Até onde posso julgar, a economia está se desenvolvendo bastante em linha com o que o governo de coalizão esperava."

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