Mercosul debate asilo a Snowden durante cúpula em Montevidéu

Por BBC Brasil |

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Repúdio à espionagem dos EUA e resposta a tratamento dado a Evo na Europa também estão na agenda da reunião

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Os países membros do Mercosul, reunidos nesta sexta-feira (12) para a 45ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo do bloco, discutirão durante o encontro o asilo oferecido pela Venezuela ao ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês) dos EUA, Edward Snowden, que divulgou um amplo esquema de espionagem realizado pelo governo americano.

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AP
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O programa de vigilância, até então mantido sob forte sigilo, monitorou dados de cidadãos do mundo inteiro, incluindo o Brasil e a América Latina. "É algo que merece o repúdio de qualquer país que se considere democrático", afirmou a presidente Dilma Rousseff ao chegar a Montevidéu na noite de quinta-feira.

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Mais cedo, o ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, que também está na capital uruguaia para o encontro, afirmou que a situação de Snowden está sendo discutida pelo bloco sul-americano.

"A situação do senhor Snowden está sendo debatida. É possível que haja uma decisão paralela sobre a questão do asilo. E nós estamos nos coordenando sobre os termos dessa decisão", disse Patriota em Montevidéu, no Uruguai.

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Os líderes também devem debater uma declaração comum de repúdio às atividades de espionagem. "Está em negociação uma decisão dos chefes de Estado quanto às denúncias que afetam o Brasil e todos os países da região. Há um consenso em repudiar tais atos e buscar formas com que os Estados tenham uma proteção cibernética efetiva, que a soberania seja respeitada e também a privacidade dos indivíduos seja honrada", acrescentou o chanceler.

Além disso, serão identificadas formas de ação conjunta no sistema das Nações Unidas.

Os países do bloco devem expressar também um descontentamento formal quanto à detenção do avião do presidente boliviano Evo Morales em solo europeu.

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Na semana passada, Morales, que retornava a La Paz após uma visita oficial a Moscou, teve de fazer um pouso não previsto na Áustria após alguns países europeus terem impedido que a aeronave presidencial sobrevoasse seu espaço aéreo. Havia a suspeita de que Snowden pudesse estar escondido dentro do avião.

Estarão presentes ao encontro a presidente Dilma Rousseff e seus homólogos Cristina Kirchner, da Argentina; José Mujica, anfitrião, do Uruguai; Nicolás Maduro, da Venezuela; e Evo Morales, da Bolívia. A Bolívia fez um pedido de adesão ao bloco em dezembro passado e seu status oficial é de "membro pleno em processo de adesão". Sua adesão ainda precisa ser ratificada pelos Parlamentos dos demais membros.

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Os presidentes estão reunidos desde às 8h da manhã desta sexta-feira.

Dilma e Cristina também vão realizar uma reunião bilateral em Montevidéu. Elas devem discutir, entre outros temas, a renovação do acordo automotivo entre os dois países, que expirou no final de junho e ainda não foi prorrogado.

Outros pontos importantes da reunião de cúpula serão a concessão da presidência rotativa do Mercosul à Venezuela, país que participará pela primeira vez como membro pleno, e a aproximação entre o bloco e os países caribenhos.

Tensões internas

A presidência temporária venezuelana vem causando irritação no Paraguai, suspenso do Mercosul após a deposição de Fernando Lugo, em junho do ano passado. A reincorporação do país — que voltaria à "normalidade democrática" exigida pelo Mercosul em 15 de agosto, quando assumir o novo presidente eleito, Horacio Cartes — é outro dos assuntos que deve estar em debate nesta sexta-feira.

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O Paraguai havia solicitado a presidência pro tempore do Mercosul, apesar da atual condição, como um gesto de "boa vontade" dos líderes sul-americanos e deixou aberta a possibilidade de abandonar o bloco se a Venezuela assumisse o comando, já que não reconhece o país de Maduro como membro pleno.

Cartes foi convidado para a reunião desta sexta-feira, mas decidiu não comparecer porque ainda não foi empossado como presidente. "A presidência da Venezuela será um fato da realidade, e a expectativa é de que o Paraguai se adapte a essa nova realidade dentro do mais breve prazo", afirmou Patriota ontem em Montevidéu.

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O Mercosul vive tensões internas entre seus integrantes também por causa de impasses de ordem comercial, especialmente entre Brasil e Argentina e entre Argentina e Uruguai — que recentemente levaram o vice-presidente uruguaio, Danilo Astori, a classificar a relação bilateral como "a pior em anos".

Além disso, o país de José Mujica vem acenando com o interesse de se tornar membro pleno da Aliança do Pacífico – bloco constituído por México, Colômbia, Chile e Peru.

No Uruguai, a adesão é vista como "algo que não é contraditório com as políticas do Mercosul", como considerou Álvaro Ons, diretor de Integração e Mercosul da chancelaria uruguaia em entrevista à rádio local Océano FM. No entanto, para o brasileiro Ivan Ramalho, alto representante do Mercosul, tal entrada deve ser negociada "em bloco", e não individualmente por cada país, segundo informou ele em entrevista ao jornal uruguaio El País.

Outros temas em pauta são as incorporações plenas de Bolívia e Equador ao bloco, a efetivação da entrada de Suriname e Guiana como Estados associados – o que deve ser anunciado formalmente pelos presidentes do bloco nesta sexta-feira - e as dificuldades de avançar nas negociações comerciais entre a União Europeia e Mercosul.

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