Por que a Argélia descartou ajuda externa em crise de reféns?

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Atitude do governo argelino condiz com sua postura histórica de inflexibilidade contra o terrorismo

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Foto de 19/04/2005 mostra campo de gás de Ain Amenas na Argélia, onde militantes islâmicos fizeram reféns em 16 de janeiro de 2013

A intervenção militar da Argélia contra sequestradores em uma refinaria de gás no Saara aparentemente causou surpresa nos governos estrangeiros cujos cidadãos estavam sendo mantidos reféns.

O grupo incluía centenas trabalhadores, sendo mais de 130 estrangeiros, e embora os números ainda permaneçam desencontrados, a operação do Exército da Argélia teria libertado ao menos 650 deles, mas também teria resultado em 12 mortes.

O Japão pediu o fim da ação, convocando o embaixador argelino para manifestar preocupação com as vidas dos reféns e para pedir informações atualizadas sobre a situação.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que estava "decepcionado" por não ter sido comunidado antecipadamente sobre a ação.

Mas enquanto muitos dos detalhes sobre a operação na refinaria In Amenas permanecem nebulosos, a decisão da Argélia de usar força contra os sequestradores e de agir de forma unilateral se encaixa na abordagem profundamente arraigada e inflexível do país contra o terrorismo.

"Eu ficaria surpreso se eles reagissem de outra maneira", diz o analista Jon Marcks, da consultoria Cross-border Information.

"Do ponto de vista da Argélia, o ataque foi uma afronta ao prestígio do Exército do país, que é uma parte muito central do sistema de valores argelino."

Insurgentes
O Exército da Argélia, e o governo que ele apoia, devem muito de sua legitimidade ao fato de terem vencido a batalha militar contra insurgentes islâmicos nos anos 1990, durante um conflito que deixou cerca de 150 mil mortos.

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As autoridades argelinas expressam algum descontentamento por terem sido abandonadas para lutar sozinhas nesse conflito, antes que o resto do mundo fosse confrontado com a ameaça do extremismo islâmico.

Mas elas também se orgulham de sua experiência em contraterrorismo, de sua repressão militar a grupos armados e de sua conhecida relutância em negociar ou pagar resgates.

"Aqueles que pensam que nós vamos negociar com terroristas estão delirando", diz o ministro de Comunicações da Argélia, Mohamed Said Belaid.

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O conflito nos anos 1990 se concentrou no norte da Argélia. Em anos recentes, os grupos armados ficaram mais ativos no vasto deserto do sul do país e nos Estados vizinhos do Sahel.

Eles praticaram sequestros, a maior parte fora da Argélia, mas nunca haviam lançado um ataque de grandes proporções na indústria de petróleo e gás que há muito tempo é a espinha dorsal da ecoomia do país.

Conhecidos
Mas tanto o suposto mentor do ataque de quarta-feira, o militante argelino Mokhtar Belmokhtar, quanto o prospecto de um desfecho dramático para o sequestro são sombriamente familiares às autoridades argelinas.

"Eles cohecem Mokhtar Belmokhtar e sua quadrilha muito bem", diz Marks, referindo-se aos relatos de que os argelinos intervieram quando alguns dos sequestradores e reféns tentaram deixar a refinaria.

O risco, diz o analista, era que levassem os reféns a alguma parte remota do deserto e então negociar resgates ou troca de prisioneiros.

"E eles usaram o mais brusco dos instrumentos, o poder aéreo, para impedir a passagem desses carros", diz.

"A visão predominante entre os governos ocidentais é a de que eles tem uma obrigação de cuidar desses reféns", afirma Marks.

"No entanto, a percepção daqueles que lideraram a operação era a de que era preciso lidar com os terroristas e não permitir que isso acontecesse."

Cameron disse ter ouvido do primeiro-ministro argelino que os militares "julgaram que havia uma ameaça imediata às vidas dos reféns e sentiram a obrigação de responder".

Mas além dessa explicação, os argelino parecem ter feito poucas tentativas iniciais de consultar o governo britânico, muito menos de pedir aconselhamento ou ajuda. Há relatos de que as ofertas britânicas de ajudar os argelinos foram rejeitadas.

Soberania
"A Argélia não é um país que se sentiria confortável em depender de forças de segurança estrangeiras para ajudar a libertar os reféns, e isso se deve ao profundo sentimento de que não deve haver presença militar estrangeira no país", diz Robert Parks, diretor do Centro de Estudos Norte-Africanos da Argélia.

"Isso remonta aos antigos princípios de não-intervenção de logo após a independência. Os argelinos são muito sensíveis em relação a questões de soberania nacional. Então estava claro desde o início que isso seria resolvido somente pelos argelinos."

Inicialmente a Argélia se opôs a uma intervenção internacional contra militantes islâmicos no norte do Mali. No entanto, quando a França – antiga potência colonial tanto do Mali quanto da Argélia – interveio, na semana passada, a Argélia concordou em abrir seu espaço aéreo.

Mas um ataque em solo argelino é uma questão diferente. O fato de o alvo do ataque ser uma refinaria de gás operada em parte por empresas estrangeiras pode ter aguçado a determinação das autoridades argelinas de resolver o problema por conta própria.

A ideia de que a elite do país e seus aliados estrangeiros são os principais beneficiários dos lucros de petróleo e gás é uma reclamação comum entre os argelinos.

"É importante (para as autoridades) mostrar ao público interno que realmente controlam suas próprias fontes de hidrocarbonetos, que não são apenas um governo fantoche", diz Parks.

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