O Saara pode se tornar um novo Afeganistão?

Por BBC Brasil |

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Analistas dizem que militância na região subsaariana está ligada a dinâmicas locais e seria erro ver ação conjunta dos diversos grupos africanos

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O ousado ataque a uma refinaria de gás no deserto da Argélia no mês passado e a campanha liderada pela França contra militantes islâmicos no norte do Mali desencadearam alertas no Ocidente sobre um novo fronte na campanha para combater o extremismo islâmico. Segundo analistas, porém, há um risco de se exagerar nessa possível ameaça.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, falou sobre a necessidade de se evitar que o norte do Mali se torne um "porto seguro" do qual militantes pudessem lançar eventuais ataques contra os Estados Unidos.

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AP
Moradores lotam uma caminhonete com produtos ao chegar na fronteira do Níger ao sul de Timbuktu, Mali


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O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que esta "ameaça global" exige uma resposta que levaria "anos, talvez até décadas". "Assim como tivemos de enfrentar isso no Paquistão e no Afeganistão, o mundo precisa se unir para combater esta ameaça no Norte da África", disse Cameron.

Mas a militância no Saara e no Sahel - como é conhecido o corredor quase ininterrupto entre o sul do Saara e as terras férteis mais ao sul, que se estende desde o Senegal, na costa oeste, até a Etiópia no leste -, está ligada a dinâmicas locais, e seria um erro pensar que todos os inúmeros grupos armados da região estão sempre agindo de forma conjunta.

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Segundo analistas, o único paralelo claro com a região de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, onde o Taleban floresceu, é a ausência de governos centrais, que são incapazes de ou relutantes em conter o extremismo.

Este é um problema antigo no norte do Mali que emergiu mais recentemente nos países do norte da África testemunhas dos levantes da Primavera Árabe, incluindo a Líbia e a Tunísia, permitindo que grupos militantes ganhassem terreno.

Para William Lawrence, diretor da região do norte da África do International Crisis Group, no momento, o que se vê não é tanto um aumento da força desses grupos, mas sim das novas áreas nas quais podem operar, devido ao enfraquecimento dos Estados. "Esta é a principal mudança nos últimos dois anos."

Sequestros

O mais proeminente grupo militante no norte da África é a Al-Qaeda no Magreb Islâmico, formada por remanescentes da insurgência islâmica na Argélia. Seus líderes se aliaram cada vez mais com a jihad (guerra santa) internacional, adotando o nome Al-Qaeda em 2007.

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No deserto nos últimos dez anos, eles ganharam fama – e dezenas, se não centenas, de milhões de dólares em pagamentos de resgates – com o sequestro de estrangeiros.

Robert Fowler, um ex-diplomata da ONU canadense que foi sequestrado no Níger em 2008, descreveu o profissionalismo e o aparente fervor religioso de seus captores. "Cada ato seu era considerado e precisava ser justificado nos termos do caminho escolhido por eles para a jihad", ele escreveu em seu livro, A Season in Hell (Uma Temporada no Inferno, em tradução livre).

Os sequestradores eram comandados por Mokhtar Belmokhtar, que mais recentemente formou um grupo dissidente da Al-Qaeda no Magreb Islâmico, conhecido como Batalhão Assinado com Sangue, considerado o responsável pelo ataque na refinaria de In Amenas, na Argélia, em janeiro.

Dois outros grupos, o Ansar Dine – dominado por rebeldes tuaregues – e o Movimento pela Unidade e a Jihad na África Ocidental (Mujao), assumiram o controle das principais cidades no norte do Mali após um golpe na capital, Bamako, em março passado.

Eles destruíram santuários sagrados para os muçulmanos sufis e aplicaram uma versão radical da sharia, cortando as mãos de ladrões, autorizando o apedrejamento de adúlteros e obrigando as mulheres a usar véus.

A agência de notícias Associated Press revelou em dezembro que eles haviam estabelecido bases no deserto ao norte de Kidal, usando maquinário pesado para cavar uma rede de túneis, trincheiras e muralhas.

Mobilidade social

Para muitos observadores, porém, o comportamento dos militantes na região é motivado mais por oportunismo do que por qualquer adesão de longo prazo a uma ideologia rígida. No norte do Mali, eles exploraram décadas de história de separatismo, conflito armado, islamismo e tráfico ilegal.

Bens contrabandeados pelas porosas fronteiras do Sahel incluem de tudo, desde alimentos a gasolina, cigarros e cocaína. Autoridades locais muitas vezes estão envolvidas nesse comércio e muitos moradores da região reclamam de exclusão econômica e política.

"Os elementos-chave foram desenvolvimento, pobreza, caos institucional, um vácuo de poder sobre esta vasta área, fronteiras artificiais, tensões étnicas", diz o analista político Imad Mesdoua, da Pasco Risk Management. "Os problemas estruturais pós-coloniais desses países ainda precisam ser resolvidos."

A antropóloga social Judith Scheele, da All Souls College, da Universidade de Oxford, que passou algum tempo no norte do Mali, diz que ganhar acesso a armas e aumentar o status social também são possíveis incentivos para novos recrutas.

A vida social no norte do Mali é amplamente estruturada em hierarquias de acordo com a linhagem. Algumas pessoas que historicamente têm um baixo status recentemente ficaram ricas por meio de contrabando e comércio, e como as práticas religiosas também são um indicador importante, essas pessoas talvez tenham ingressado em grupos extremistas para elevar seu status. "Esta é uma área na qual estar conectado a qualquer família ou movimento religioso é uma maneira de mobilidade social", diz Scheele.

Profecia

Essas lealdades podem ser confirmadas com o casamento, como no caso dos militantes argelinos que se estabeleceram no norte do Mali e se casaram com mulheres locais. Mas também podem mudar ou ser combinadas com outras lealdades.

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O mesmo serve para grupos armados, que têm um histórico de mudança de objetivos, divisões e competição – às vezes incentivados por serviços de inteligência locais.

Os militantes islâmicos formaram uma ampla coalizão no norte do Mali, mas somente após terem se aliado com – e, depois, se voltado contra – os separatistas tuaregues do Movimento Nacional de Libertação do Azawad.

O Ansar Dine é liderado pelo ex-líder rebelde tuaregue Iyad Ag Ghaly, conhecido por conseguir posições de influência. Pouco após a invasão das forças francesas no mês passado, uma facção chamada Movimento Islâmico Azawad disse que estava se separando do grupo Ansar Dine, e que passava a rejeitar "todas as formas de extremismo e terrorismo".

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O ataque do In Amenas foi amplamente visto como uma tentativa do grupo Batalhão Assinado com Sangue para deixar sua marca na Argélia, onde os militantes islâmicos há muito tempo tem dado dores de cabeça às forças de segurança.

Atmane Tazaghart, autor de um livro sobre a Al-Qaeda na região do Magreb (AQIM), diz que estima-se entre 1,2 mil a 1,5 mil o número de ativistas islâmicos atualmente em atividade no Sahel. Mas ele acrescenta que é "difícil distinguir entre o banditismo e a atividade jihadista nesta região".

Em vista deste panorama de identidades mescladas e motivos complexos, William Lawrence, do International Crisis Group, fez alertas contrários a uma intervenção indiscriminada e com uso excessivo de força para tentar conter a suposta ameaça islâmica, que pode ter ganhado impulso ao se pensar sobre o Sahel como um "novo Afeganistão".

"O único risco em termos de comparação é o de uma profecia autossuficiente. As táticas e os métodos aplicados no Afeganistão e no Paquistão, se empregados nesta região, poderiam levar a ressentimentos e uma maior radicalização".

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