China e Aliança do Pacífico pressionam Brasil a ampliar Mercosul

Segundo analistas, País estaria preocupado com crescente influência chinesa na região após criação de bloco de contraponto ao Mercosul que inclui Chile, Colômbia, México e Peru

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A forma como a entrada da Venezuela foi consolidada na última reunião cúpula do Mercosul, no final da semana passada, revela a pressa do Brasil em ampliar o bloco. Essa é a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil, que acreditam que o Brasil, em particular, estaria preocupado com a crescente influência da China na região após a criação da Aliança do Pacífico, bloco que serve de "contrapeso" ao Mercosul e teria maior aproximação com a Ásia.

Chanceler: Uruguai se opôs à entrada da Venezuela no Mercosul

AP
Presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, do Brasil, Dilma Rousseff, e do Uruguai, José Mujica, posam para foto de reunião do Mercosul em Mendoza, Argentina (29/06)

Bloco: Mercosul suspende Paraguai e anuncia adesão da Venezuela

Segundo a imprensa dos países do bloco, o Brasil teria pressionado pela integração imediata da Venezuela ao Mercosul - e essa integração teria sido decidida em uma reunião a portas fechadas entre os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai durante a cúpula, na cidade argentina de Mendoza.

Há notícias de que a pressão exercida pela presidenta Dilma Rousseff nesse sentido sobre o Uruguai teria causado um mal-estar diplomático. Além da integração da Venezuela, a cúpula também suspendeu o Paraguai, em consequência da derrubada do presidente Fernando Lugo .

O Paraguai era o único país do bloco que não tinha ainda aprovado, no seu Senado, a entrada da Venezuela no Mercosul.

'Golpistas'

Para diplomatas da Bolívia, país associado que participa dos encontros do bloco, "Brasil e Argentina foram decisivos" para incorporar a Venezuela e suspender o Paraguai. "As reuniões tiveram momentos tensos, mas o saldo foi muito positivo para toda a região", disseram.

Na opinião de interlocutores do governo brasileiro, não se podia esperar mais pela entrada da Venezuela no bloco. "Não podíamos ficar reféns dos golpistas do Paraguai. E decidimos dar o troco", afirmou uma fonte brasileira.

Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Luis Almagro, disse à rádio Espectador e ao canal quatro de televisão, de Montevidéu, que a presidente Dilma pediu, em Mendoza, que os ministros se retirassem para uma reunião entre ela e os colegas da Argentina, Cristina Kirchner, e do Uruguai, José Mujica.

Naquele encontro entre os três presidentes, disse Almagro, foi definida a palavra final sobre a incorporação da Venezuela ainda neste mês. "Essa reunião começou com um chamado de Dilma Rousseff, que disse que tinha de falar pessoalmente com os presidentes sobre um tema político. Nós, ministros das Relações Exteriores, nos retiramos. A postura do Brasil foi decisiva nesse assunto (incorporação da Venezuela)", disse Almagro.

Segundo ele, na reunião dos ministros, um dia antes do encontro presidencial, o Uruguai era "contrário à entrada da Venezuela com o Paraguai suspenso" . O Congresso do Uruguai foi o primeiro a aprovar a entrada da Venezuela para o Mercosul, depois a Argentina e, em terceiro, o Brasil.

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A incorporação definitiva do país ao bloco dependia do Senado paraguaio. "Eles também não foram tão rápidos em destituir o Lugo? Por que não poderíamos incorporar já a Venezuela? A incorporação foi feita com bases legais", disse um interlocutor brasileiro.

As declarações de Almagro causaram mal-estar nos bastidores dos governos argentino e brasileiro. "As presidentas não decidem pelo Uruguai, e o presidente uruguaio assinou a decisão de incorporação da Venezuela", afirmou a fonte brasileira.

A incorporação da Venezuela provocou fortes críticas da oposição uruguaia ao governo de Mujica. O Uruguai tem pouco mais de 3 milhões de habitantes, e setores da política local entendem que, com o Paraguai suspenso, o país ficará "ainda mais exprimido" entre as decisões dos dois maiores sócios do bloco - Brasil e Argentina.

Bloco rival

Em seu discurso em Mendoza, Dilma disse esperar que outros países sejam membros-plenos do Mercosul. A entrada da Venezuela foi consolidada seis anos após a assinatura do primeiro acordo para essa integração e seis meses antes da reunião semestral do bloco, em dezembro.

"O Mercosul vinha perdendo dinamismo e a integração da Venezuela dará novo e importante fôlego ao bloco. A Venezuela é um país caribenho que tradicionalmente esteve ligado aos EUA. Precisamos aproveitar a decisão de (Hugo) Chávez de estar na América do Sul para formalizar logo essa integração", disse um interlocutor do governo brasileiro, em Brasília.

"A incorporação da Venezuela também envolve, indiretamente, os países da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da América), e o Mercosul ficará ligado politicamente a esse bloco", disse o professor de ciência política da Universidade do Chile, Guillermo Holzmann.

A ampliação do bloco veio pouco menos de um mês depois da formalização, no Chile, da chamada Aliança do Pacífico, com a assinatura de um acordo entre Chile, Peru, Colômbia e México, entre outros.

Segundo analistas e interlocutores dos governos do Mercosul, esse é mais um motivo para o Brasil acelerar a revitalização e ampliação do Mercosul. A Aliança seria um "contrapeso" ao bloco e reúne países com acordos de livre comércio com a China e com EUA - caso do Chile e do Peru.

A Colômbia tem acordo com os americanos e recentemente disse à China que está interessada no mesmo tipo de entendimento de livre comércio.

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