Ataques isolados e imprevisíveis: a nova face do extremismo

Por BBC Brasil |

compartilhe

Tamanho do texto

Segundo especialista, governos deveriam investir não somente em segurança, mas em desenvolvimento para criar empregos, e em educação para reduzir fanatismo religioso

BBC

Dois irmãos de Boston instalam bombas caseiras que, ao explodir durante uma movimentada maratona, deixam três mortos e cerca de 260 feridos. Um mês depois, em plena luz do dia, dois homens matam a facadas um soldado britânico em Londres, gritando palavras de ódio, em um ataque descrito como "bárbaro" pelas autoridades.

Separados por um oceano, os incidentes têm em comum o fato de terem sido praticados por indivíduos sectários, agindo em nome da "guerra santa" – jihad – mas sem aparente apoio logístico ou material de redes extremistas.

Em discurso: Obama limita extensão da luta contra o terror e defende drones

Reprodução
Vídeo mostra homem com mãos ensanguentadas e segurando um facão que diz: 'Juramos pelo todo poderoso Alá que nunca vamos parar de lutar contra vocês'

Woolwich: Testemunhas relatam frieza e euforia de suspeitos de ataque em Londres

Além disso, em Boston e em Londres, os autores dos atentados eram velhos conhecidos dos serviços de segurança dos Estados Unidos e do Reino Unido, respectivamente, levantando questões sobre por que os ataques não puderam ser evitados.

"A intolerância e a violência desatadas por preconceito, ódio político ou fanatismo religioso são tão antigas quanto a própria humanidade", disse à BBC Brasil Yonah Alexander, diretor do Centro International de Estudos sobre o Terrorismo do Potomac Institute, com sede em Arlington, no Estado americano da Virgínia.

Leia mais: Homem é morto em suposto ataque terrorista ao sul de Londres

"Mas estamos lidando com essas pessoas em missões ideológicas, teológicas ou que quer que sejam, sem saber muito bem as regras do jogo no que concerne a eles".

'Guerras assimétricas'

Os incidentes voltaram a lançar uma luz sobre as chamadas "guerras assimétricas" – como a chamada guerra contra o terror iniciada pelo presidente americano George W. Bush (2001-2009), e modificada e continuada pelo seu sucessor, Barack Obama.

EUA: Explosões na Maratona de Boston deixam ao menos três mortos

Cenário: 'Explosões deixaram vários amputados', diz corredor da maratona de Boston  

É um debate que não é novo e nem está resolvido, como indicou Obama em um discurso sobre terrorismo na National Defense University, em Washington, na quinta-feira.

O presidente fez uma defesa dos polêmicos métodos usado por seu governo, entre eles, o uso de aviões não tripulados em ataques aéreos e o emprego de força letal contra certos indivíduos considerados de alto risco.

"Estamos lidando com esses militantes em missões ideológicas, teológicas ou que sejam, sem saber muito bem as regras do jogo no que concerne a eles."

Woolwich: Reino Unido detém dois suspeitos de envolvimento em ataque em Londres

Por bem ou por mal – e por vias legais ou ilegais, já que o debate ainda está em aberto –, o discurso mostrou que os estrategistas de hoje já são capazes de desmantelar organizações extremistas da mesma forma que os generais de outrora eram capazes de vencer manobrando seus Exércitos no campo de batalha.

O problema está na lógica dos ataques de Boston e Londres, onde a assimetria é maior – e a previsibilidade, menor.

Em entrevista na quinta-feira ao programa Newsnight, da BBC, Richard Barrett, ex-oficial do MI6, serviço secreto de inteligência britânico voltado para o exterior, acredita que os autores do ataque de Londres provavelmente não tinham a intenção de cometer o crime até recentemente.

AP
Tamerlan Tsarnaev (esq.) e Dzhokhar Tsarnaev (dir.) são os suspeitos do ataque à Maratona de Boston

Inteligência na Berlinda
Suspeitos de ataque em Londres já haviam sido investigados, diz oficial
Suspeito de ataque em Boston estava em banco de dados da CIA há 18 meses

"Eu acredito que eles provavelmente façam parte de um pequeno grupo que não necessariamente tem conexões com redes extremistas no exterior ou no Reino Unido que despertasse muito a atenção dos serviços de segurança", afirmou Barrett.

"Em que momento uma pessoa que expressa opiniões extremistas e que se une a um grupo radical passa a ser violento?", indaga o ex-agente. "Identificar esses sinais é extremamente difícil", completa.

Para Yonah Alexander, não é possível "eliminar de vez esse tipo de terrorismo", mas pode-se lidar com os fatores que contribuem para a violência e a radicalização.

"Podemos não saber onde e quando os ataques vão ocorrer, mas podemos ver as tendências; podemos ver os fatores que contribuem para eles, desde divisões étnicas a preconceitos e intolerância religiosa."

Desativando o ódio

Em relatórios passados, seu centro de estudos recomendou que os governos invistam não somente em segurança, mas também em desenvolvimento econômico para criar empregos e oportunidades, e em educação para reduzir o fanatismo religioso.

Tamerlan: Suspeito de ataque em Boston buscou lar em território marcado por violência

Em vídeo: Suspeito diz que ataque em Londres vinga morte de muçulmanos

E no campo da política externa, o instituto chama atenção para os benefícios da chamada "smart power" – expressão que pode se traduzir como "poder inteligente" –, que combina os aspectos "duros" da influência, como o militarismo, com o seu lado "soft", que inclui a cooperação econômica e a educação.

Em seu discurso sobre a estratégia do governo contra o terrorismo, Obama afirmou que "a tecnologia e a internet aumentam a frequência e a letalidade (do extremismo)". "Hoje, uma pessoa pode consumir propaganda fazendo apologia ao ódio, se comprometer com uma agenda violenta e aprender a matar sem sair de casa."

Dzhokhar: Ataque a Boston teria motivação religiosa, indica suspeito em interrogatório

Entretanto, o presidente disse que seu governo tem procurado estabelecer parcerias entre a comunidade muçulmana nos EUA – "que tem consistentemente rejeitado o terrorismo" – e a polícia para "identificar os sinais de radicalização" entre os seus indivíduos.

"Essas parcerias só podem funcionar quando reconhecemos que os muçulmanos são parte fundamental da família americana", disse Obama.

Reuters
Pessoas veem flores deixadas do lado de fora de quartel perto de onde soldado foi morto em Woolwich, sudeste de Londres

Alexander também enfatiza que cabe às sociedades, por meio de seus grupos religiosos, educacionais e políticos, e incluindo os meios de comunicação, assumir a "responsabilidade de desativar os elementos que contribuem para o ódio".

"Mas cada situação precisa ser avaliada individualmente", diz o especialista. "Não podemos oferecer soluções muito métricas nem desenhar um grande esquema que se aplique para todas elas."

Leia tudo sobre: euareino unidoataquesterrorismo

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas