A portas fechadas, China inicia escolha de nova liderança

Partido Comunista dá início a congresso em Pequim que deve tornar o vice-presidente Xi Jinping no homem mais poderoso do país

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Ele nunca disputou uma eleição. Pouco se sabe sobre suas opiniões acerca da economia mundial ou do aquecimento global. Para muitos chineses, é mais fácil reconhecê-lo como marido de uma popular cantora folk. Apesar disso, Xi Jinping , de 59 anos, está prestes a se tornar o homem mais poderoso da China, como líder do dominante Partido Comunista em um congresso que só ocorre uma vez a cada década e que tem início nesta quinta-feira.

As transferências de poder no país, ainda feitas sob extremo sigilo, têm provocado tensão e incertezas. Mas, agora, com a China ocupando o posto de segunda maior economia do mundo e de uma superpotência em ascensão, as visões do novo líder realmente importam.

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No Congresso do Partido Comunista Chinês, em Pequim, dirigentes fazem homenagem a líderes mortos

O gigante asiático também enfrenta grandes desafios. Alguns analistas acreditam que o modelo de desenvolvimento econômico, que permitiu um crescimento acelerado nos últimos anos, mas com custos ambiental e social, parece à beira da exaustão.

A questão, agora, é se o país de partido único poderá confrontar seus interesses institucionais e realizar as reformas necessárias. "Acho que isso é muito difícil", diz Mao Yushi, um economista de Pequim. "As pessoas não tem o direito de checar os abusos de poder por parte do governo. Até a informação não é transparente; então sabemos muito pouco do que se passa dentro do pequeno círculo de liderança", acrescentou.

Os atuais líderes chineses, sob o comando do presidente Hu Jintao, estão no poder desde 2002 e são considerados como a "quarta geração" a governar o país desde que o Partido Comunista tomou o poder, em 1949.

Eles estão saindo de cena porque o partido determina limites de idade para seus líderes. Sete dos nove membros do todo poderoso politburo comunista estão muito "velhos" para permanecerem no poder.

Xi, que já pertence ao comitê, daria início à quinta geração e gradualmente assumiria os poderes e títulos hoje conferidos a Hu. À primeira vista, a herança é atrativa. Durante os 10 anos em que Hu permaneceu à frente da China, a economia do país cresceu, em média, 10% anualmente e tirou milhões da pobreza.

Mas o crescimento extraordinário também trouxe problemas. A economia tornou-se refém de investimentos liderados pelo governo e companhias estatais. Organizações como o Banco Mundial alertam que o governo deveria, agora, permitir o florescimento do setor privado.

O abismo entre ricos e pobres é gritante, apesar de a China ser um dos países onde mais brotam novos milionários. São 1 milhão ao todo. Em compensação, 150 milhões vivem com menos de US$ 1 (R$ 2) por dia.

Embora o governo tenha estendido o tratamento de saúde e pensões a milhares de pessoas, o envelhecimento da população chinesa começa a representar um desafio futuro. Os críticos argumentam que a precaução natural de Hu Jintao, de certa forma, o impediu de buscar uma solução viável para todos esses problemas, ao dar prioridade à estabilidade do país.

Eles destacam especificamente a ausência de uma reforma política. Enquanto as pessoas estão livres agora para se expressarem em locais privados e em blogs, o Partido Comunista ainda controla muitos empregos importantes e silencia qualquer tipo de crítica. O governo também gasta mais com segurança interna do que com a defesa nacional, dando sinais de que teme a própria população.

Esperanças e medos

Xi Jinping terá de ser diferente, dizem analistas. Ele é mais novo e entende melhor o Ocidente. E sua educação privilegiada como filho de um funcionário do alto escalão do Partido Comunista chinês lhe dá maior versatilidade e autoconfiança, acreditam.

O professor Sun Zhe, da Universidade de Tsinghua, conhece Xi e diz que ele é um "líder natural" cujo carisma pode dominar uma sala cheia de pessoas. "Xi Jinping terá uma personalidade diferente. Ele é muito mais simpático e isso é importante", afirma.

Às vésperas do Congresso, circularam boatos de que Xi teria se encontrado com proeminentes reformistas, elevando a especulação sobre seus planos - embora ele nunca tenha expressado qualquer posicionamento publicamente. Para Sun, algum tipo de reforma política é "inevitável":

"Os chineses mais novos, nascidos depois de 1979, não toleram as atuais maneiras de administrar os assuntos públicos", disse. "Não esperem uma política no estilo do Ocidente, mas nós podemos 'tomar emprestado' alguns recursos que já deram certo do outro lado do mundo, como permitir à imprensa supervisionar o governo, por exemplo. Um tipo de democracia de partido único, como a Rússia sob o comando de Putin, pode ser possível", acrescentou.

Outros especialistas, no entanto, duvidam que homens como Xi, um subproduto do sistema do Partido Comunista, possa mudá-lo. Segundo Mao Yushi, a nova geração não significará uma mudança fundamental. "Os novos líderes são escolhidos pelos velhos líderes. Eles devem manter o Partido Comunista no poder", disse.

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Li Fan, um ativista de direitos civis, pensa diferente. Para ele, a geração que se seguirá a Hu tentará e agirá diferentemente para ganhar o apoio popular. "Deve haver maior tolerância com as pessoas nos sites, eles devem ser mais assertivos em relação aos governos locais. Mas há também muitos problemas, esse tipo de política não dura muito tempo."

"As pessoas podem até dizer OK, esse governo é bom. Mas a pré-condição é que os novos líderes cedam em certos momentos de forma a evitar a implantação de uma democracia no país", acrescentou ele.

Contradições

O sistema político chinês também mudou. No passado, líderes carismáticos como Mao Tsé-Tung ou Deng Xiaoping ditaram o caminho a ser seguido pelo país. Hoje, a liderança é muito mais consensual e Xi terá de buscar o equilíbrio entre esses diferentes fatores. Os líderes antigos ainda permanecerão influentes, pelo menos no início, ao restringirem as opções de Xi.

De fato, alguns analistas acreditam que o sistema político do país mudou tanto que a burocracia do partido só aceitaria administradores cautelosos como Hu, e não reformistas preparados para confrontar os interesses escusos dentro do partido e as estatais chinesas.

"Para tentar reequilibrar a economia chinesa, é preciso tomar riscos", disse o professor Steve Tsang, da Universidade de Nottingham. "Há uma certa contradição entre o que o sistema está proporcionando e a liderança que o país reivindica", acrescentou.

O Partido Comunista Chinês, entretanto, sempre soube se reinventar de modo a permanecer no poder. Se conseguir acelerar as reformas econômicas e solucionar as preocupações públicas, como a desigualdade e a corrupção, Xi poderá entregar o cargo a seu sucessor com a sensação de dever cumprido.

Mas cada nova geração de líderes chineses herda as expectativas geradas pelos seus antecessores. Se o partido não puder realizar as reformas econômicas, é provável que as reivindicações por rápidas mudanças políticas coloquem a liderança do Partido Comunista em risco.

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