Prefeita italiana que ousou enfrentar máfia italiana relata calvário de ameaças

Por BBC Brasil |

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Maria Lanzetta renunciará ao cargo em julho depois de Estado não cumprir promessa de implementar mudança

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Mais de um ano após ter se tornado um símbolo da luta contra a máfia na Itália, a prefeita do vilarejo de Monaterace, Maria Carmela Lanzetta, disse em uma entrevista à BBC que enfrenta uma situação ainda pior em sua cidade e agora se prepara para deixar o cargo.

Maria Carmela se tornou famosa depois que, em abril do ano passado, sua farmácia na vila de 3,5 mil habitantes na região da Calábria (extremo sul da Itália) pegou fogo e uma série de disparos foram feitos contra o seu carro, depois de meses de ameaças ─ provavelmente da ‘Ndrangheta, a máfia calabresa.

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Andrea Pupetti/BBC
Maria Carmela Lanzetta decidiu renunciar pela segunda vez à prefeitura de Monasterace

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A prefeita ─ que rejeita qualquer ligação com o crime organizado ─ deu então um basta, e a notícia de sua renúncia foi manchete em toda a Itália.

A reação foi tal que o líder do seu partido, o Partido Democrata, viajou para Monasterace para implorar a ela que ficasse.

Outros prefeitos na região ameaçaram renunciar em massa, e a população local, que já tinha feito um mutirão para limpar a farmácia queimada, fez procissões à luz de velas em apoio à líder.

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O governo do país prometeu ajudar a prefeita e lhe ofereceu proteção policial. Ela acabou concordando em voltar ao cargo, mas dando um ultimato de três meses para que o Estado implementasse as mudanças necessárias para que ela pudesse governar.

Em meio a dificuldades, Maria Carmela decidiu novamente renunciar e agora está se preparando para, no final de julho, deixar em definitivo a prefeitura.

Em abril de 2002, ela disse à BBC que acreditava ter sido alvejada pela máfia local por ter tentado pôr ordem na administração da cidade tornando-a mais eficiente e menos suscetível à corrupção. Maria Carmela introduziu reformas para tirar as finanças da prefeitura do vermelho — e acabou enfrentando resistência de moradores ao cobrar contas de água atrasadas.

Ela disse que se sentia impotente e isolada, e que as forças do crime organizado eram maiores do que a de representantes eleitos pelo povo — que a cidade era, enfim, "ingovernável".

Gangrena

A máfia calabresa, suspeita de comandar a maior operação de tráfico de cocaína da Europa, controla um vasta área do sul da Itália por meio de uma mistura de corrupção, subornos e intimidações.

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Pouco antes da segunda renúncia de Maria Carmela, o repórter da BBC Dany Mitzman viajou a Monasterace para conferir se as coisas realmente tinham mudado desde o ano passado e encontrou uma prefeita desanimada.

"Na verdade, as coisas pioraram", disse. "Este deveria ter sido um ano de estabilidade. Mas, ao contrário, está uma bagunça."

Maria Carmela explicou que não se referia apenas às ameaças de morte e à máfia. Segundo ela, a economia está falida e existe um vácuo burocrático que impedia que ela levasse seus planos adiante.

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"Não temos dinheiro, os fundos do Estado foram congelados. Tivemos de decretar a falência do conselho municipal.Estou pensando seriamente em desistir", disse.

'Prisão'

A vida de Maria Carmela Lanzetta mudou radicalmente desde o ano passado. Ela optou por fazer a entrevista em sua casa, já que não gostava de chamar o guarda-costas aos domingos. "É como estar em uma prisão", disse ela à BBC.

"Eu nadava todos os dias. Não entro na água há mais de um ano", desabafou, apontando para o mar que brilhava do outro lado da rua.

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Mitzmam perguntou por que ela não pedia à polícia que a acompanhasse enquanto ela mergulhava. Maria Carmela respondeu que não, alegando que só usava proteção policial em compromissos oficiais. Mas confessou que sentia falta de andar pela cidade ou ir ao cabeleireiro.

Perguntada se talvez estivesse sendo teimosa, ela respondeu que era uma questão de princípios. "Maria Carmela é inegavelmente uma mulher de firmes princípios. Ela segue as regras, e seu livro de regras é sempre o mais rigoroso. Mas ela quer que todos sigam as mesmas regras, e essa nunca foi a maneira como as coisas são na Calábria", disse Mitzman.

Lixo

A magnífica paisagem costeira da região está cheia de monstruosidades. Prédios horrorosos de concreto, inacabados, construídos sem permissão da fiscalização. E lixo apodrecendo nas ruas.

"Culturalmente, há uma ausência de responsabilidade cívica. Muitos cidadãos não entendem por que (é necessário) pagar impostos para água e coleta de lixo."

Em uma autocrítica, ela disse que nem sempre se comunica muito bem com seus cidadãos e que suas atitudes rígidas com frequência provocavam conflitos com outros membros do conselho municipal.

"Eu não tinha muita experiência política (quando fui eleita). Só sabia que queria trazer a legalidade para Monasterace. Não queria conexões com a máfia. E consegui manter todos os nossos contratos limpos, mas não tenho recursos para continuar."

Agora, ela diz que tudo o que queria era voltar para a sua farmácia. "Prefeitos recebem um salário pequeno, mas eu não retiro o meu. Trabalho como voluntária e pago outros para fazer o meu trabalho (na farmácia), enquanto eu trabalho de graça. Se você tivesse de abrir mão da sua fonte de renda, não importa quão nobre fosse a causa, você também sofreria."

Ela também diz sentir falta da vida em família. "Meu marido sempre me apoiou (na carreira política). Meus filhos também, no início. Mas agora me perguntam: 'Mãe, quem está obrigando você a fazer isso?'"

Felizmente, Maria Carmela tem recebido muito apoio e solidariedade de outras prefeitas da Calábria. Algumas, assim como ela, vivendo sob proteção policial.

Na opinião dela, serão as mulheres da Calábria que vão conseguir trazer mudanças sociais positivas. "Mas acho que precisamos de muito mais mulheres para sermos capazes de fazer isso".

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