Apetite por luxo estimula corrupção na China

Por BBC Brasil |

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Em um país onde poder e dinheiro se misturam, presidente enfrenta difícil batalha para colocar sua casa em ordem

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No calendário lunar chinês deste ano, o mês de setembro é marcado pelo festival do Meio-Outono, o segundo feriado mais importante da China (depois do Ano Novo). A lua está supostamente mais redonda no principal dia da festa, e a tradição é reunir a família e comer a torta da lua.

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Dar tortas de lua de presente virou tradição, mas acabou impulsionando uma duvidosa indústria ligada à corrupção. As tipicas tortas levam pasta de semente de flor de lótus. Uma caixa luxo de tortas feitas com ninho de pássaro e barbatana de tubarão pode chegar a 2 mil yuans (cerca de R$ 720). Já uma feita de ouro e prata pode valer até 160 mil yuans (R$ 57,4 mil). E todo mundo sabe que ninguém compra uma dessas para um simples amigo ou parente.

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O presidente Xi Jinping fez da luta contra corrupção uma das prioridades de seu governo. Como parte das ações, o Partido Comunista proibiu que se use dinheiro público para dar como presente caixas de torta de lua.

O resultado foi a queda no preço das tortas de lua. Uma caixa pode custar agora até 200 yuans (R$ 72). Segundo um relatório da revista Chinese Economic Weekly, a indústria dos presentes na China chega a valer 800 bilhões de yuans (R$ 287 bilhões). Mas as tortas de lua não são os únicos mimos milionários. Veja outros.

1. Álcool

Bebidas alcoólicas são presentes populares, mas nenhuma alcançou tanto prestígio quanto o Maotai, um destilado de sorgo. Em 2011, o preço foi às alturas e uma garrafa de 500 ml podia chegar a 2.300 yuans (R$ 824).

Existe até um ditado popular: "Quem compra Maotai, não bebe. E quem bebe, não compra".

2. Relógios de luxo

Vários políticos chineses já se viram em maus lençóis por causa de artigos de luxo. Em 2008, o diretor de habitação de um distrito de Nanjing foi exposto na internet fumando cigarrilhas de luxo e usando relógios caros, como um Vacheron Constantin e um Rolex.

Um Vacheron Constantin custa cerca de 100 mil yuans (R$ 36 mil). Já o salário anual do tal funcionário era de 40 mil yuans (R$ 14 mil). Ele foi processado e condenado a onze anos de prisão acusado de receber propina.

3. Marcas de luxo

Marcas como Louis Vuitton, Chanel e Gucci são algumas das preferidas dos novos ricos chineses e figuram entre as favoritas para "presentes" a autoridades.

Segundo um estudo feito pela consultoria Bain and Company, em 2012, os chineses são os que mais gastam com luxo no mundo. Cerca de 25% de todas as compras desse setor são feitas por consumidores da China.

E cerca de 25% de tudo o que os chineses gastam com luxo não é para si, mas para presentear outros pessoas.

4. Propriedades

Em agosto, Cui Aiguo, que trabalha na defesa civil de um distrito de Pequim, foi julgado por aceitar três casas no valor de 3 milhões de yuans (R$ 1,07 milhão), além de uma bolada de 1,04 milhão de yuans (R$ 373 mil) em espécie. Quem deu o presente foi uma mulher que contou com a ajuda do funcionário em um projeto de habitação.

Além de casas, toda a rede de apropriação de terras, construção, vendas, design de interiores e serviços relacionados é propício à corrupção. Um construtor da Província de Hainan, foi citado como tendo dito que se as autoridades lhe permitissem comprar terra barata para que ele pudesse gerar um lucro de 50 milhões de yuans (R$ 18 milhões), ele estaria disposto a pagar 20 milhões de yuans (R$ 7 milhões), ou mais, em suborno.

Outro construtor na província de Anhui admitiu ter subornado 19 funcionários do governo antes que ele pudesse dar início a seus projetos de moradia; entre eles estavam os encarregados por planejamento, fixação de preços, construção e outros. O custo foi então repassado para as pessoas que compraram as propriedades. Estima-se que 4% do preço das habitações estejam relacionados a corrupção.

5. Dinheiro ou cartão de crédito

O pagamento em dinheiro ainda é uma das maneiras mais fáceis de subornar pessoas. Em recente julgamento, o político Bo Xilai foi acusado de receber subornos de mais de 21 milhões de yuans (R$ 7,5 milhões) de dois empresários. Em outro caso, Yang Dacai, conhecido como "funcionário público sorridente", foi acusado de levar 250 mil yuan (R$ 89,6 mil), durante o seu julgamento.

Uma maneira mais discreta de pagar propina é através de cartões de crédito pré-pagos. O cartão vem com uma certa quantia em crédito e pode ser usado em restaurantes, lojas, academias e muitos outros estabelecimentos.

Esses são usados tão amplamente que o Banco Popular da China, e algumas organizações de fiscalização, emitiram instruções em 2011 pedindo que os emissores desses cartões exigissem o registro das pessoas que os compram, especialmente aqueles que compraram cartões com crédito superior a 10 mil yuan (R$ 3,58 mil), em um esforço para controlar os subornos.

Igualmente reveladora são as estatísticas realizadas pelo Diário do Povo: em 2011, 40 mil funcionários do partido entregaram dinheiro, ou vales, no valor de 386 milhões de yuans (R$ 138,34 milhões). Em média, cada um deles recebeu 9,650 mil yuans (R$ 3,46 mil).

6. Eletrônicos, antiguidades e pinturas

De câmeras, a ebooks e iPads - produtos eletrônicos são úteis e elegantes. A empresa de tecnologia Hanvon admite que 60% dos seus produtos são para presentes, e que pessoas nascidas nas décadas de 1950 e 1960, são os seus principais alvos. Essas pessoas estariam em seus 50 e 60 anos, ocupando posições de responsabilidade.

Mas um funcionário do Comitê Disciplinar do Município de Pequim disse à revista Chinese Economic Weeklyque, nos últimos anos, as investigações sobre funcionários corruptos revelaram que os itens mais valiosos de suborno eram antiguidades e pinturas históricas. Estes itens são finos, discretos e são uma maneira melhor de subornar alguém do que com dinheiro.

O funcionário, não identificado, disse também que quanto mais importante a autoridade, maior é a quantidade de antiguidades que ele recebe como suborno.

Um exemplo é o ex-chefe de polícia da cidade de Wenzhou, no leste da China, Wang Tianyi, preso em 2000 por corrupção. Wang foi encontrado com 195 pinturas de artistas famosos, 23 porcelanas, quatro objetos de arte ocidentais, 495 moedas antigas, 220 cerâmicas antigas e muitos outros itens valiosos - o suficiente para encher um museu.

"Nos dias de hoje, as autoridades anti-corrupção devem ter conhecimento sobre obras de arte", diz um ditado popular.

Uma maneira mais indireta de subornar alguém é através de leilões de arte. Você dá à pessoa que quer subornar uma obra de arte, que pode ser falsa ou sem muito valor. Ele ou ela coloca a obra em leilão. Você finge que é autêntico e precioso, e o compra por muito dinheiro - e a quantia paga termina com o recipiente original.

Nos últimos anos, leilões de arte também se tornaram um foco de lavagem de dinheiro. Muitos quadros falsos e objetos de arte foram vendidas por preços elevados. Acredita-se que os compradores não são ignorantes ou estúpidos, eles simplesmente usam isso para lavar dinheiro.

Como esses exemplos mostram, a corrupção permeia a vida cotidiana na China, onde o poder e o dinheiro se misturam com facilidade. Enquanto o presidente Xi Jinping está determinado a restaurar a confiança pública no partido, ele pode enfrentar uma batalha árdua para colocar sua casa em ordem.

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