Oposição na Venezuela racha após Justiça manter Chávez no poder

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Com perspectiva de eventual nova eleição, moderados aceitam prorrogação de posse de líder, enquanto radicais minoritários acreditam em saídas 'não democráticas', dizem analistas

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A polêmica em torno da decisão da Suprema Corte de considerar constitucional prorrogar indefinidamente a posse do novo mandato do presidente venezuelano, Hugo Chávez - que convalesce em Cuba - colocou em evidência uma antiga fratura na coalizão opositora venezuelana. A corte determinou a "continuidade administrativa" na gestão de Chávez, que não pôde comparecer, por razões de saúde, à posse oficial do novo mandato de seu governo, na quinta.

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AP
Venezuelano segura retrato de presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante missa por sua recuperação em igreja de Havana (12/01)

No sábado: Chávez não está em coma, diz irmão

Com esse parecer, legitimou a continuidade do atual gabinete, incluindo o cargo de vice-presidente e ministros, até que Chávez retorne ao país. O setor opositor considerado "moderado" contestou a decisão do Supremo, mas disse "aceitar" a interpretação da corte Constitucional. Já a ala radical da oposição viu na decisão do Supremo uma possibilidade de se fortalecer.

O grupo é minoritário e, segundo o analista político Leopoldo Puchi, vinculado à oposição, acredita em saídas "não democráticas" para chegar ao poder. Para Puchi, a ala radical continua "sonhando" com saídas semelhantes à Primavera Árabe (onda de protestos populares em países do Oriente Médio e norte da África que resultou na derrubada de vários governos autocráticos).

A seu ver, esse grupo tem recebido importante apoio dos meios de comunicação privados para promover protestos. Na avaliação de analistas ouvidos pela BBC Brasil, a divisão em duas frentes opositoras nunca deixou de existir, porém voltou a acentuar-se depois da derrota do ex-candidato presidencial Henrique Capriles, em outubro.

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A segmentação se agravou com o fraco desempenho da oposição nas eleições regionais de dezembro, quando o antichavismo conquistou apenas três governos dos 23 Estados do país. "A partir desse momento surgem dois grupos, uma oposição leal às regras do jogo e ao sistema democrático e outra desleal a essas regras", afirmou o analista político Farith Fraija.

Pragmatismo

O setor "moderado" da coalizão opositora optou por um "respeito pragmático" da decisão do Supremo, de olho na disputa eleitoral pela presidência que pode ocorrer em curto ou médio prazo caso Chávez seja afastado definitivamente da vida política.

O governador Capriles tem sido o mais cauteloso dos dirigentes políticos opositores. Caso Chávez não possa retornar à presidência e sejam convocadas novas eleições, ele aparece como o candidato opositor capaz de desafiar o vice-presidente Nicolás Maduro, herdeiro político de Chávez.

Ao comentar a decisão do Supremo, Capriles disse não estar de acordo com o parecer, mas afirmou que o "aceitaria". "Não estamos aqui para convocar enfrentamentos e colocar os venezuelanos para brigar uns com outros", disse. "A luta para 10 de janeiro (data prevista para a posse) era para que se respeitasse a Constituição, não para mudar o governo", disse. "O presidente é Hugo Chávez", afirmou.

Capriles estaria num setor intermediário entre as duas alas da oposição, na opinião de Fraija. "A atuação de Capriles obedece a uma avaliação pragmática do momento eleitoral e da realidade política e flutua de um lado a outro, dependendo da circunstância", afirmou.

Para Capriles e para a ala "moderada" da oposição - que têm aspirações eleitorais -, não interessa voltar a incentivar a polarização com protestos nas ruas, ao menos publicamente. Ao fazê-lo, na avaliação de Puchi, correm o risco de cimentar a rejeição do "chavismo light" - público alvo da oposição para poder sonhar com a cadeira presidencial.

"Não convém à oposição parecer apressada enquanto o presidente está convalescente, porque pode ferir sensibilidades dos segmentos que ela pretende conquistar e até mesmo de seus próprios eleitores", afirmou.

Saiba mais: Entenda o que Constituição venezuelana diz sobre a posse do presidente

A oposição defendia, sob a interpretação do artigo 231 da Constituição, que o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, o número três do núcleo duro do governo, assumisse interinamente a presidência por até 180 dias ao ser declarada a "ausência temporária" de Chávez.

A ala "radical" da oposição, no entanto, não acatou o parecer da Justiça e tem convocado protestos de rua contra a continuidade do governo. Liderados pela deputada opositora Maria Corina Machado e pelo dirigente Leopoldo López, do partido Voluntad Popular, os "radicais" não reconhecem o atual governo - em curso desde o último dia 10 - e afirmam que Maduro e os demais ministros estão "usurpando uma autoridade que não lhes corresponde", segundo Machado.

"Nos encontramos na terrível situação de reconhecer e assumir que na Venezuela não há governo. O governo está em Cuba e de lá decidem o que fazer com o nosso país", afirmou Machado, no sábado, diante de uma manifestação convocada pelo grupo opositor. Ali, um grupo de manifestantes levava cartazes com as frases "Fora (Fidel) Castro" e "Maduro ilegal".

Cronologia: Chávez e sua luta contra o câncer

Reuters
Henrique Capriles, opositor da Venezuela, segura Constituição do país durante coletiva em Caracas (08/01)

Grupos armados

No interior do país, os protestos subiram de tom. Sedes de instituições públicas no Estado de Táchira foram atacadas por grupos armados no sábado. O governo local responsabilizou estudantes vinculados à oposição pela agressão. No mesmo dia, um vídeo governamental transmitido em cadeia nacional de rádio e TV condenou a agressão e vinculou Machado e López aos protestos.

No vídeo, o governo retransmitiu a advertência feita pelo vice Maduro dias antes, que antecipara reações violentas à decisão do TSJ. "Aqueles da extrema direita que queiram marchar, gritar consignas, podem fazê-lo no marco da lei. Essa oposição que sempre cai na tentação golpista nós chamamos à reflexão", disse Maduro na quinta durante uma manifestação pró-Chávez.

Quinta: Dezenas de milhares marcam posse simbólica de Chávez nas ruas de Caracas

A divisão opositora preocupa seus observadores. Somente unido, consideram os especialistas, o antichavismo pode criar condições para enfrentar um candidato governista em eventuais eleições presidenciais. Há um mês, desde que foi submetido à quarta cirurgia para combater um câncer, Chavez não é visto ou ouvido em público. De acordo com o governo, ele sofre de uma "severa" infecção pulmonar.

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