Vitória no 1º turno realça carisma e liderança de Correa

Por BBC Brasil |

compartilhe

Tamanho do texto

Para analistas, presidente equatoriano, que ganhou aval popular para governar até 2017, soube ocupar 'vazio político' no país

BBC

Os eleitores do Equador parecem ter dado o seu aval no domingo (17) ao lema de campanha do presidente Rafael Correa, que dizia "Já temos presidente. Já temos Rafael". Correa venceu novamente a votação no primeiro turno, como já havia ocorrido em 2009.

Com ampla vantagem sobre os seus concorrentes, Correa levou 56% dos votos, segundo indicam os resultados preliminares. Trata-se do seu sétimo triunfo nas urnas - três eleições presidenciais e quatro plebiscitos.

Terceiro mandato: Rafael Correa é reeleito presidente do Equador

AP
Presidente do Equador, Rafael Correa, celebra sua eleição em Quito (17/02/2013)

Análise: Reeleição no Equador pode 'favorecer Brasil e Mercosul', dizem especialistas

"Estamos aqui para servi-los. Teremos quatro anos a mais de revolução. Obrigado a todos", disse Correa da varanda do Palácio de Carondelet (sede do governo), no centro da capital, Quito.

Fernando Cordero, presidente da Assembleia Nacional e um dos colaboradores mais próximos do presidente do Equador, apontou, em entrevista à BBC, três razões para o sucesso da popularidade de Correa:

"A primeira é que este governo faz acontecer. E mesmo que às vezes crie polêmica justamente por sua linguagem direta ou irreverente, informa sobre o que faz. Segundo, o planejamento do Estado foi recuperado e os atos do governo se tornaram previsíveis, não são improvisados, não são resultado de pressões de poder. E terceiro, porque evidentemente o que foi prometido na campanha foi cumprido."

Mais distante dos corredores do poder e mais próximo da academia, o analista político e professor da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (FLACSO) no Equador Felipe Burbano também lista três razões para a vitória de Correa.

"Um Estado poderoso, cheio de recursos, que volta à cena social e política para partilhar a riqueza e modernizar o país; uma liderança fortemente personalizada, com elementos carismáticos, que mantém viva a ilusão do câmbio; e uma estratégia populista de legitimação de liderança personalizada que consiste em armar o campo político como uma luta dos cidadãos contra as estruturas do poder."

Vazio político

Cordero e Burbano concordam em um ponto. Ambos destacam a influência do passado no impacto de Correa nas urnas. "Correa apareceu em um momento de vazio político e crise institucional, provocado por longos e cansativos anos de ajustes econômicos infrutíferos. Ele surgiu com uma proposta de refundação do Estado equatoriano, por meio de uma mudança radical", disse Burbano.

Entenda: O que a América Latina espera das eleições no Equador

"No Equador, desde o fim dos anos 70, o retorno à democracia caracterizou-se pela instabilidade, pelos enganos, desilusão após desilusão, não houve lógica e coerência em nenhum governo. Além disso, viemos de um período em que cinco presidentes foram eleitos e quatro foram destituídos, essa instabilidade tornou-se uma constante", acrescentou Cordero.

Mas o sétimo triunfo eleitoral de Correa não pode ser explicado somente pelas variáveis políticas ou feridas do passado, mas também por um contexto econômico favorável ao presidente equatoriano. "Além da capacidade de gestão deste governo, ajudou a situação fiscal sem precedentes, devido aos preços elevados do petróleo", disse à BBC o analista econômico Walter Spurrier.

"Em seus primeiros seis anos de mandato, Correa construiu a maior rede de estradas na história do país, a que muitas pessoas são muito gratas, e expandiu dramaticamente os serviços de saúde para os contemplados pela segurança social. Atualmente, quase 2 milhões de pessoas, de uma população de 15 milhões, ganham o chamado bônus mensal de desenvolvimento humano, de cerca de US$ 50 (R$ 100)."

Campanha: Rafael Correa e mais sete saem candidatos no Equador

Para Spurrier, "muitos veem esse governo como o melhor que o Equador já teve. Um caso à parte são os empresários, que engrossam o coro de descontentamento com as medidas que desencorajam o investimento privado".

Oposição

De acordo com pesquisas de boca de urna, o opositor de Correa, o ex-banqueiro Guillermo Lasso, angariou 24% dos votos no pleito, tornando-se o símbolo da oposição no país para os próximos quatro anos.

Durante a campanha eleitoral, Lasso defendeu um modelo político e econômico baseado na criação de riqueza, no aumento do número de postos de trabalho, no apoio ao capital de risco privado e na democratização.

Dia da eleição: Equatorianos votam para presidente; Correa tenta a reeleição

Em entrevista à BBC antes das eleições, o opositor também criticou o estilo "autoritário" de Correa, por seu confronto com os meios de comunicação privados, a reforma do sistema judicial e pela presença quase onipresente em quase todas as áreas da vida pública. "No Equador, há um cenário assustador. As pessoas temem represálias pelas críticas que fazem", disse na ocasião.

Novo mandato

Longe das críticas dos adversários, o presidente reeleito do Equador agora se prepara para governar até 2017, o que marcará uma década de administração Correa à frente do pequeno país sul-americano. Segundo Burbano, da FLACSO, os desafios do governo serão "sustentar a economia com o altíssimo gasto público, trazer transparência à gestão, o que significa lutar contra a corrupção dentro do governo e administrar as múltiplas investidas da oposição, e manter a estabilidade do país".

O analista político acrescenta que, fortalecido, Correa tende a "tomar atitudes mais autoritárias e intolerantes contra adversários". Para ele, a oposição, por outro lado enfraquecida, precisará buscar apoio em torno de partidos e movimentos jovens.

Já na área econômica, Spurrier destaca que a principal tarefa do governo será "reduzir os desequilíbrios macroeconômicos por meio do aumento da carga tributária sobre a classe média a fim de diminuir a tendência consumista da população".

Leia tudo sobre: correaeleição no equadorequador

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas