Ex-combatentes líbios com psicose e depressão não conseguem tratamento

Faltam psiquiatras em Misrata, palco dos combates mais violentos da guerra, para lidar com grande número de jovens com estresse pós-traumático

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A cidade líbia de Misrata, palco dos conflitos mais sangrentos durante a revolução que culminou com a morte de Muamar Kadafi no ano passado, não está dando conta de atender e tratar os vários ex-combatentes que sofrem distúrbios psiquiátricos por causa de traumas deixados pelo conflito.

A batalha de Misrata ficou conhecida como o "Stalingrado da Líbia", em alusão à batalha de Stalingrado, na Rússia, uma das mais sangrentas da Segunda Guerra e da história. Nos três meses de combates na cidade, cerca de 2 mil moradores morreram e 14 mil ficaram feridos.

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Rebelde é levado ao hospital em Misrata após bombardeios que atingiram a cidade (2011)


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Finda a revolução, muitos homens estão tendo dificuldade para lidar com transtornos psicológicos e médicos dizem que há uma desesperadora carência de profissionais qualificados ligados à saúde mental para tratá-los.

A doença mental ainda é um tabu na maior parte do mundo árabe e, na cidade conservadora de Misrata, os jovens têm dificuldade em encontrar ajuda nesta área. Um grande número de jovens vem sofrendo de problemas como psicose, depressão aguda e estresse pós-traumático.

Alguns jovens que viveram o conflito compartilham um profundo sentimento de depressão e desilusão, com a falta de mudança que vivem na Líbia pós-Kadafi.

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Há mais de um ano, o médico Khaled al-Madani, chefe do departamento de Psicologia da Universidade de Misrata, vem tentando criar serviços adequados de saúde mental. Ele diz que, atualmente, há somente um psiquiatra disponível em Trípoli, em tempo parcial, capaz de atender em Misrata.

Estresse pós-traumático

Uma pesquisa recente realizada por al Madani com 200 pessoas que perderam suas casas no conflito mostra que 17% delas estão sofrendo de estresse pós-traumático. "Este é um conceito novo na Líbia, mas, no momento, temos um elevado número de pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático", diz.

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Um ex-combatente foi até o Wazrak Al Medical Centre, em Misrata, para uma consulta com o Isa Asalini, o único psiquiatra, que acabou de chegar de Trípoli. Ahmed (nome fictício), que antes da revolução estudava Direito e trabalhava meio expediente, agora sofre de depressão aguda.

Essa foi a primeira vez em que ele foi procurar a ajuda de um especialista. Segundo o médico, ele está apático e seus olhos transmitem um desespero esmagador. "Eu perdi muitos amigos durante o conflito. Muitos morreram, foram amputados ou ficaram cegos", contou o rapaz.

Em pouco tempo de conversa, Ahmed mostra profunda desilusão sobre a revolução e suas conquistas. "Em geral, me sinto sempre triste e tenho dificuldade para dormir. Não é como antes. Me sinto isolado da comunidade", disse o rapaz.

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"Tenho a impressão de que as pessoas que morreram no conflito morreram por nada. Com certeza, de acordo com a nossa religião, elas são mártires. No entanto, particularmente, acho que elas morreram por nada e isso me causa depressão. Acho que minha vida era melhor antes da revolução", disse.

Antes da guerra, Ahmed trabalhava com comércio exterior. Hoje, ele diz que não consegue nem mesmo um visto para deixar a Líbia e não vê nenhum futuro. Nos momentos de maior depressão, chegou a pensar em suicídio, o que é ferozmente condenado pelo Islã. "Antes da guerra, eu tinha ambições e agora não as tenho mais. Nada é estável nesse país. Sinto que o país ainda vai demorar muito para se estabilizar e já pensei em me matar para me livrar desse sentimento", contou.

Uma revolução como a de Misrata, que desenvolveu um poderoso culto ao heroísmo e à vitimização, depois das brutalidades vividas, pode trazer perigos para a nova Líbia. "É claro que, no momento, não há liberdade de expressão. Eu sou de Misrata, assim como meu pai e meu avô, mas não posso criticar a revolução nem mesmo nas redes sociais", disse o rapaz.

"A pergunta que sempre vem à minha cabeça é: o que nós ganhamos com isso? Não ganhamos nada, mas não posso dizer isso em público, porque alguns grupos podem prejudicar a mim ou a minha família ou até mesmo me prender".

Jovens

De acordo com o Al-Madani, os jovens representam o maior grupo com transtornos mentais. No entanto, algumas mulheres também foram procurar ajuda pelos mesmos problemas. Uma de suas pacientes sofre de flashbacks repetidos, em que acha que será morta ou estuprada. "Ela já tentou se matar três vezes", disse o médico.

Segundo moradores da cidade, soldados pró-Kadafi da cidade vizinha de Tawergha estupraram mulheres e cometeram outras atrocidades, como a castração de homens, durante os combates.

Os moradores de Tawergha não foram autorizados a voltar para sua cidade após o conflito e agora estão espalhados em acampamentos improvisados por todo o país. Eles negam as acusações e dizem estar sendo punidos pelos crimes de uma minoria. 

"A guerra pode ter acabado, mas casos como o de Ahmed são muito comuns em Misrata", disse o médico. "Eles estão decepcionados e precisam de médicos para ajudá-los, mas nós não temos. Eles achavam que, mudando o regime de Khadafi, tudo ficaria bem."

Depois de quase dois anos de começar a lutar no conflito, Ahmed inicia agora uma nova e longa luta para curar sua depressão. "Eu lutei muito na revolução. Perdi meu emprego, meus amigos e agora não me resta nada. Meus sonhos estão completamente quebrados."

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