'Ninguém deveria ter de passar por isso por um emprego', diz ex-refém na Argélia

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Britânicos que sobreviveram a ataque terrorista de islâmicos em campo de gás no Saara relatam drama; escondido, um deles disse que conseguiu dormir a maior parte do tempo

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Dezenas de funcionários estrangeiros trabalhavam na refinaria alvo de uma ofensiva de militantes islâmicos na Argélia que, no sábado, foi invadida por forças de segurança argelina.

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Imagem de uma TV argelina mostra supostos reféns sendo rendidos por combatentes islâmicos.na quarta-feira

Segundo o premiê argelino, Abdelmalek Sellal, ao menos 37 reféns estrangeiros de oito nacionalidades foram mortos no episódio. Os sobreviventes britânicos relataram à BBC e a emissoras inglesas momentos de tensão, de temor pelos amigos deixados para trás e, em alguns casos, de gratidão aos argelinos que ajudaram na fuga.

"Você pensa no pior; não dá para colocar em palavras o quão mal você se sente. É algo que espero nunca vivenciar novamente", explicou um dos sobreviventes.

Confira a seguir os relatos de alguns deles:

Allen McCloud, 53: McCloud regressou à sua casa em Plymouth, mas seus familiares dizem que, ainda que ele esteja feliz por ter sobrevivido, "perdeu alguns bons amigos lá (na refinaria argelina)".

"Foram quatro dias estressantes para toda a família", disse à BBC seu irmão Malcolm, criticando as autoridades argelinas, a petroleira BP e a empresa de recrutamento Orion por não informarem os parentes de Allen sobre seu paradeiro. "Nos mantínhamos a par (dos desdobramentos na refinaria) por meio dos amigos que trabalham na indústria de petróleo e gás e pela imprensa."

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Tony Grisedale, 60: Grisedale disse à emissora britânica ITV que, ao ouvir o alarme de emergência da refinaria, escondeu-se por dois dias, sem alimentos, até ser libertado pelas forças de segurança da Argélia. "Fui ao alojamento, tranquei a porta, abaixei as persianas, desliguei as luzes e fiquei quieto", contou. "Tinha cerca de 7 litros de água. Fiquei sem comida por dois dias, sem telecomunicações, eletricidade, água corrente. Então apenas fiquei parado e relaxei. Passei a maior parte do tempo dormindo."

Seu consolo foi escutar músicas em seu telefone. Mas diz ter ouvido muitos tiros, "então nem coloquei minha cabeça para fora (do alojamento)". No momento em que foi libertado, "simplesmente peguei minha mala com meu passaporte e deixei o resto para trás. Fui levado pelo que pareciam ser forças especiais. Eles estavam muito ressabiados, porque não sabiam se havia terroristas por perto".

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'Você pensa no pior. É algo que espero nunca vivenciar novamente', disse Alan Wright, britânico que foi mantido como refém em ataque de islâmicos na Argélia

Alan Wright, 37: Wright não se surpreendeu quando a energia caiu na refinaria, já que isso acontecia com frequência. Só quando ouviu uma série de disparos é que ele e seus colegas decidiram se esconder em um escritório. Pegaram um telefone via satélite, trancaram a porta e cobriram as janelas com papel, para que ninguém pudesse observá-los.

Eles ouviram um dos militantes tentar identificar os estrangeiros ao falar "bom dia" em árabe. "Foi nesse momento que percebemos que estávamos em apuros", disse Wright. Pelas nove horas seguintes, o grupo se manteve escondido, sem saber o que acontecia e temendo que os argelinos do grupo decidissem abandoná-los e inadvertidamente denunciar onde estavam escondidos.

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Wright conta que conseguiu telefonar para sua família, mas falou apenas com sua mulher - não quis falar com as filhas, temendo que sua última conversa com elas fosse em uma ligação ruim. Na manhã seguinte, apesar do medo, Wright embarcou num plano de fuga elaborado pelos argelinos.

Ele usou um chapéu "para parecer menos com um expatriado", e o grupo cortou o arame que cercava a refinaria. "Avançamos um quilômetro no deserto e vimos um posto militar, com oito ou nove soldados com armas em punho. Daí você pensa: 'São policiais ou são os terroristas?' Estávamos ajoelhados e com as mãos ao alto."

Na hora em que o grupo foi dividido entre argelinos e estrangeiros, Wright achou que tivesse caído nas mãos de extremistas. "Você pensa no pior; não dá para colocar em palavras o quão mal você se sente. É algo que espero nunca vivenciar novamente."

Mas ele estava sob a guarda de policiais. Nesse momento, agradeceu a coragem de seus colegas argelinos em aceitar fugir ao lado de estrangeiros. "Eles tiveram a chance de se render (aos militantes islâmicos na refinaria) e ficar em segurança, mas decidiram nos ajudar a escapar. Tenho uma dívida com eles para o resto da vida."

Stephen McFaul, 36: McFaul, que viajou para a Argélia com seu passaporte irlandês, escapou dos militantes islâmicos no segundo dia da ofensiva contra a refinaria. Segundo relatos, ele - que chegou a ficar com explosivos ao redor de seu pescoço - estava em um comboio comandado pelos extremistas que tentavam deixar a refinaria, quando helicópteros do Exército argelino dispararam contra os carros.

O veículo que levava McFaul bateu, e ele conseguiu escapar. Voltou ao Reino Unido e reencontrou sua família na noite de domingo.

Darren Matthews, 29: "Estou aliviado em rever meus amigos e minha família", disse Matthews à TV argelina. "Me sinto seguro no momento, mas só me sentirei bem ao voltar para casa, à minha família."

Matthews, que foi libertado antes do fim da crise na refinaria, disse na época que aguardava a libertação de seus colegas que trabalhavam no local. "No final das contas, é apenas um emprego. Ninguém deveria ter de passar por uma situação dessas por causa de um emprego."

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