Cresce número de seguranças privados na Guatemala

Há entre 100 mil e 150 mil agentes privados no país, contingente bem superior ao total de cerca de 25 mil policiais; Guatemala é uma das nações mais violentas da América Latina

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Na Cidade da Guatemala, capital do país de mesmo nome na América Central, é praticamente impossível dar dois passos sem se deparar com agentes de seguranças de estabelecimentos privados.

Eles estão por toda a parte: nas entradas de restaurantes, salões e cafés. Mas engana-se quem pensa que tais homens se restrinjam aos locais frequentados pela alta sociedade guatemalteca. Eles também se multiplicam nas entradas de cadeias tradicionais de fast-food, como McDonald's, Burger King e Taco Bell, uma reação à alta taxa de criminalidade da Guatemala.

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Analistas estimam que haja entre 100 mil e 150 mil agentes de segurança privada no país, um contigente bem superior, inclusive, ao total de policiais, hoje em torno de 25 mil. Segundo a ONU, a Guatemala possui um dos mais altos níveis de criminalidade da América Latina. Apenas na capital guatemalteca, 40 homicídios são cometidos a cada semana.

Os moradores e empresários mais ricos dizem viver em um país onde os sequestros, roubos e extorsão são "abundantes", e que as empresas de segurança privada oferecem a "proteção que a polícia não fornece".

Para eles, a segurança é considerada uma prioridade: apavorados com as altas taxas de criminalidade, os guatemaltecos mais afortunados contratam guarda-costas de aluguel e motoristas para levá-los ao redor da cidade em veículos blindados. Nas saídas, as escolas de elite do país também estão repletas de seguranças, e no shoppings da capital, homens de terno preto garantem a proteção das famílias ricas.

Mobilização

Israel Castillo chegou à capital guatemalteca aos 23 anos. Durante os últimos cinco, o jovem anda armado com um revólver calibre 38, 12 balas e um cassetete fazendo a segurança das lojas de conveniência e dos centros comerciais da cidade.

Antes de se mudar, ele conta nunca ter segurado em armas. Castillo colhia café em sua cidade natal, Jalapa, uma região montanhosa a 175 km da capital guatemalteca. "Não gosto de viver aqui na capital", diz ele. "Eu cresci no campo e não estava mais acostumado a morar em um centro urbano. Mas fui obrigado a migrar para cá, porque aqui tenho um emprego e consigo ganhar mais dinheiro. Só assim eu sustento a minha família."

É uma cena que se repete em outros países da América Latina, mas que na Guatemala tem ganhado maior destaque. Segundo especialistas, entretanto, o que surgiu como uma "solução" pode ter se tornado um problema.

Proteção e problema

Na América Central, empresas de segurança privada oferecem a proteção que a polícia não pode garantir. No entanto, muitos desses agentes a serviço da iniciativa privada ganham salário mínimo, e muitas vezes carregam armas perigosas sem ter uma formação adequada: uma combinação letal que pode ameaçar em vez de proteger os cidadãos do país, afirmam estudiosos.

Segundo eles, tal binômio ainda é fortalecido pelo fato de muitas companhias do setor não exigirem experiência prévia ou um nível elevado de educação de seus funcionários. Assim, acrescentam, muitos desempregados migram do interior para a capital para conseguir um trabalho como segurança, a partir do qual podem ganhar um salário fixo sem possuir as credenciais necessárias.

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"A segurança privada tornou-se uma opção de trabalho para um grande segmento da população deslocada de trabalho agrícola", explica Otto Argueta, pesquisador do Instituto de Estudios Latinoamericanos-GIGA.

O governo espera aprovar uma nova lei para monitorar as empresas de segurança privada que não estão registradas e assim diminuir o número de agentes que operam ilegalmente no país. O regulamento visa a criar um banco de dados de todos os agentes privados que atuem no país.

O objetivo é, a partir daí, monitorar os movimentos desses homens e garantir que todas as armas sejam registradas. As empresas que não seguirem as regras receberão punição rigorosa, afirma o governo guatemalteco.

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