Com agendas opostas, TVs 'alimentam' tensão na Venezuela

Por BBC Brasil |

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Emissora estatal retrata oposição como violenta e golpista, enquanto rede privada noticia que oposição defende solução pacífica e acusa governo de roubar eleição

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Num momento de extrema polarização da política da Venezuela, os meios de comunicação se tornaram a principal arena de disputa após as conturbadas eleições de 14 de abril.

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A tensão cresceu no país desde que o candidato opositor, Henrique Capriles, exigiu a recontagem dos votos para reconhecer a vitória do governista Nicolás Maduro, e essa tensão se reflete sobretudo na televisão.

Reuters
Presidente Nicolás Maduro recebe faixa presidencial do presidente da Assembleia Diosdado Cabello e de María Gabriela Chávez, filha de Hugo Chávez (19/04)

Na emissora estatal Venezolana de Televisión (VTV), a oposição é retratada como violenta e golpista, enquanto o governo pede paz. Em contrapartida, a rede privada Globovisión noticia que a oposição defende uma solução pacífica, enquanto o governo, que "roubou as eleições", busca a violência.

Os intervalos publicitários aumentam a controvérsia, com "comerciais" que, com montagens impactantes, oferecem um retrato aterrorizante de cada lado.

Dois mundos

A imprensa oficial defende o Conselho Nacional Eleitoral e a legitimidade de Maduro, com constantes críticas a Capriles - acusado de golpismo e de ser responsável pelas nove mortes nos protestos pós-eleitorais.

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Para a socióloga e analista de meios Maryclen Stelling, "não é que a tensão pulou para os meios de comunicação, mas sim os meios fazem parte da tensão - a relatam e a alimentam". "Há um jogo perverso, porque os meios de todos os espectros estão a serviço de interesses políticos de dois projetos de país que colidem entre si", diz a analista à BBC. "Na Venezuela, os projetos (políticos) não se enfrentam (no âmbito) dos partidos, mas sim dos meios."

Enquanto esse debate se intensifica na TV, a maioria governista da Assembleia Nacional formou uma comissão de investigação que deu início a seu trabalho acusando a oposição pelo suposto incêndio de centros de saúde onde médicos cubanos atendiam pacientes de regiões humildes.

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Na Globovisión e em outros meios alinhados com a oposição - principalmente jornais -, investigações jornalísticas desmentem essas acusações do governo e mostram fotos dos centros médicos intactos. As trocas de acusação mútuas prosseguem na mídia independentemente de quantas vezes sejam desmentidas.

Não é à toa, segundo Stelling, que os venezuelanos tendem a consumir apenas os meios de comunicação com os quais têm afinidades políticas. Sendo assim, as notícias que o cidadão consome "reforçam a verdade em que ele quer acreditar", diz.

Transmissões obrigatórias

Mas é bom ressaltar que a Globovisión e a VTV são canais minoritários. A maioria dos venezuelanos prefere a novela à política na TV. "Os canais generalistas reproduzem os comentários de Capriles, mas no noticiário das 23 horas. Isso não tem impacto direto na ação política. O que tem é uma transmissão ao vivo de uma coletiva", disse à BBC Andrés Cañizales, pesquisador da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB).

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AP
Henrique Capriles, líder de oposição na Venezuela, dá coletiva em Caracas (24/04)

Com isso, a oposição não tem muito o que fazer, mas o governo tem um trunfo: a transmissão obrigatória de rádio e TV. Na semana passada, por exemplo, justo quando Capriles denunciava na TV o uso dessas transmissões para difundir uma montagem que o acusava pelas mortes dos protestos de 15 de abril, o opositor foi interrompido por um pronunciamento de transmissão obrigatória com essa mesma montagem.

"É o medo de que eu fale com cada venezuelano sobre a luta por seus direitos", disse Capriles na ocasião, quando foi transmitido ao vivo apenas pela Globovisión.

Na quinta, o candidato opositor teve de esperar 50 minutos até que terminasse outra transmissão obrigatória de Maduro. Para Cañizales, a "possibilidade de Maduro de fazer transmissões interrompendo uma entrevista de Capriles faz com que, em termos midiáticos, a situação seja bastante desigual".

Segundo Maryclen Stelling, "como os resultados (eleitorais) são contestados, as emissoras têm um conteúdo fortemente político, de confrontação e 'deslegitimização' do adversário". "Mas é preciso entender isso dentro do contexto: Maduro não tem tempo suficiente de apresentar sua gestão e tem metade do país contra ele", opina Stelling.

Esse contexto é justamente o mais preocupante: a tensão pós-eleitoral não diminui, e os meios de comunicação não estão ajudando a dissipá-la.

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