Palestino trocado por Shalit faz greve de fome 'mais longa da história'

Por BBC Brasil |

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ONGs criticam prisão 'arbitrária' de Samer al-Issawi, há 214 dias sem comer, detido por ter violado termo de libertação ao visitar vilarejo vizinho

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O prisioneiro palestino Samer al-Issawi, detido em uma prisão israelense, está sem comer há 214 dias (sete meses e 4 dias) e corre risco de vida, afirmaram seus advogados. O jejum de Issawi já ultrapassou o do conhecido dissidente cubano em 2006, Guillermo Fariñas, que ficou sem se alimentar por sete meses.

O palestino, que havia ganhado liberdade ao ter sido um dos 1 mil prisioneiros trocados pelo soldado israelense Gilad Shalit em outubro de 2011, voltou a ser preso em julho de 2012 sob acusação de ter violado os termos de sua libertação.

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AP
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Issawi foi acusado de ter saído das fronteiras municipais de Jerusalém e de ter se deslocado para o vilarejo de El Ram (que fica a 10 minutos do bairro onde vive, em Jerusalém Oriental). De acordo com a ONG Addameer, que defende os direitos dos prisioneiros palestinos, esta nova detenção de Issawi foi "arbitrária".

"Israel determinou as fronteiras de Jerusalém de maneira arbitrária e construiu a barreira, deixando El Ram fora (do perímetro) da cidade", disse a porta-voz da Addameer, Randa Wahbe, à BBC Brasil.

Poucos dias depois de ser detido novamente, Issawi anunciou o início de uma greve de fome "até a libertação" e vem recebendo desde então apenas soros com glicose e vitaminas. Atualmente, Issawi está pesando cerca de 40 quilos, sofre de sangramentos, tonturas e dores generalizadas, e se locomove com a ajuda de uma cadeira de rodas. "Ele pode morrer a qualquer momento e se isso acontecer haverá uma onda de revolta na Cisjordânia", avaliou Wahbe.

Protesto

A greve de fome de Issawi e de mais três prisioneiros palestinos despertou uma série de manifestações de solidariedade nas maiores cidades da Cisjordânia e teve repercussão fora do país.

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O episódio preocupa a comunidade internacional. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a comissária de relações internacionais da União Europeia, Catherine Ashton e o ex-premiê britânico Tony Blair, pediram a libertação dos prisioneiros em greve de fome.

As ONGs de direitos humanos palestinas, Addameer e Al-Haq, juntamente com a ONG israelense Médicos pelos Direitos Humanos, assinaram um apelo exigindo também a libertação imediata dos quatro presos. "O que tememos é que após tantos dias de greve de fome, os presos sofram o colapso de sistemas vitais ou danos irreparáveis", disse a representante da ONG Médicos pelos Direitos Humanos, Anat Litvin, à BBC Brasil.

De acordo com o porta-voz do Exército israelense, Roni Kaplan, Issawi foi "julgado e condenado a 26 anos de prisão por cometer ataques terroristas contra civis israelenses". "A libertação do prisioneiro, 16 anos antes do fim da pena, na ocasião da troca por Shalit, foi sob condição de que não cometesse crimes que contribuíssem para a instabilidade da região, mas ele violou esses termos", afirmou o porta-voz militar à BBC Brasil.

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Na última terça feira (19), Issawi teve seu pedido de libertação sob fiança negado pela Corte de Jerusalém. Issawi é um dos 14 prisioneiros libertados no chamado "acordo Shalit" que foram detidos novamente.

Decreto 1651

A nova detenção foi possibilitada pela introdução do decreto 1651 na legislação militar, feita de maneira sigilosa em 2009, durante a negociação da libertação dos prisioneiros em troca do soldado israelense capturado pelo Hamas.

O decreto possibilita que o Exército ou os serviços secretos (Shabak) voltem a prender qualquer prisioneiro que for libertado e o mantenham na prisão até a conclusão da pena original, inclusive por contravenções menores e "não ligadas a atividades terroristas" – como infrações de trânsito ou participação de manifestações.

Nesses casos, o preso poderá ser reenviado para a cadeia por dezenas de anos. Já a decisão sobre a pena é tomada por uma comissão composta apenas por oficiais do Exército. Segundo um editorial do jornal Haaretz, trata-se de "detenção draconiana".

"Além de ser cruel, esse método abala a credibilidade de Israel ao assinar acordos e dificultará muito as trocas futuras de prisioneiros", diz o jornal e também afirma que a onda de indignação do público palestino é "justificada".

Outros três prisioneiros palestinos, que se encontram em "prisão administrativa" - Tarek Qa’adan, Jafar Azzidine e Ayman Sharawna – já se encontram em greve de fome há mais de 80 dias. A denominada prisão administrativa é uma sequela do Mandato Britânico que dominou a Palestina até a fundação de Israel, em 1948.

Tal procedimento, que faz parte da legislação militar, permite a prisão de suspeitos de constituir risco à segurança, sem julgamento e sem que os próprios detidos sejam informados do teor das acusações contra eles.

As ONGs de direitos humanos palestinas, Addameer e Al-Haq, juntamente à ONG israelense Médicos pelos Direitos Humanos, assinaram um apelo exigindo a libertação imediata dos quatro presos que se encontram em greve de fome.

"O que tememos é que após tantos dias de greve de fome, os presos sofram o colapso de sistemas vitais ou danos irreparáveis", disse a representante da ONG Médicos pelos Direitos Humanos, Anat Litvin, à BBC Brasil.

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