Após episódios de violência, Capriles cancela grande passeata em Caracas

Por BBC Brasil |

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Líder da oposição pede que seus partidários não saiam às ruas na quarta-feira, mas convoca panelaço para sexta-feira: 'quem se afastar de uma conduta pacífica não está comigo'

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Ao fim de um dia de retórica inflamada, o líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles, cancelou na terça-feira (16) a megapasseata que havia convocado para quarta até a sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), em Caracas, para apresentar formalmente um pedido de auditoria de 100% dos votos das eleições de domingo.

Durante uma entrevista coletiva com meios de comunicação domésticos e estrangeiros, Capriles pediu "a todos os meus seguidores que retrocedam" e não saiam às ruas, como ele havia convocado após a divulgação dos resultados oficiais.

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AP
Candidato da oposição na Venezuela, Henrique Capriles, participa de coletiva em Caracas (16/4)

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Em vez disso, Capriles pediu aos seus partidários um novo panelaço na noite de terça-feira e na sexta-feira, data para a qual está marcada a data de posse do presidente eleito, Nicolás Maduro. "Não é coincidência o discurso (do governo) para causar mais raiva. Por isso, esse é o momento da inteligência, da razão", disse Capriles."Não vamos perder o rumo, o rumo é a paz."

"Quem sair está fazendo o jogo do governo. Quero dizer a todos os que estão com Capriles: quem se afastar de uma conduta pacífica não está nesse projeto, não está comigo. Está me causando dano, dano à perspectiva da paz que construímos", afirmou.

O opositor disse ter "informação de inteligência" de que o governo pretendia infiltrar pessoas na mobilização para consignar formalmente ao CNE o pedido de auditoria, para criar uma situação de violência e desviar a atenção para as acusações de fraude eleitoral que a oposição sustenta.

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"O governo quer que a notícia que os senhores (jornalistas) divulguem hoje não seja a de que queremos a recontagem voto por voto, mas a de que há violência", disse o opositor. "O governo quer que aqui haja mortos. O governo se ‘autofaz’ coisas." 

Indícios de fraude

Durante a conversa com os jornalistas, Capriles apresentou uma série de indícios de irregularidades eleitorais que a oposição quer que sejam investigados. Estas incluiriam, segundo ele, centros de votação com mais votos que eleitores registrados, suspeitas de que eleitores falecidos depositaram seus votos, testemunhas retiradas dos centros de votação, máquinas eleitorais danificadas, intimidação e propaganda eleitoral nos arredores das seções.

"Eu não estou pedindo que aqui, porque eu quero, proclamem um ganhador distinto", disse Capriles. "Quero a recontagem voto a voto."

"Inclusive na noite de domingo, pedimos ao CNE que não fizesse o boletim até que se acordasse, frente ao país e ao mundo, que esse processo ia ser submetido a uma revisão 100%. O candidato do governo concordou – horas depois, mudou de opinião."

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O candidato da oposição acusou o governo de tentar fomentar a violência no país para desviar a atenção das denúncias e pediu que seus seguidores que "não caiam" nesta estratégia. "Se eu quero mudar o governo que persegue, que intimida, não é mudar a cor de uma para outra. Sou um pacifista. Acredito na união e no encontro de todos os venezuelanos, em um governo de unidade nacional, em pessoas que pensam de forma diferente. Eu as quero e aprecio", disse Capriles.

Tensão

Ao longo do dia, a escalada na retórica política no país elevou a tensão. Grupos opositores protestaram em frente a sedes regionais do CNE, queimando pneus, levantando barricadas improvisadas e ocultando os rostos com camisas enroladas na cabeça.

Reuters
Partidários de Capriles enfrentam tropa de choque durante protesto após eleições na Venezuela (15/4)

Nas redes sociais, têm sido divulgadas fotos e rumores de manifestantes de ambos os lados carregando armas em manifestações públicas.

Quando o protesto ainda estava mantido, o presidente eleito do país, Nicolás Maduro, proibiu a marcha de chegar à sede do CNE, acusando a oposição de querer "encher o centro da cidade de morte e sangue".

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"Não permitirei. Vou utilizar a mão dura contra o fascismo e a intolerância, se quiserem me derrocar, que venham por mim", disse Maduro, durante a inauguração de um posto de saúde no Estado de Miranda. "Estou aqui com o povo e as Forças Armadas, seu burguês, burguesinho."

Mais cedo, a procuradora-geral da República, Luisa Ortega Díaz, disse que sete pessoas morreram durante as manifestações da segunda-feira, algumas, simpatizantes do governo alvejados quando celebravam a vitória de Maduro.

Segundo ela, mais de 60 ficaram feridas e quase 140 foram presas. "Entre esses feridos há uma pessoa que foi queimada viva – queriam matá-la queimando-a", disse Ortega Díaz. "Foi incendiada viva, olhem os níveis de agressividade e violência que um grupo de pessoas tem neste momento."

Investigação

O presidente da Assembleia Legislativa, Diosdado Cabello, disse que o governo abrirá investigações contra um grupo de dirigentes da oposição, entre os quais estão Henrique Capriles, seu colega de partido Leopoldo López e Henri Falcón, governador do Estado de Lara.

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"Vamos atuar penalmente contra os chefes, se enfiem onde se enfiem", disse Cabello."O fascismo não pode se apoderar deste país", continuou, chamando Capriles de"um covarde incapaz de assumir a sua responsabilidade".

Maduro acusou a oposição de premeditar incidentes para "procurar mortos" nos acirrados protestos e disse que, "se continuarem, estou disposto a radicalizar esta revolução".

"Uma revolução verdadeira não retrocede contra a burguesia, contra o fascismo", disse. "O fascismo está mostrando a sua verdadeira cara, eles andaram se disfarçando por muitos anos."

Ele acusou ainda a Embaixada americana de financiar a oposição e as suas tentativas de derrubar o governo, da mesma forma como o fez em 2002.

'Calma'

Em resposta, durante sua entrevista coletiva, Capriles pediu ao presidente eleito que "se acalme" e ironizou as declarações de "radicalizar a revolução". "Quero pedir ao senhor Maduro que se acalme um pouco. Sinto que está caindo em desvairio", disse Capriles. "Quero saber se vai radicalizar os apagões, o problema da escassez, da inflação, da situação econômica", afirmou.

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"Eu creio que não quiseram ler o resultado do domingo. Não há uma maioria no país – há duas metades. E não se trata de que uma metade atropele a outra, e sim de que as duas metades busquem a solução e empurrem o país adiante."

AP
Manifestantes segurando cartaz com foto de Henrique Capriles enfrentam tropa de choque da polícia em protesto em Caracas (15/4)

Capriles também rejeitou as ameaças do governo de puni-lo formalmente como responsável pelos atos de violência ocorridos durante a noite da segunda-feira. Disse que, se for punido por convocar um panelaço, "a Venezuela será o primeiro país onde uma pessoa será condenada por convocar a bater nas panelas".

"Se alguém não concorda que isto seja um protsto pacífico, está satanizando (o protesto)", disse Capriles.

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