Brasileira teme voltar para casa abandonada após ação rebelde no Mali

Por BBC Brasil |

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Há cerca de dez meses, missionária e técnica de enfermagem e marido partiram para capital pouco antes de militantes islâmicos entrarem em cidade onde viviam havia seis anos

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Há cerca de dez meses, a missionária e técnica de enfermagem brasileira Francisca Oliveira e o marido, Sérgio, deixaram a casa em que moravam no interior do Mali com o objetivo de buscar colegas que chegavam à capital, Bamako, para uma visita. O casal morava havia seis anos nessa cidade no Estado de Mopti, colaborando em projetos sociais na área de saúde e agricultura.

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Arquivo pessoal
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"Foi a nossa sorte, porque pouco depois que saímos os rebeldes entraram na cidade. Eles metralharam a central de energia do centro de comunicações e roubaram muitos estabelecimentos comerciais, a única ambulância do hospital local e uma viatura da polícia", contou Francisca à BBC Brasil. "Éramos os únicos estrangeiros da cidade, então se tivéssemos ficado certamente seríamos um alvo preferencial", completa, pedindo para o nome da cidade não ser publicado.

Em sua visita à capital, o casal de brasileiros levava uma mala com roupas para uma semana. E desde esse dia, Francisca e Sérgio não conseguiram voltar para casa. "Seria muito arriscado voltar porque desde então os rebeldes costumam aparecer na região. Essa foi a primeira casa em que moramos depois de casar e deixamos tudo lá", lamenta a brasileira, que também teve que abandonar o trabalho que fazia como técnica de enfermagem.

Francisca conseguiu falar com amigos e vizinhos para saber notícias da cidade, apesar de a comunicação ser difícil. "Esse é um lugar bastante isolado, não tem nem energia elétrica. As pessoas precisam subir no telhado das casas para conseguir sinal de telefone", conta.

Ela se diz animada com o avanço das tropas da França no Norte do Mali - autoridades francesas dizem que já estão consolidando o controle sobre Timbuktu -, mas não esconde uma dose de ceticismo.

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"Esperamos que possamos voltar para casa em breve, mas também achamos que, tal como os franceses estão anunciando, o conflito parece estar fácil demais para eles. Precisamos esperar para ter certeza de que não há risco de voltar."

Conflito

Milícias de extremistas islâmicos, como o Ansar Dine, o Movimento de Unidade e a Jihad da África Ocidental, aproveitaram-se de um golpe de Estado feito por militares em março de 2012 para tomar a maioria das cidades no norte do Mali. Foi nessa ocasião que o casal Oliveira teve de deixar sua casa.

Há algumas semanas, porém, esses grupos islâmicos iniciaram uma ofensiva em direção ao sul do país e chegaram a tomar o controle da cidade estratégica de Konna, na fronteira entre o norte e o sul, que fica relativamente próxima à pequena localidade em que os missionários brasileiros moravam.

A ofensiva motivou a França a lançar uma intervenção militar no Mali, sua ex-colônia, amparando-se em um pedido do governo malinês e em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada em dezembro (que previa o uso de forças estrangeiras para frear o avanço rebelde).

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A intervenção francesa reacendeu a esperança dos missionários brasileiros - e milhares de malineses que também fugiram do Norte do país - de em breve voltar para casa. Mas até agora a violência não retrocedeu.

Aeronaves francesas têm bombardeado cidades do norte, e os conflitos terrestres ainda são intensos. A capital está relativamente tranquila, mas há muita apreensão sobre o risco de possíveis atentados de extremistas, principalmente em locais frequentados por estrangeiros.

O embaixador do Brasil no Mali, Jorge José Frantz Ramos, diz que a situação é muito menos complicada do que durante o golpe de Estado, quando houve tiroteios e manifestações nas ruas. Mas os brasileiros foram instruídos a evitar sair à noite ou ir a locais onde há muitos estrangeiros. 

Brasileiros no Mali

Reprodução
Brasileiro Sérgio Oliveira colabora em projetos na área de agricultura no Mali

Segundo informações de missionários, haveria hoje no Mali dez brasileiros ligados a missões religiosas, principalmente evangélicas, e atuando em projetos sociais no país. Eles formam a maior comunidade brasileira do país. "Não queremos impor nossa religião, mas trabalhamos para ajudar a comunidade, por isso somos bem recebidos", diz Francisca.

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O embaixador Ramos confirma que a comunidade de missionários cristãos é bem vista pelos habitantes do país, de maioria muçulmana. "É óbvio que não seria prudente fazer proselitismo religioso em um momento desses, mas esses brasileiros nunca fizeram isso. Seu foco são os projetos sociais, por isso seu trabalho é muito apreciado e respeitado localmente", disse à BBC Brasil.

Dois brasileiros seriam menores de idade, filhos do casal de missionários Aldenice e Iedo Marques, que fazem serviços de apoio a uma espécie de orfanato (casa lar) na capital. Na embaixada brasileira, hoje há três diplomatas e um integrante da Embrapa. E alguns desses funcionários estariam no país acompanhados de familiares.

Além disso, o missionário boliviano-brasileiro Herbert Aranibar disse também ter conhecimento de mais um brasileiro que estaria no Mali trabalhando no ramo de mineração. Aparentemente, todos os brasileiros estão em Bamako, onde não há conflitos.

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Os missionários querem ficar para retomar o trabalho que faziam com as comunidades do Mali, mas, por precaução, já estão com os papéis e as malas prontas para o caso de o conflito chegar à capital.

Francisca e Sérgio hoje dividem um apartamento com outras duas missionárias brasileiras. "Nosso Plano A é voltar para nossa casa no interior do Mali e levar adiante um projeto na área de agricultura. Já até havíamos conseguido um trator para ajudar os produtores locais", afirma Francisca.

"O Plano B é ir para Burkina Faso, onde poderíamos trabalhar em outra missão. Mas estaríamos deixando tudo que construímos nos últimos seis anos para trás."

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