Campanha polêmica quer status de refugiado para imigrante judeu em Israel

Chancelaria de Israel quer equiparar direitos de judeus que imigraram de países árabes aos de palestinos obrigados a deixar território durante Guerra de 1948

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Uma campanha recém-lançada pela Chancelaria de Israel abriu um debate no país ao pedir a equiparação entre os direitos dos judeus vindos de países árabes que imigraram aos dos refugiados palestinos que foram obrigados a deixá-lo durante a Guerra de 1948.

De acordo com o vice-ministro das Relações Exteriores, Danny Ayalon, cerca de 850 mil judeus provenientes de países árabes que imigraram para Israel nos primeiros anos após a fundação do Estado são "refugiados" e merecem receber indenização pelas propriedades que deixaram em seus países de origem.

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Kochavi Shemesh não se considera um refugiado em Israel (arquivo)

O ministro também afirmou que "não pode haver uma solução para o conflito entre Israel e os países árabes se os direitos dos refugiados judeus não forem reconhecidos". Segundo Ayalon, os "dois problemas, dos refugiados palestinos e dos refugiados judeus, devem ser resolvidos no âmbito da comunidade internacional".

A polêmica, porém, é que a campanha tenta equiparar, perante a opinião pública (doméstica e internacional), a situação dos refugiados palestinos à dos judeus vindos de países árabes, os quais imigraram para Israel logo após a fundação do Estado e receberam a cidadania israelense ao chegar. Para críticos, trata-se de uma estratégia com o objetivo de neutralizar as reivindicações palestinas.

A ideia não é nova. Desde os anos 1950 vários governos israelenses já discutiram maneiras de vincular a questão das propriedades deixadas pelos judeus nos países árabes e as propriedades de 750 mil refugiados palestinos que foram confiscadas pelo Estado de Israel. Propostas de uma possível "dedução" entre os valores calculados das propriedades já foram levantadas, porém nenhum foro internacional aceitou as sugestões.

Iraque

Muitos judeus de origem oriental em Israel também rejeitam a ideia e discordam da linha adotada pelo governo. "Os palestinos não têm culpa do fato que deixamos propriedades no Iraque e não devem pagar por elas", disse o advogado Kochavi Shemesh, de 68 anos, à BBC Brasil.

Shemesh nasceu no Iraque e imigrou para Israel, juntamente com toda a sua família, quando tinha seis anos de idade. "Minha família era sionista, meus pais acreditavam que o lugar dos judeus era em Israel, portanto não somos refugiados", afirmou. "Refugiados são pessoas que perdem sua pátria, mas nós acreditávamos que Israel é a nossa pátria."

Shemesh também afirma que se os judeus iraquianos quiserem negociar indenização por suas propriedades, "devem negociar com o governo iraquiano". Nos anos 50, a maior parte da comunidade dos judeus do Iraque - cerca de 130 mil pessoas - imigrou para Israel.

Os principais motivos foram uma bomba que explodiu na sinagoga de Bagdá em 1951 e um acordo entre o então primeiro-ministro de Israel, David Ben Gurion, e o premiê do Iraque, Nuri Al Said. Segundo o acordo, os judeus poderiam sair do Iraque, mas perderiam suas propriedades.

Documento

A campanha atual do Ministério das Relações Exteriores de Israel se baseia em um documento elaborado pelo Conselho de Segurança Nacional, subordinado diretamente ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

De acordo com o documento, "a exposição do problema dos refugiados judeus poderá servir para reduzir o efeito das exigências palestinas ou pelo menos limitar os parâmetros da discussão sobre a questão dos refugiados palestinos".

Para Kochavi Shemesh, "é injusto que os palestinos paguem o preço da nossa história; eles não têm culpa do acordo que Ben Gurion fez com Nuri Al Said". "A direita israelense, que quer destruir qualquer chance de acordo com os palestinos, decidiu utilizar a história dos judeus dos países árabes como mais um meio de propaganda contra os palestinos", afirmou.

Ao mesmo tempo, em artigo no jornal Haaretz, a professora de Direito Yfat Biton afirma que "a campanha do governo representa uma maneira nova e original que o Estado (de Israel) encontrou para explorar os (judeus) orientais".

A hegemonia da cultura ocidental em Israel, desde sua fundação, levou os judeus dos países árabes a uma situação de inferioridade socioeconômica. "Até hoje os judeus orientais são a maioria dos desempregados e a maioria dos trabalhadores nas indústrias", diz Shemesh.

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