Paquistanesa atacada por marido diz ter nascido de novo com nariz reconstruído

Após 32 anos do ataque, Allah teve nariz reconstruído com pedaço de costas e pele da  testa; cirurgia foi feita gratuitamente por cirurgião de ONG que ajuda vítimas de crimes de honra

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A paquistanesa Allah Rakhi, atacada pelo marido há 32 anos ao tentar fugir de suas agressões, disse ter nascido de novo após uma cirurgia que lhe deu um novo nariz

A paquistanesa Allah Rakhi, atacada pelo marido há 32 anos ao tentar fugir de suas agressões, disse ter nascido de novo após uma cirurgia que lhe deu um novo nariz. A cirurgia, que usou um pedaço de uma das costelas de Allah e pele da testa da paquistanesa, foi feita pelo cirurgião plástico Hamid Hassan gratuitamente.

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O médico trabalha voluntariamente em uma organização que ajuda vítimas dos chamados crimes de honra. Sem vergonha do rosto, que passou as últimas três décadas coberto por véus, Allah planeja agora pôr um piercing no nariz.

Allah vivia na região central de Punjab com o marido e dois filhos, quando o ataque que mudou sua vida aconteceu. Ela conta que havia sido espancada pelo marido, Ghulam Abbas, quando decidiu fugir correndo.

O marido a alcançou antes que ela conseguisse chegar ao vilarejo vizinho. "Disse que ele havia destruído minha vida, me agredindo diariamente e que iria para casa de meus pais", contou à BBC.

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"Ele se sentou sobre meu peito, pegou uma lâmina do bolso e cortou meu nariz. O sangue jorrava sobre meus olhos", lembrou, acrescentando que seu calcanhar direito também foi cortado.

Coberta de sangue, a então adolescente foi levada para casa e não para um hospital para evitar que o caso chegasse à polícia. No entanto, tempos depois, o marido foi preso e passou seis meses na prisão. Allah concordou com a libertação do agressor por conta dos filhos.

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Paquistanesa Allah Rakhi com as marcas deixadas pelo ataque do marido, Ghulam Abbas

Quando ele voltou para casa, pediu o divórcio e a expulsou de casa. Allah compara a vida que levou após o ataque com uma prisão. Ela vivia com a face escondida, mesmo da família, não ia a casamentos ou enterros para evitar a curiosidade e a reação das pessoas. "Teria sido melhor que ele tivesse cortado minha garganta", disse. "Sentia-me morta."

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Ao jornal paquistanês Dawn, Allah contou que se casou novamente, mas ficou viúva e enfrenta agora um novo desafio.

A pedido de um dos filhos e sem recursos para se sustentar, ela está novamente vivendo sob o mesmo teto que o ex-marido, que não demonstra remorso pelo ataque brutal. "Foi tudo culpa dela. O que aconteceu foi por causa dos crimes que ela cometeu. Não aconteceu sem razão", disse Ghulam Abbas, sem explicar suas declarações.

"Eu deixo que Deus o puna", responde Allah Rakhi. "É muito doloroso estar aqui", disse. "Eu morro a cada minuto, mas meu filho me pediu que fique. Meus filhos e netos são tudo para mim", acrescentou.

O ex-marido, segundo Allah, insiste que ela viva com ele como "esposa", caso contrário, será expulsa de casa. "Talvez eu tenha de ir embora. Estou disposta até a morrer, mas não a voltar a viver com ele como esposa", concluiu.

Segundo organizações de direitos humanos, em muitas partes do Paquistão, mulheres são mortas ou marcadas para sempre nos chamados "crimes de honra". Cerca de 900 mulheres teriam sido vítimas desse tipo de crime em 2011.

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