Como a versão chinesa do Twitter mudou cinco vidas

Defensor dos animais, vítima de ataque passional, ativista ambiental, grafiteiro e mãe pró-amamentação atraíram mobilização com o Sina Weibo, que tem 300 milhões de usuários

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O Sina Weibo, uma versão chinesa do site de microblogging Twitter, contabiliza 300 milhões de usuários e já se tornou uma das redes sociais mais populares do mundo. E algumas das histórias que ele desencadeou dão uma ideia dos meandros da vida na China moderna.

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O impacto da internet na sociedade chinesa parece ser maior do que em qualquer outro país. Ali, a web e o micloblogging dão às pessoas a oportunidade de se expressar - algo que, por razões políticas, seria impossível fazer de outro modo.

O Sina Weibo, controlado pelo maior portal de internet do país, o Sina, não apenas desafia a predominância global do Twitter, como também teve um impacto importante em algumas vidas.

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O salvador de cães Zhang Xiaoqiu

Veja aqui alguns exemplos:

O salvador de cães Zhang Xiaoqiu ainda se lembra da data: 15 de abril de 2011. Foi quando o Weibo mudou a sua vida e a de centenas de cães. O empresário, que mora em Pequim, sempre foi um amante dos animais, mas a notícia que recebeu naquele dia 15, via Weibo, o levou a agir.

Imagens dos animais enjaulados foram postadas no Weibo e logo atraíram a atenção de centenas de milhares de chineses. Ao menos cem defensores dos animais logo se organizaram, entraram em seus carros e bloquearam o caminhão. Zhang foi um desses motoristas.

Ao parar o caminhão, atraindo a atenção da polícia e de outras autoridades, os defensores dos animais juntaram cerca de US$ 1,5 mil, que deram ao motorista para convencê-lo a levar sua "carga" a uma ONG que cuida de cães.

Hoje, Zhang é voluntário nessa ONG. Ele diz que, graças a campanhas organizadas via Weibo, diversas outras iniciativas semelhantes de resgate de animais ocorreram no último ano. "Cada vez que alguém divulga no Weibo, voluntários de todo o país começam a telefonar para as empresas transportadoras, para a polícia, para a sociedade protetora dos animais e para o governo", diz Zhang. "Isso põe uma enorme pressão sobre essas pessoas, e elas não têm outra alternativa senão agir."

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Imagens dos ferimentos de Zhou Yan divulgadas no Weibo trouxeram à jovem ofertas financeiras e de auxílio legal

Cicatrizes

Zhou Yan, de 17 anos, está em uma maca em um hospital de Pequim, ainda dolorida das cicatrizes em sua cara, seus braços e suas pernas. Sua história começou em setembro, quando a menina foi atacada por um ex-colega de classe, cujas investidas românticas ela havia rejeitado.

O ex-colega atirou nela combustível de isqueiro e ateou fogo em seu corpo, provocando fortes queimaduras. A situação dela poderia ter sido pior se não fosse pelo Weibo. As imagens de seus ferimentos se tornaram virais, desencadeando ofertas de ajuda financeira e legal. Um hospital estético de Pequim entrou em contato com a família da jovem e ofereceu tratamento gratuito.

Além disso, diz Li Cong, mãe de Zhou Yan, "sinto que o que mais me ajudou foi o apoio espiritual que recebi". "Antes, achava que, com essas cicatrizes, minha vida tinha acabado", afirma a jovem. "Mas agora há tanta gente me ajudando... Estou confiante no futuro."

Ainda que a família não esteja satisfeita com a sentença de 12 anos de prisão que recaiu sobre o agressor de Zhou, ela e seus pais acham que, se o caso não tivesse repercutido online, o acusado poderia ter sido solto.

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'A internet mudou a forma como as pessoas se expressam', diz o ambientalista Feng

Ar mais limpo

As preocupações com os problemas ambientais chineses têm crescido rapidamente na última década, e o Weibo tem tido um papel importante em amplificar as vozes das pessoas comuns na questão.

Em outubro, uma piora na qualidade do ar de Pequim desencadeou um grande debate público no Weibo - principalmente depois que celebridades começaram a retuitar mensagens sobre o monitoramento da poluição atmosférica, informação que o governo chinês havia tentado manter em segredo.

Depois disso, pela primeira vez o governo chinês concordou em tornar públicos os monitoramentos de poluentes na cidade . "Antes, o público não tinha bons canais para expressar suas opiniões", afirma Feng Yongfeng, ambientalista e jornalista que participou da campanha. "A internet e o Weibo mudaram a forma como as pessoas se expressam - e quanto mais as pessoas discutiram o tema, mais poderosas elas se tornaram."

Yongfeng lançou um apelo no Weibo, pedindo doações para a compra de equipamentos que permitissem que as ONGs do país também monitorassem a qualidade do ar e verificassem os números divulgados pelo governo.

Diversos desses equipamentos já foram comprados. Recentemente, também pleitearam a proibição do uso de barbatanas de tubarão nas tradicionais sopas chinesas. "Weibo trará à sociedade mudanças que não poderão ser interrompidas", afirma.

"Não é só uma forma de encaminhar notícias, é também uma forma de agir. A tecnologia cria um canal direto e igualitário entre as pessoas, e esse espírito realmente combina com a ideia de uma sociedade civil - você pode lançar campanhas e inspirar os demais a se envolverem."

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Gas passou a expor seus grafites pelo Weibo

Contracultura

Em uma velha fábrica em Chengdu, Gas, de 21 anos, está trabalhando duro. Mas, vestindo seus jeans largos, jaqueta de beisebol e uma barba boêmia, ele dificilmente se encaixa no estereótipo do tradicional trabalhador chinês.

Em suas próprias palavras, Gas é um "escritor de grafite", um artista que pinta sua marca, baseada no símbolo chinês qi - que significa "ar" ou "energia no corpo" - em muros da cidade de Chengdu e arredores.

Grafitar costuma ser um trabalho solitário na China. Até recentemente, pichações eram raramente vistas no país, e mesmo hoje Gas estima que sejam poucos os que realmente levam isso a sério.

A polícia e autoridades locais regularmente pintam por cima de pichações. Mas Gas agora usa o Weibo para divulgar seus desenhos para seus mais de 1 mil seguidores na China e em Hong Kong. O método também o ajudou a entrar em contato com outros grafiteiros do país. "É quase uma forma diferente de viajar", diz. "Eu não viajo, mas meu trabalho sim, via internet."

É também um exemplo de como a internet e o Weibo contribuíram para o rápido crescimento da cultura alternativa - do hip-hop ao vegetarianismo - entre a população mais jovem, ansiosa por se expressar.

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Site ajudou Yushi a organizar um grupo pró-amamentação

Mães na web, no estilo chinês

A formação de grupos online de mães é um dos fenômenos mais curiosos da internet chinesa na última década. Isso porque mulheres que antes estavam isoladas agora usam a web para compartilhar informações sobre gravidez e maternidade.

O Weibo ajudou a aproximar esses grupos na vida real e no universo online. Em um parquinho num edifício da cidade de Chengdu (oeste), grávidas se reúnem regularmente nos fins de semana para discutir os benefícios da amamentação num país em que é grande a pressão, inclusive de alguns médicos, para que as mulheres alimentem seus filhos com leite em pó em vez de leite materno.

O grupo hoje tem mais de 5 mil seguidores, e mais de 200 mulheres costumam frequentar seus encontros. Yushi, uma das organizadoras da iniciativa, lançou também uma campanha pró-leite materno e pró-partos normais em hospitais de Chengdu.

"Sem a internet, não sei se conseguiríamos", diz. "Talvez eu também fosse forçada a fazer uma cesárea e a alimentar (meu filho) com leite em pó, por causa do que vejo na TV. Acho que, se você muda a mãe, você muda a sociedade. É por isso que estamos fazendo isso."

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