Festa na Espanha alimenta polêmica sobre independência da Catalunha

Catalães contra separatismo fazem passeata em Barcelona. Em desafio ao feriado nacional, algumas instituições, escolas e comércio abrirão suas portas

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Pessoas carregam bandeira espanhola e catalã durante protesto contra separatismo catalão, em Barcelona

No dia em que se celebra o Dia da Pátria na Espanha, esquenta a polêmica sobre a independência da Catalunha, região no nordeste, cuja principal cidade é Barcelona.

Por um lado, estão os separatistas que afirmam que não se identificam com a festa nacional que comemora o descobrimento da América. Em desafio ao feriado, visto como uma celebração nacionalista espanhola, algumas instituições, escolas e comércio na região abrirão suas portas.

Divulgada nesta semana, uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião do governo da Catalunha mostra que 74,1% dos catalães são a favor de que se convoque um referendo sobre se a região deve ser um novo Estado da Europa, e 19,9% se declararam contra.

A enquete também indica que 31% se identificam somente como catalães, 28,3% se dizem mais catalães do que espanhóis e 31,9% se sentem tanto espanhóis quanto catalães.

Consequências
Segundo o cientista político e escritor Josep Ramoneda, Madri não está aberta ao diálogo sobre o referendo.

"Ao nacionalismo espanhol custaria muito aceitar a ferida narcisista se uma parte se desgarra", disse à BBC Brasil.

A viabilidade política do projeto separatista esbarra no que Ramoneda chamou de "nacionalismo espanhol". Ele vê, no entanto, viabilidade econômica numa possível ruptura, uma vez que a região é rica e com expressivo potencial industrial e exportador.

Ramoneda analisa que crise atual na Espanha não é fator desencadeante da onda separatista, mas sim o "catalanismo" político, que retomou o debate, e, principalmente, a mudança de mentalidade das gerações. Nos últimos 30 anos, com a restauração da democracia, questionamentos sobre a independência puderam vir à tona após um longo período de repressão da ditadura franquista.

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Manifestantes recriaram bandeira catalã em protesto na noite de quinta na cidade de Vic

Ele ressalta que a crise serviu para fomentar a ideia da injustiça fiscal, "que é real". De tudo o que Catalunha arrecada com impostos, somente a metade é devolvida.

Segundo ele, o maior temor para o governo central é que a economia espanhola sem a Catalunha se torne insolvente e isso represente a saída do euro. A ruptura significaria para a Espanha a perda de 18% a 20% do PIB.

Esta semana, o ministro da Educação, José Ignacio Wert, afirmou que o interesse do governo é "espanholizar os alunos catalães", o que esquentou ainda mais a polêmica.

Para Ramoneda, o comentário reflete "um nacionalismo primitivo".

"É um erro político grave, que pode influenciar o rumo das eleições na Catalunha", disse Ramoneda, referindo-se ao fortalecimento de políticos pró-independência.

Clamor de gerações
O arquiteto Aléx Garcia Fernández, 25 anos, é um jovem engajado pela independência da Catalunha. Desempregado, ele enfrenta as dificuldades de um país em crise, mas conta que sua prioridade é lutar pela independência.

Garcia integra a ala jovem de um partido político, Jovens pela Independência.

"Estamos cansados de tanto desemprego juvenil e dessa incerteza. Em um referendo, seremos maioria consolidada em favor da Catalunha independente", prevê.

A catalã Montserrat Llopart Treviño, 59 anos, compartilha do mesmo sentimento e diz que este é um momento histórico.

Ela viveu a infância e juventude sob a ditadura franquista, quando se proibiu o ensino de catalão, basco ou galego, línguas cooficiais da Espanha.

Embora seu idioma materno seja o catalão, Llopart foi alfabetizada em castelhano.

Filha de um soldado que combateu na guerra civil espanhola pelo lado dos republicanos, desde pequena ela tomou consciência do que historiadores chamam de "genocídio cultural".

Com a morte de Franco, em 1975, e a restauração da democracia, Llopart decidiu estudar catalão e foi professora do idioma por quase 20 anos. Agora trabalha na Òmnium Cultural, entidade que atua na promoção e normalização da língua.

Para ela, a falta de apoio ao movimento de independência fora da Catalunha, em outras regiões da Espanha, se explica pela falta de conhecimento sobre, por um lado, o processo de formação da identidade cultural catalã e, por outro, do traumático período em que o povo foi violentamente reprimido pelo governo central.

A presidente da entidade, Muriel Casals, ressalta que o governo espanhol sempre teve um trato economicamente injusto com a Catalunha.

"Para viver como catalães, é necessário uma separação amistosa. Vamos em um caminho imparável, mas temos de seguir a legalidade para que sejamos reconhecidos no exterior."

Òmnium Cultural é uma das entidades que funcionará nesta sexta-feira normalmente, como faz há três anos. Para eles, não há o que comemorar.

Movimento espanholista
Na contramão da independência, o movimento espanholista na Catalunha ganhou força com a convocatória para a concentração desta sexta-feira.

O porta-voz do movimento, Manel Parra, explica que será uma concentração cívica, festiva e apartidária. "Queremos seguir sendo catalães e espanhóis. Não desejamos mais riscos do que já temos com a crise econômica e social. Lutamos por um futuro longe de incertezas."

A principal reivindicação da plataforma é que as forças políticas catalãs sejam claras. "A cidadania tem o direito de saber qual é o preço desse movimento (independentista). Essa ruptura não nos leva a nada."

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