Itália quer Berlusconi de volta?

Por BBC Brasil |

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Com intensa campanha na TV, ex-premiê envolvido em escândalos sexuais e financeiros sobe nas pesquisas para eleição geral de domingo, lideradas por ex-comunista

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Ele foi forçado a deixar o governo em meio ao acirramento da crise econômica na Itália e acabou no banco dos réus ao ser envolvido em embaraçoso escândalos sexuais e financeiros - mas a multidão que comemorou a renúncia de Sílvio Berlusconi com champanhe e cantando "aleluia" em 2011 pode ter festejado cedo demais.

O ex-premiê não só está de volta à cena política italiana como, segundo o cientista político Giovanni Orsina, professor da Universidade Luiss-Guido Carli, em Roma, subiu nas pesquisas e pode vencer as eleições de domingo - apesar de muitos analistas acreditarem que ele não tem chances de se reeleger.

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Reuters
Berlusconi durante coletiva de imprensa, na região de Milão (foto de arquivo)


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O favorito da disputa é o candidato do Partido Democrático (PD) Pier Luigi Bersani, um ex-comunista de centro-esquerda, que teria de 34% a 38% dos votos. Mas se em dezembro as pesquisas mostravam uma diferença de dez pontos percentuais entre Bersani e Berlusconi, em apenas um mês o ex-premiê conseguiu reduzir tal distância para até quatro pontos - chegando a 30% dos votos, segundo algumas enquetes.

"Ainda não podemos descartar a possibilidade de uma 'vitória surpresa' de Berlusconi", acredita Orsina. "Primeiro, porque há muitos eleitores que se recusam a admitir que votam nele. Segundo, porque no momento quase 30% do eleitorado diz que pretende se abster na votação."

De acordo com Orsina, muitos desses eleitores - hoje indecisos e desencantados com a política - eram eleitores de Berlusconi: "Então não podemos desconsiderar a possibilidade de que se decidam pelo ex-premiê na última hora."

Para Gianfranco Pasquino, cientista político da Universidade de Bolonha, a "surpresa" da eleição poderia ser no sentido contrário. "A centro-esquerda poderia acabar com uma vantagem maior sobre Berlusconi, de 7% ou 8%, porque aqui o contato com os eleitores para as pesquisas de intenção de voto é feito por telefone fixo - e, com isso, os jovens, que não votam no ex-premiê, tendem a ser sub-representados", acredita.

Mas Duncan McDonnell, professor do European University Institute, em Florença, ressalta que, mesmo sem ganhar a eleição, a recente subida de Berlusconi nas pesquisas faz com que sua campanha já possa ser considerada "vitoriosa" em muitos aspectos.

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De um lado, Berlusconi mostrou que "continua a ser uma figura de peso na política italiana". Do outro, ainda que pelas regras eleitorais do país, o partido que consegue mais votos na votação para a Câmara dos Deputados, automaticamente leve 340 das 630 cadeiras da Casa, é possível que Bersani não consiga maioria no Senado. "Berlusconi pode impedir que o PD consiga essa maioria e provavelmente será eleito senador - mas ainda é difícil prever se teria força como um líder de oposição", diz Pasquino.

Pendências

Até algumas semanas atrás, a "queda" de Berlusconi ainda parecia uma realidade incontestável. O ex-premiê ainda está respondendo na Justiça pelas acusações de que teria mantido relações sexuais com a marroquina Karima El-Mahroug quando ela era menor de idade e, nos últimos meses, relatos de suas festas "bunga-bunga" fizeram da política italiana tema de chacota no resto da Europa.

Em 2011, ele perdeu um referendo sobre uma lei que lhe daria anistia contra processos penais e, pouco depois, caiu em meio a acusações de que um manejo inadequado da economia teria permitido que a dívida italiana disparasse - tornado a adoção de medidas de austeridade inevitável, segundo seus críticos.

Em outubro, foi condenado em primeira instância a 4 anos de prisão por fraude fiscal (embora a pena tenha sido reduzida para um ano). O que explica, então, a sua recuperação-relâmpago?

Segundo especialistas, o retorno desse magnata da mídia que dominou a política italiana por 17 anos pode ser atribuído a uma combinação de dois fatores. O primeiro está relacionado à incapacidade dos rivais do ex-premiê de forjarem laços mais sólidos com os eleitores e oferecerem uma alternativa viável para tirar a Itália da crise.

Após a queda de Berlusconi, o tecnocrata centrista Mário Monti assumiu o poder e começou a adotar um pacote de cortes de gastos públicos e aumento de impostos aprovado no final do governo da centro-direita.

Queda de impostos

Ex-comissário europeu, Monti aos poucos passou a ser visto como uma figura muito alinhada aos interesses de Bruxelas e teve de renunciar quando o Partido da Liberdade, de Berlusconi, retirou o apoio a seu governo.

"A centro-esquerda de Bersani diz que as medidas de austeridade de Monti precisam ser complementadas por iniciativas para retomar o crescimento e gerar emprego, mas até agora não conseguiu apresentar um plano convincente para arrebatar os eleitores", diz MacDonnell. "Além disso, entre grupos mais conservadores muitos ainda resistem à ideia de colocar um ex-comunista no poder."

Berlusconi, por sua vez estaria sendo capaz de passar para os eleitores uma mensagem clara e popular sobre o que seu governo representaria para eles: "menos impostos". O ex-premiê tem prometido não só cortar um impopular imposto sobre propriedade introduzido por Monti, mas também devolver para os italianos o dinheiro pago no ano passado.

Ele chegou a enviar cartas para milhares de eleitores garantindo que eles poderão pedir a restituição após sua vença. "A estratégia desatou um amplo questionamento sobre o limite das campanhas - mas o fato é que pode ser eficiente para a conquista de votos entre alguns grupos", acredita Orsina.

Televisão

O segundo fator que explica a volta de Berlusconi é sua habilidade em usar a mídia para promover sua carreira política. Berlusconi tem aparecido constantemente nas suas três emissoras na última semana e também nas TVs estatais. Participa de debates, entrevistas, fala com eleitores e faz discursos.

"Além de ser um magnata da mídia, nos anos em que esteve no poder Berlusconi indicou muitos de seus aliados para cargos de direção nas emissoras estatais - então é natural que enfrente relativamente poucas críticas", acredita McDonnell. "Além do mais, ele é um 'showman', sabe fazer campanha em um país em que 80% da população se informa pela TV, enquanto Bersani é um desastre nas telas."

O perfil dos eleitores de Berlusconi, segundo McDonnell, seria formado por italianos aposentados, profissionais liberais e alguns setores da classe média baixa. "Não se pode dizer que a maioria da população vota em Berlusconi. Sem dúvida há muitos italianos que já estão cansados de seus escândalos, mas pelo sistema eleitoral italiano, não é preciso ter a maioria dos votos para formar governo."

Pasquino concorda: "Se as pesquisas estiverem corretas, a votação no partido de Berlusconi deve cair de 38%, em 2008, para algo entre 20% a 21% - que chegaria a esses 28% ou 30% com o apoio da Liga Norte", ressalta o cientista político.

"Berlusconi representa interesses específicos bastante sólidos - de fazendeiros que não querem seguir a política agrícola europeia, pequenos comerciantes que acham que já pagam muito imposto e eleitores conservadores que tem uma grande rejeição à política de esquerda. Esses eleitores vão votar nele, com ou sem escândalos."

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