Brasil é cortejado por chavistas e opositores na Venezuela

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Diplomatas analisam relações entre os dois países às vésperas da eleição do presidente que vai suceder Hugo Chávez

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The New York Times
Nicolás Maduro, homem escolhido por Chávez como seu sucessor, faz campanha eleitoral em Maracay, Venezuela (05/04)

Quando o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva apareceu em um vídeo recente apoiando o candidato chavista nas eleições venezuelanas, foi acusado de ingerência na política do país vizinho – repetindo episódio semelhelhante ocorrido dez anos atrás.

No fim de 2002, o petista eleito mas ainda não empossado presidente do Brasil pediu a seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que enviasse de emergência para a Venezuela um navio carregado de gasolina. O objetivo era evitar o colapso da economia do país caribenho.

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A Venezuela vivia então um dos mais difíceis impasses políticos da sua história recente. O país estava imerso em uma greve petroleira, organizada pela oposição e complementada, hoje se sabe, com episódios de sabotagem contra a estatal PDVSA.

O 'paro' durou quase dois meses. Nesse ínterim, reduziu a menos de um décimo a produção de petróleo do país, causou uma desvalorização da moeda venezuelana e comprometeu todo o resultado econômico do ano seguinte.

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Ao garantir a sobrevivência política do 'companheiro' Chávez, Lula, antes mesmo de vestir a faixa presidencial, já colocava o Brasil em uma espécie de "eixo do mal latino-americano" – junto com Cuba e a própria Venezuela chavista – aos olhos da oposição venezuelana.

Avancem-se dez anos e a finais de 2012, em sua campanha para a Presidência contra o então candidato à reeleição Hugo Chávez, o opositor Henrique Capriles Radonski se declara um "admirador" do modelo brasileiro e diz que pretende ser uma espécie de novo Lula em seu país.

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Sinal de um "paradoxo" que coloca o Brasil em posição de exercer sua influência no país vizinho, qualquer que seja o resultado das eleições presidenciais de domingo.

Negócios e ideologias

Nos últimos dez anos, Brasil e Venezuela deram tonalidades políticas a uma relação econômica que já começava a ser aprofundada nos anos de Chávez e FHC.

Mas foi sob Lula que as exportações brasileiras para a Venezuela se multiplicaram, passando de US$ 536 milhões em 1999, quando Chávez assumiu, para US$ 5 bilhões no ano passado.

Vistas com bons olhos pelo regime chavista, empreiteiras brasileiras como Camargo Correa, Andrade Gutiérrez, Queiroz Galvão, entre outras, ganharam contratos para megaprojetos públicos no país vizinho. Elas aquinhoaram um portfólio estimado em US$ 20 bilhões pela Câmara de Comércio Venezuela-Brasil (Camven).

Um diplomata brasileiro admite que as coincidências ideológicas entre Chávez e Lula foram cruciais para a integração à medida que cada vez mais o Estado venezuelano passava a ocupar lugar central na vida econômica do país.

Por outro lado, o Brasil nunca se deixou seduzir pelo radicalismo de Chávez. Pelo contrário, impulsionou uma esquerda menos ideológica e menos confrontativa, que serviu de contraponto para o chavismo na região.

Muitos analistas dizem acreditar que a atração da Venezuela para organismos sul-americanos, como a Unasul e o Mercosul, limitou o alcance das iniciativas diplomáticas mais radicais de Chávez.

"O Brasil se tornou um amigo, mas não necessariamente um sócio ideológico", afirma o cientista político Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela (UCV).

Porém, segundo ele, o país manteve uma postura de apoio a Chávez que desagradou a oposição.

"Queríamos ter visto um Brasil mais neutro no que tange à nossa política doméstica. O Brasil é visto pela oposição venezuelana como um país que não manteve o equilíbrio e foi, francamente falando, pró-Chávez."

Paradoxo

Paradoxalmente, o Brasil é visto, inclusive pela oposição venezuelana, "como uma somatória de todas as coisas positivas na política latino-americana". Segundo Romero, o país tem uma economia com preocupações sociais, porém aberta à iniciativa privada. Também é uma nação cuja diplomacia busca o multilateralismo sem beligerância.

A chegada de Dilma Rousseff ao poder – mais pragmática e menos condescendente com o chavismo no seu trato diário – recolocou a relação Brasil-Venezuela em termos menos ideológicos, de acordo com Romero.

Neste sentido, é também interessante notar que Capriles, mesmo quando ataca os parceiros esquerdistas da Venezuela na América do Sul – a Argentina é o melhor exemplo –, normalmente poupa o Brasil de críticas.

Para um diplomata, a relação Brasil-Venezuela já avançou de um estágio "conjuntural", ou seja, passível de ser influenciada pela ideologia dos respectivos governos, para um estágio "estrutural", mais institucionalizada.

Ele se refere à presença econômica do Brasil na Venezuela e a parcerias institucionais, tais como o Mercosul. Romero também cita cooperações no campo da habitação popular e das pesquisas agropecuárias - que se estruturam mais em nível técnico que político.

Cenários

É nesta posição que os diplomatas brasileiros assistem às eleições na Venezuela, que, salvo por uma forte surpresa, devem confirmar o candidato chavista, Nicolás Maduro, na Presidência do país.

Se Maduro vencer, as empresas brasileiras continuarão se beneficiando da proximidade com o governo venezuelano, afirma Romero. Mas ele faz um alerta para o caso de um governo Maduro adotar um radicalismo maior que o de seu antecessor.

"Se Nicolás Maduro se radicalizar, vai haver muitos inconvenientes com o Brasil", diz Romero. "É curioso porque o Brasil vai ser mais importante quanto mais isolada estiver a Venezuela. Mas também vai haver mais diferenças, pelo grau de radicalismo que se está praticando".

Se a oposição ganhar, na sua opinião, a relação com o Brasil poderia ser mais aprofundada, porque o governo tentaria incrementar o comércio para solucionar o desequilíbrio que hoje recebe pouca atenção das autoridades venezuelanas.

De cada cinco dólares que o Brasil recebe por vendas à Venezuela, a Caracas recebe apenas um do Brasil.

Um governo opositor pode também facilitar a entrada no mercado de empresas dos Estados Unidos ou da Europa - hoje não considerados "amigos" do regime chavista.

Porém, isto não parece preocupar nem analistas nem diplomatas – em parte, porque as empresas brasileiras com contratos na Venezuela já são competitivas globalmente, inclusive nos EUA e na Europa.

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