Grã-Bretanha tem 'dois pesos e duas medidas' no caso Assange, diz Correa

Presidente condenou ameaça à Embaixada Equatoriana em Londres e lembrou da invasão à Embaixada Britânica em Teerã, que levou a posicionamento do Conselho de Segurança

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O presidente do Equador, Rafael Correa, disse que a Grã-Bretanha tem "double standards" ("dois pesos, duas medidas") ao ameaçar invadir a embaixada do seu país em Londres, para cumprir uma ordem judicial de extraditar o fundador do site WikiLeaks , Julian Assange .

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Em entrevista à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Correa citou a invasão da Embaixada Britânica em Teerã em novembro do ano passado por manifestantes que protestavam contra sanções da Grã-Bretanha ao Irã. No dia seguinte à invasão, o Conselho de Segurança da ONU, em reunião de emergência, condenou a invasão à embaixada britânica.

"Quando se trata de perigo a embaixadas de certos países, é um problema global, no qual precisa intervir o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando se trata de uma embaixada de um país como Equador, é um problema bilateral", disse Correa.

Confira abaixo trechos da entrevista de Correa ao repórter da BBC Will Grant.

BBC Mundo: O sr. vai levar este assunto à OEA e também está falando em levar a discussão a Haia. Não lhe parece contraproducente envolver tanta gente? Não seria melhor simplesmente resolver esse assunto como bilateral entre Equador e Grã-Bretanha?

Rafael Correa: Vamos separar as duas coisas. Uma coisa é o asilo ao senhor Assange. Outra coisa foi a ameaça velada, mas explícita e por escrito, ao outorgarmos o asilo, nos dizendo que de acordo com uma lei nacional de 1987, o Reino Unido poderia entrar em nossa embaixada para prender o senhor Assange.

É por isso que se reuniram a Alba, a Unasul e a OEA. Porque se trata de algo sem precedentes e que criaria um antecedente nefasto nas relações diplomáticas em nível mundial. Isso atentaria contra a convenção de Viena, a Carta das Nações Unidas, contra os princípios civilizatórios da humanidade. É inadmissível.

E o Reino Unido não se retratou dessa ameaça. Sobre Haia e outras instâncias judiciais, estamos sim esperando para ver se conseguimos por essas vias o salvo-conduto requerido.

BBC Mundo: O senhor não está utilizando este momento para estender uma imagem da Grã-Bretanha de que é um país preparado a entrar com armas (na embaixada), etc.?

Correa: Acho que é uma trapalhada tremenda da diplomacia britânica. Mas nem sequer esperamos desculpas. (Queremos) ao menos que se retratem desta trapalhada, e até agora ainda não fizeram isso. E isso neste momento virou um problema entre o Equador e a Grã-Bretanha. Aí se vê a moral dupla, os double standards ('dois pesos e duas medidas', em inglês), e como há países que se acreditam superiores aos outros.

Parece-me que quando houve ameaças à Embaixada do Reino Unido em Teerã no ano passado, houve uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando se invadiu a Embaixada dos Estados Unidos na mesma Teerã, no fim dos anos 70, houve três ou quatro resoluções no Conselho de Segurança.

Quando se trata de perigo a embaixadas de certos países, é um problema global, no qual precisa intervir o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando se trata de uma embaixada de um país como o Equador, é um problema bilateral. Eu acredito que existe pelo menos um 'double standard'.

BBC Mundo: O senhor disse que as acusações de assédio sexual contra Assange sequer seriam considerados crimes na América Latina. No entanto, se são considerados crimes na Suécia, o que acontece com os direitos dessas duas mulheres para que seu caso seja escutado em um tribunal?

Correa: Isso é irrelevante. Isso foi uma resposta que dei a um jornalista sueco. Ele me perguntou minha opinião, e por isso lhe dei.

Mas isso não influiu de modo algum na decisão de dar asilo ao senhor Assange. (Essa decisão) responde a outras considerações: que é verdade que sua vida pode estar em risco, que há sérias perseguições políticas, e que não houve a garantia da Suécia de que não pode ser extraditado para um terceiro país para responder a estes supostos delitos.

Então jamais foi intenção do senhor Assange e jamais o Estado equatoriano participou de uma intenção de não responder à Justiça sueca. A intenção é que se garantisse que ele não seria extraditado a um terceiro país.

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