Entenda os desafios que aguardam a nova liderança chinesa

Congresso do Partido Comunista Chinês, que deve ser encerrado nesta semana, escolherá próxima cúpula dirigente do país

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Uma série de desafios aguarda a nova liderança da China, que está sendo escolhida a portas fechadas no Congresso do Partido Comunista da China. O Congresso, iniciado na semana passada, deve se encerrar nesta semana com a confirmação de Xi Jinping como novo presidente do país e com a nova configuração do Politburo do partido.

As reformas econômicas iniciadas em 1978 transformaram a China na segunda maior economia do mundo. Mas o tamanho continental da população chinesa, de 1,3 bilhão, significa que os problemas que os novos líderes enfrentarão ainda são consideráveis.

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No Congresso do Partido Comunista Chinês, em Pequim, dirigentes fazem homenagem a líderes mortos (08/11)

Confira os assuntos que estarão na agenda política da nova liderança:

Mudança do modelo econômico

O sucesso econômico da China tirou 500 milhões de pessoas da pobreza. Porém, o modelo econômico que funcionou tão bem no início da atual onda de desenvolvimento chinesa agora precisa de mudanças. Analistas ocidentais e chineses dizem que a economia precisa ser novamente ajustada para valorizar mais os consumidores do que os investimentos - muitos dos quais liderados pelo governo e desperdiçados.

Companhias estatais que dominam muitos setores precisam ser abertas para a livre concorrência. Em vez de defender esses gigantes estatais, o governo deve dar mais apoio às pequenas e médias empresas, pois elas provavelmente serão as responsáveis no futuro pelo crescimento e pela criação de empregos.

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O governo chinês diz concordar com esses objetivos, pelo menos em seus pronunciamentos oficiais. O problema é que tem feito pouco para alcançá-los. Partidários do governo dizem que Pequim acabou se desviando de seus objetivos por causa da crise financeira global, que teria obrigado o país a promover um pacote de estímulo em vez de reformas estruturais.

Já os críticos argumentam que o partido Comunista está atado demais a grupos com objetivos escusos, interesses políticos e casos de corrupção para implementar as reformas necessárias. O ponto central da discussão é que o setor estatal da economia produz cerca de 50% do PIB chinês, mas recebe mais de 70% dos empréstimos bancários, com taxas de juros artificialmente baixas.

Huo Deming, economista da Universidade de Pequim, afirma ser "impensável" que o setor estatal chinês seja forçado a recuar. "As empresas estatais vão se expandir de novo. Os líderes políticos chineses querem que elas compitam com as dos Estados Unidos e de outros países. Então, fortalecê-las é uma obrigação."

Desigualdade

A população chinesa está melhor que quando estava quando o país começou suas reformas econômicas, em 1978. Mas o nível de renda nas cidades aumentou muito mais rápido nas cidades do que nas áreas rurais. O mesmo aconteceu em relação às províncias costeiras, que se fortaleceram em relação às áreas pobres do interior.

A Academia Chinesa de Ciências Sociais afirma que a diferença de renda entre regiões urbanas e rurais aumentou 69% desde 1985 - criando uma das maiores diferenças de riqueza na Ásia. O governo teme que a desigualdade possa provocar agitação social.

Para tentar evitar isso, tem implementado programas de erradicação da pobreza em províncias pobres como Sichuam e a abolição de um imposto agrícola secular. Pequim também expandiu enormemente o seguro de saúde, aumentando em dez vezes o número de pessoas cobertas - para 830 milhões.

No entanto, críticos dizem que muito mais precisa ser feito. Eles afirmam que a China gasta apenas 6% de seu PIB em bem-estar social. Isso representa a metade do que é investido por países com patamares semelhantes de desenvolvimento. Parte do problema é o sistema de governo da China. Investimentos na área social são responsabilidade de governos locais - que afirmam não receber dinheiro suficiente para cumprir a tarefa.

Meio ambiente

O crescimento explosivo da China criou alguns dos desafios ambientais mais complexos do mundo. O país é hoje o maior emissor de gases causadores do efeito estufa; porém, no futuro próximo, vai continuar a depender do carvão como sua principal fonte de energia.

A nação viu o número de carros quadruplicar nas ruas desde 2003. Nela se encontram hoje 20 das 30 cidades mais poluídas do mundo. O governo central compreende bem esses problemas. Mas dá publicidade para histórias de sucesso como o fato de o país ter dobrado anualmente sua capacidade de geração de energia eólica desde 2005.

O governo também colocou em prática novas leis para tentar resolver problemas ambientais. Porém, sua implementação - especialmente em esferas locais - permanece irregular.

Em paralelo à tarefa de limpar um passado marcado por "altos níveis de crescimento e poluição", a China ainda enfrenta problemas básicos de desenvolvimento. "Eles fizeram grandes progressos, mas ainda há mais de 480 milhões de pessoas sem acesso ao sistema de esgotos e 120 milhões sem água tratada", afirma Joana Masic, do Banco de Desenvolvimento da Ásia.

Expectativas crescentes

Uma vez que a população chinesa se tornou mais rica e melhor educada, suas expectativas mudaram drasticamente. As pessoas não mais esperam somente um governo que seja capaz de gerenciar uma economia que crie trabalhos e riqueza. Querem serviços melhores e mais liberdade.

Mais de 6 milhões de pessoas se formam em universidades chinesas a cada ano - um aumento de seis vezes em relação aos número de 1998. Cerca de 500 milhões de pessoas usam a internet, especialmente uma rede social chamada Weibo. Telefones com acesso à rede mundial de computadores têm ajudado ativistas a organizar protestos ambientais.

Há, porém, evidências divergentes sobre a afirmação das pessoas estarem mais contentes e ricas. Uma análise de Richard Easterlin, da Universidade do Sul da Califórnia, diz que um terço da população mais rica da China estava mais satisfeita com suas vidas em 2007 do que em relação ao ano de 1990. Os outros dois terços estariam mais descontentes.

Parte dos motivos pode estar relacionada às aspirações do povo. As pessoas sabem que suas vidas melhoraram, mas pensam que os outros podem estar indo melhor.

Demografia

O índice de fertilidade da China é um dos menores do mundo, em parte por causa da política de controle de natalidade, que proíbe que casais urbanos tenham mais de um filho - a não ser que pai e mãe também sejam filhos únicos. O resultado é que o país tem cada vez menos jovens para financiar os sistemas de previdência social e saúde, e a população envelhece cada vez mais.

A população com idade para trabalhar deve começar a diminuir a partir de 2015 - o que deve aumentar a pressão sobre os salários. A China logo terá mais idosos que a União Europeia.

A política de apenas uma criança por casal também criou anomalias. Muitos casais que desejam ter um menino abortam fetos femininos. A China tem hoje 120 nascimentos de homens para cada 100 de mulheres. Segundo estimativas, em 2020 cerca de 24 milhões de homens chineses não encontrarão parceiras.

Acadêmicos e até analistas governamentais defendem o fim dessa política, a fim de restaurar o apoio dos jovens ao governo e o índice de fertilidade do país. Mas nenhuma liderança sênior do país deu apoio público a eventuais mudanças, temendo que elas resultem em uma explosão populacional.

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