Oposição perde espaço com mudanças em canal de TV na Venezuela

Por BBC Brasil |

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Emissora anteriormente opositora, Globovisión vem se adaptando à diretriz estabelecida pelos novos proprietários, que assumiram seu controle na semana passada

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O fim de um programa de TV que tratava de temas espinhosos para o governo da Venezuela, transmitido pelo canal Globovisión, representou mais um sinal da crescente falta de espaço disponível à oposição do país na imprensa para criticar as autoridades.

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Apresentador 'Kico' Bautista, crítico do governo venezuelano, dá coletiva em Caracas após anunciar que deixava Globovisión (27/05)

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A emissora venezuelana era considerada um dos últimos refúgios das vozes críticas à chamada Revolução Bolivariana. No entanto, o canal vem se adaptando à diretriz estabelecida pelos novos proprietários, que assumiram o controle da Globovisión na semana passada.

Um dos principais reflexos dessa nova linha editorial foi a decisão de retirar da programação na segunda-feira o conhecido programa Buenas Noches, do jornalista Francisco "Kico" Bautista - considerado um dos maiores críticos do governo venezuelano.

A oposição acredita agora que outros programas podem ser cancelados e jornalistas considerados opositores do regime, demitidos. A mudança na programação vem causando um debate intenso nas redes sociais.

Sob a hashtag #GlobovisionYaNoTeVeoMas, uma campanha no Twitter organizada por insatisfeitos com os rumos do canal levou a conta da Globovisión no site a perder entre 200 mil e 300 mil seguidores em pouco mais de 72 horas, segundo um levantamento de especialistas da área.

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O episódio coincidiu com o aniversário de seis anos do fim das transmissões daquela que era considerada a emissora de TV mais antiga e de maior audiência da Venezuela: a Radio Caracas Televisión (RCTV), o que já havia limitado a capacidade da oposição de se comunicar com os venezuelanos.

Restrição ao vivo

Os primeiros indícios de uma possível mudança na linha editorial da Globovisión começaram a aparecer na semana passada, quando, atipicamente, a emissora não veiculou reportagens sobre a presença do ex-candidato à presidência e atual governador do Estado de Miranda, o opositor Henrique Capriles, em eventos públicos nas últimas quinta e sexta-feiras.

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Capriles - que perdeu as eleições em abril por uma margem de votos de 1,5 ponto percentual para o atual presidente Nicolás Maduro - reclamou em sua conta do Twitter, dizendo que havia sido informado de que "a nova direção (do canal) ordenou" que não aparecesse mais ao vivo e questionasse o grupo de investidores que comprou o canal de seu fundador, Guillermo Zuloaga.

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Guillermo Zuloaga, ex-proprietário majoritário da Globovisión, em foto de 2009

Na segunda-feira, "Kico" Bautista deixou o canal. Segundo informações de bastidores, ele teria sido demitido depois que apresentou, em seu programa veiculado na sexta-feira, um resumo do que ocorreu em um dos eventos do qual Capriles participou.

Em entrevista à BBC Mundo, Bautista afirmou ter sido desligado após "contrariar a política editorial" da Globovisión. "A nova diretriz proibiu que os políticos, do governo e oposição, apareçam discursando ao vivo, contrariando uma das principais características da Globovisión, que era o imediatismo das notícias, ou seja, cobrir os eventos enquanto eles aconteciam", disse Bautista, para quem não faz sentido a nova estratégia do canal.

'Outra tarefa'

A nova direção da Globovisión anunciou uma linha editorial "de centro" e, na semana passada, reuniu-se com o presidente Maduro no palácio de Miraflores - a primeira vez em muitos anos que representantes do canal estiveram na sede do governo venezuelano.

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Na saída, em conversa com jornalistas, o novo presidente do canal, Juan Domingo Cordero, assegurou que a Globovisión "continuará sendo um canal de notícias (...) transmitindo os fatos, dizendo a verdade". "Vocês sabem as razões pelas quais a Globovisión não era bem-vinda neste palácio, isso não vai acontecer de novo", acrescentou.

Entre as novas estratégias da emissora estaria a de abandonar a linha persistente de oposição e dar voz às autoridades. Em um comunicado, a direção garantiu que "não vetou nenhum funcionário ou dirigente político em suas grades. Pelo contrário, a política editorial do canal consiste em obter informação e opinião de todas as vozes do país, sem qualquer discriminação".

Reportagens veiculadas na imprensa venezuelana sugerem que os novos proprietários da Globovisión teriam vínculos com figuras do governo e indicam que por trás da aquisição do canal houve uma coordenação para calar a voz da oposição.

No entanto, fontes internas do canal, que pediram anonimato, disseram à BBC Mundo que "não existe vínculo direto nem evidente" entre Cordero ou seu sócio Raúl Gorrín com o partido de Maduro.

A BBC Mundo tentou contatar os novos representantes da emissora, mas não obteve respostas até o fechamento desta reportagem.

'Caminho do confronto'

Muitos afirmam que as mudanças na Globovisión desequilibram ainda mais a oferta de informações na televisão venezuelana e lembram que o Estado já tem à sua disposição (embora com baixa audiência, segundo as pesquisas) seis canais de sinal aberto que usa para divulgar suas mensagens sem dar espaço às vozes da oposição.

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Além disso, o governo obriga quase que diariamente as grandes emissoras a transmitir pronunciamentos públicos ou mensagens oficiais. "O governo estava muito preocupado com as coletivas concedidas por Henrique Capriles. Cada vez que ele emitia um pronunciamento, as TVs interrompiam a sua programação ao vivo para veiculá-lo", disse à BBC Mundo Carlos Correa, diretor do Espacio Público, uma organização não governamental que promove a defesa da liberdade de expressão na Venezuela.

Correa acredita que a primeira consequência das mudanças na Globovisión é a perda na diversidade da informação transmitida ao público. "Isso significa que na Venezuela não há outro canal com a mesma intensidade e qualidade oferecida pela Globovisión. Temos a Venevisión e Televen que são canais (privados) generalistas com pouco equilíbrio e espaço para a opinião" contra seis públicos que, segundo Correa, "divulgam propaganda."

Para especialistas, independentemente da guinada no estilo do canal, a mudança na linha editorial da Globovisión causa um impacto político e social. Jesus Torrealba, apresentador da Globovisión, destaca que, de acordo com os resultados da última eleição presidencial, a oposição representa quase metade do país.

Segundo ele, os eleitores de Capriles ainda não reconheram a vitória de Maduro e estão aguardando uma decisão sobre a impugnação apresentada por Capriles no Supremo Tribunal Federal da Venezuela. "Fechar a válvula de escape que representa a insatisfação e a discordância, como é a natureza crítica da Globovisión, é mais um passo no caminho do confronto", disse.

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