Países vizinhos se dividem quanto a desdobramento de golpe no Egito

Por BBC |

compartilhe

Tamanho do texto

Facções rivais voltam a tomar as ruas egípcias neste domingo; países do norte da África temem efeitos da crise

BBC

Passada sua Primavera Árabe, o norte da África está dividido quanto a como reagir aos desdobramentos da crise no mais poderoso país árabe - o Egito.

AP
Menina egípcia segura cartaz de durante protesto pró-Morsi neste domingo (7)



Quarta: Exército do Egito depõe Morsi e suspende Constituição

Na vizinha Líbia, no último ano e meio, a reportagem da BBC conheceu jovens tanto relativamente entusiastas da Irmandade Muçulmana (o movimento político de Morsi) quanto hostis à ideologia do grupo.

No Twitter: Morsi caracteriza como golpe sua deposição no Egito

Líbios que não votaram na Irmandade se tornaram cada vez mais desconfiados de suas intenções de longo prazo e elogiaram o golpe militar que derrubou Morsi, defendendo uma "segunda revolução" para a própria Líbia.

Mas contra quem os líbios irão se rebelar, considerando que eles não têm mais uma figura central ou militar em seu governo?

Badie: Líder supremo da Irmandade promete pôr fim a 'regime militar'

Cronologia: Entenda a crise que levou à queda de Morsi no Egito

A população líbia está em sua maioria descontente com o poder Legislativo - o Congresso Geral Nacional eleito há mais de um ano - e com a profusão de brigadas e milícias existentes no país.

Divisão ideológica
Após a derrubada de Morsi, o ativista líbio Ibrahim, que participou dos protestos contra o antigo regime líbio de Muamar Khadafi em 2011, diz apenas que "o que aconteceu no Egito vai acontecer na Líbia".

Cerco: Exército reprime Irmandade Muçulmana após depor Morsi

Golpe no Egito: Leia todas as notícias sobre a queda de Morsi

Ele não vê a intervenção do Exército egípcio como um golpe. "Eles fizeram isso (a deposição de Morsi) para proteger a vontade do povo", diz em entrevista telefônica à BBC de Benghazi.

Já a advogada líbia Hanna Ghallal enxerga dois lados da moeda no Egito.

Sucessão: Presidente interino do Egito assume após Exército depor Morsi

Recuo: Impasse impede confirmação de ElBaradei como premiê

Como ativista, ela acha que a população se revoltou contra Morsi porque quer "dignidade e uma democracia real, que não termina nas urnas". Ao mesmo tempo, como advogada, ela não acredita que a intervenção militar deva ser comemorada. "Agora eles são parte do conflito, e o Exército deveria ser imparcial".

Ibrahim e Hanna concordam em uma coisa: ambos veem o Egito imerso em uma profunda divisão ideológica, à beira de um conflito civil que poderia se espalhar para o lado deles da fronteira.

"Se o Egito se desestabilizar, imagine o que acontecerá com a Líbia", diz Hanna. "Dependemos deles para segurança de fronteira, porque não temos o Exército para fazer isso."

Temor de guerra civil
Mais a oeste na África, tunisianos foram um passo além: eles copiaram o Egito e começaram seu próprio Tamarod ("rebelião", nome dado ao movimento que pediu a retirada de Morsi).

Taieb Moalla, correspondente tunisiano de um jornal francês e ativista, está perplexo pelos fatos recentes.

"A situação (no Egito e na região) já esteve clara e fácil. Agora não está mais."

Menina egípcia segura cartaz de durante protesto pró-Morsi neste domingo (7). Foto: APEgípcias choram durante enterro de oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi, que foram mortos durante confrontos no Cairo (6/7). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi gritam slogans perto da Universidade do Cairo em Giza, Egito (6/7). Foto: APPartidária do presidente deposto Mohammed Morsi segura no Cairo retrato em que se leem: 'legitimidade é uma linha vermelha' e 'saia Sissi, Morsi é meu presidente' (6/7). Foto: APManifestantes contrários ao presidente deposto Mohammed Morsi arremessam pedras durante confrontos com membros da Irmandade e partidários de Morsi no Cairo (5/7). Foto: ReutersPartidários e oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi entram em confronto na ponte 6 de Outubro, perto de Maspero, Cairo (5/7). Foto: APManifestantes islâmicos, um deles com o retrato do presidente deposto Mohammed Morsi, mostram mãos sujas de sangue após disparos do Exército no Cairo (5/7). Foto: APManifestantes que apoiam o presidente deposto Mohammed Morsi correm em meio ao gás lacrimogêneo lançado pelas forças de segurança no Cairo (5/7). Foto: ReutersPartidários de Mohammed Morsi reagem a uma explosão de origem desconhecida e jogam pedras em delegacias durante protesto perto da Universidade do Cairo (5/7). Foto: APSeguidor do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi reza antes de manifestação perto da Universidade do Cairo (5/7). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi gritam perto da praça da mesquita de Raba El-Adwyia, no Cairo (5/7). Foto: ReutersPartidária segura pôster do presidente deposto Mohammed Morsi no qual se lê 'Sissi traidor', em referência ao chefe do Exército, em marcha em Nasser (4/7). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi participam de manifestação perto da Universidade do Cairo, Egito (4/7). Foto: APMembro da Irmandade Muçulmana e partidários de presidente deposto Mohammed Morsi protestam na praça da Mesquita Raba El-Adwyia no Cairo (4/7). Foto: ReutersMembros da Irmandade Muçulmana e partidários de presidente deposto Mohammed Morsi protestam durante cerimônia de posse de líder interino no Cairo (4/7). Foto: ReutersSoldados egípcios são posicionados perto da Universidade do Cairo, onde milhares de partidários da Irmandade Muçulmana estão reunidos (3/7). Foto: APPartidária do presidente deposto Mohammed Morsi chora agarrada a seu retrato após anúncio de Exército egípcio (3/7). Foto: APFogos de artifício clareiam o céu enquanto milhares celebram queda de Morsi na Praça Tahrir, no Cairo (3/7). Foto: APManifestantes egípcios gritam palavras de ordem contra Mohammed Morsi na Praça Tahrir, no Cairo (3/7). Foto: APOpositores do presidente islâmico egípcio, Mohammed Morsi, celebram ultimato do Exército do lado de fora do palácio presidencial no Cairo (3/7). Foto: APOpositores do presidente deposto do Egito celebram do lado de fora do palácio presidencial no Cairo (3/7). Foto: APFogos de artifício iluminam céu do Egito do lado de fora do palácio presidencial no Cairo (3/7). Foto: APFogos de artifício iluminam o céu após Exército do Egito anunciar a queda do governo de Mohammed Morsi do lado de fora do palácio presidencial no Cairo (3/7). Foto: APReprodução de vídeo mostra general Abdel-Fattah el-Sissi durante discurso à nação na TV estatal egípcia (3/7). Foto: APMilitar em tanque avança em torno de partidários do líder islâmico do Egito, Mohammed Morsi, em Nasser, Cairo (3/7). Foto: APEgípcio agita bandeira nacional enquanto militares cercam partidários do presidente islâmico, Mohammed Morsi, em Nasser, Cairo (3/7). Foto: APForças militares especiais marcham em torno de partidários do líder islâmico, Mohammed Morsi, em Nasser, Cairo (3/7)
. Foto: APManifestante contrário ao presidente egípcio, Mohamed Morsi, agita bandeira nacional na Praça Tahrir no Cairo (3/7). Foto: ReutersOpositores ao presidente Mohammed Morsi colocam enorme bandeira egípcia em volta do palácio presidencial no Cairo (3/7). Foto: APPartidários do presidente egípcio, Mohamed Morsi, seguram fotografias suas durante protesto na praça da mesquita Raba El-Adwyia (3/7). Foto: ReutersDois manifestantes se abraçam durante protesto contra presidente egípcio, Mohammed Morsi, na Praça Tahrir, no Cairo (3/7). Foto: ReutersPartidários do presidente egípcio seguram fotografias de Mohammed Morsi do lado de fora da Universidade do Cairo (3/7). Foto: ReutersManifestantes contrários ao presidente egípcio, Mohamed Mursi, se reúnem na Praça Tahrir, no Cairo (3/7). Foto: ReutersVista aérea mostra manifestantes contrários ao presidente egípcio, Mohammed Morsi, na Praça Tahrir, Cairo (3/7). Foto: ReutersOpositores do presidente do Egito, Mohammed Morsi, seguram grande bandeira do país durante protesto do lado de fora de palácio presidencial no Cairo (2/7). Foto: APVoluntários formam zona de segurança entre homens e mulheres para evitar ataques sexuais em protesto contra Morsi na Praça Tahrir, Cairo (2/7). Foto: APHelicóptero do Exército sobrevoa opositor ao presidente Mohammed Morsi enquanto ele agita bandeira do Egito na Praça Tahrir, Cairo (2/7). Foto: APPartidários de Mohammed Morsi seguram escudos improvisados em frente à mesquita Rabia el-Adawiya, perto do palácio presidencial, no Cairo (2/7). Foto: APMulher egípcia grita enquanto manifestantes invadem a sede da Irmandade Muçulmana no distrito de Muqattam, Cairo (1/7). Foto: APEgípcias comemoram ultimato de 48 horas dado por Exército ao presidente Mohammed Morsi e aos líderes da oposição no Cairo (1/7). Foto: APPartidários de President Mohammed Morsi fazem manifestação em Nasr, Cairo (30/6). Foto: APOpositora segura cartaz no qual lê-se: 'Tamarod: o fim da Irmandade Muçulmana' (30/6). Foto: APManifestantes egípcios se reúnem na Praça Tahrir durante manifestação contra presidente Mohammed Morsi (30/6). Foto: APOpositor agita tampas de panelas com os dizeres: 'Saia' (30/6). Foto: APManifestante segura cartão vermelho com a palavra: 'Saia' (28/6). Foto: APManifestante egípcia mostra palma da mão pintada com as cores da bandeira e em que se lê 'Egito' em protesto no Cairo (28/6). Foto: APManifestantes partidários do presidente Mohammed Morsi fazem marcha em Cairo (28/6). Foto: Reuters

Ainda que ele também não veja a queda de Morsi como um golpe de Estado tradicional - argumentando que milhões de egípcios apoiaram a medida -, ele tampouco acredita que a intervenção do Exército visa a democracia ou o bem-estar do povo.

"Há sinais de uma guerra civil", opina ele. "É possível (que isso aconteça) porque Morsi vai se tornar mais popular entre seus apoiadores e (sua saída) pode radicalizar a Irmandade Muçulmana."

Ainda que a Tunísia tenha um partido islâmico moderado - o Ennahda, vitorioso nas eleições de 2011 -, Moalla não acha que o golpe militar que aconteceu no Egito possa se repetir em seu país.

"Ao contrário do Egito, nosso Exército não tem tradição de envolvimento político. Não tivemos líderes militares", diz ele. "E o Ennahda também tem sido mais conciliatório - há uma coalizão de governo. Eles foram espertos e entenderam que não poderiam governar sozinhos."

Para muitos, foi nesse ponto - a conciliação - que o governo deposto do Egito fracassou.

Em geral, revoluções estão relacionadas a ideais românticos de transformação, mas na vida real elas são seguidas de um período de turbulência e confusão sobre quais passos tomar e quem é a pessoa ideal para realizá-los.

Nesses três países, as revoluções da Primavera Árabe também trouxeram a ascensão do islã político. A forma como esses elementos se combinarão vai determinar se as transições de poder serão bem-sucedidas.

Leia tudo sobre: egitomorsiqueda do morsiirmandade muçulmanalíbia

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas