Filha de argentina sequestrada usa internet em busca por mãe

Adolescente de 14 anos convoca pelo Twitter manifestações após Justiça absolver integrantes de rede de exploração sexual acusados pelo sequestro de sua mãe

BBC Brasil |

BBC

A luta da ex-funcionária pública argentina Susana Trimarco para encontrar sua filha, que a levou a se vestir de cafetina para procurá-la em prostíbulos, passou a contar com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco.

Mobilização: Em busca da filha, mãe ajuda outras mulheres e vira tema de novela

Arquivo pessoal
Marita desapareceu quando Micaela tinha apenas três anos. Decisão judicial causou comoção

A adolescente, que tinha 3 anos quando sua mãe foi sequestrada, usa redes sociais na incessante busca por María de los Ángeles, conhecida como Marita Verón.

Um dia após a polêmica decisão da Justiça de absolver integrantes de uma rede de exploração sexual acusados pelo sequestro, Micaela convocou uma manifestação em tribunais de todo o país por meio de sua recém-criada conta no Twitter, @JusticiaPorMarita.

Em entrevista à BBC Brasil, sua avó, Susana, conhecida na Argentina como "Mãe Coragem", disse que vai lutar pela intervenção federal na Justiça de Tucumán, após a absolvição dos acusados do sequestro, que causou indignação no país.

Marita Verón foi sequestrada na rua em abril de 2002. Desde então, Micaela é educada pela avó e pelo pai, David Catalán, em San Miguel de Tucumán, na Província de Tucumán, onde Marita desapareceu.

"Micaela acaba de completar 14 anos e já assumiu o compromisso militante contra a exploração sexual. Organiza campanhas e é muito ativa. Dizem que tem personalidade parecida com a minha", disse Susana à BBC Brasil.

Na hora do protesto convocado pelo Twitter, Micaela escreveu com spray na calçada, em frente ao fórum de Tucumán: "No a la trata" (Não à exploração sexual, em português). A manifestação se repetiu em outras cidades do país, inclusive na capital, Buenos Aires. A expectativa é de que outros 12 acusados sejam julgados em 2013.

Campanha

Em outubro, Micaela gravou um vídeo para incentivar denúncias contra a exploração sexual, que ganhou apoio de artistas locais como o cantor Fito Paez. A campanha foi realizada pela Fundação María de los Ángeles, criada por Susana e onde Micaela costuma ajudar a avó.

Arquivo pessoal
Susana Trimarco fotografa segurando retrato de sua filha Marita Verón, sequestrada na Argentina em 2002

"Micaela me ajuda e acredito que continuará a batalha que iniciei pela mãe e por outras mulheres", disse Susana em março à BBC Brasil.

Nesta quinta-feira, ela respondeu à nova entrevista. Dessa vez por escrito já que, segundo sua assessoria, amanheceu sem voz. Na véspera, havia realizado uma maratona de entrevistas, falado com a presidente Cristina Kirchner e com outros políticos em meio à "indignação", como disse a presidenta, pela decisão da Justiça.

Em julgamento na terça-feira, os juízes de Tucumán argumentaram "falta de provas" para incriminar os 13 acusados de terem sequestrado Marita. Susana disse que, além de apelar contra a decisão, iniciará o pedido de apoio para o "processo político" dos juízes do caso.

"Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu", afirmou.

Viva

Susana disse que, como mãe, sente que a filha está viva. "Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte."

Ela contou que reza todas as noites pedindo "a Deus que chegue o dia em que ela, Micaela e Marita" estejam juntas. Susana fez um apelo para que os que a vejam, em qualquer parte do mundo, "avisem à Interpol" e a "contenham emocionalmente até que eu chegue para encontrá-la".

Ela disse que nesses quase 11 anos se transformou em uma "investigadora" porque, se não o tivesse, feito "ninguém o faria" e, "apesar das injustiças", não perdeu a confiança na Justiça.

Na sua luta, Susana percorreu várias províncias argentinas, se fez passar por cafetina e estima que liberou "pelo menos 150" mulheres que eram exploradas sexualmente. Algumas das que ajudou disseram ter visto Marita em um dos prostíbulos, o que repetiram no tribunal de Tucumán.

Susana disse que sempre contou para Micaela a "verdade" sobre Marita e que, com os anos, a neta foi percebendo o que havia acontecido com a mãe. "Mas Micaela me diz que não se lembra de nada sobre a mãe. Só sabe o que eu e meu marido e os que a conheceram lhe contamos." Susana disse que vai "continuar lutando até o dia de sua morte para recuperar" sua filha.

    Leia tudo sobre: argentinarede de prostituiçãosequestro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG