Caso de mulher que teve língua cortada pelo marido choca Afeganistão

Grávida de sete meses, mulher perdeu filho após agressão; médicos reimplantaram língua, mas não sabem se voltará a falar

BBC Brasil |

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Mesmo após o fim do regime da milícia islâmica do Taleban, o recente crescimento no número de mulheres vítimas de violência doméstica voltou a assustar o Afeganistão. Nesta semana, um homem de 22 anos foi preso no norte do país após cortar a língua da mulher durante uma discussão.

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AFP
Afegã coberta com burca passa por policial em posto de controle em Cabul (7/5/2012)
A agressão aconteceu na casa do casal no vilarejo de Jangory, na região de Balkh, no norte do Afeganistão. Policiais identificaram o nome do agressor como Saleh e afirmaram que a mulher, de apenas de 20 anos, estava grávida de sete meses.

Segundo as autoridades, ela perdeu o bebê por causa do ataque. Ela foi encaminhada imediatamente a um hospital da região, onde os médicos de plantão conseguiram reimplantar a língua. Ainda não se sabe, contudo, se ela poderá voltar a falar.

A jovem, que está sendo tratada em um abrigo para mulheres, apareceu em uma coletiva em Balkh na quarta-feira com sua mãe e autoridades locais. Um repórter da BBC disse que ela estava em choque e não podia falar, mas que queria "mostrar sua repugnância" ao incidente.

Na mesma ocasião, a mãe da vítima disse que Saleh agredia repetidamente sua filha durante os 12 meses em que eles permaneceram casados. "Ele já chegou a incendiar o quarto dela, além de agredi-la por pelo menos três vezes. Os mais velhos, entretanto, diziam que se tratava de uma típica briga de casal e não deveriam interferir", disse. "Da última vez, ele cortou a língua dela e eu percebi que ele havia ultrapassado todos os limites", acrescentou.

'Pressão mental extrema'

A agressão em Jangory é o episódio mais recente de uma série de incidentes de violência doméstica que ocorrem no Afeganistão. No início deste ano, os padrastos de Sahar Gul , de 15 anos, da Província de Baghlan, no norte do país, foram condenados a 10 anos de prisão depois de serem acusados de torturá-la, aparentemente porque ela se recusava a trabalhar como prostituta.

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Há duas semanas, duas meninas de 10 e 13 anos se enforcaram na Província de Ghor, centro do país, depois de serem vistas vestidas como meninos para que pudessem visitar um vilarejo próximo. Em algumas partes das zonas rurais do Afeganistão, mulheres são proibidas de viajar sozinhas ou de sair de casa sem permissão.

Autoridades afirmaram que as duas meninas foram submetidas a uma "pressão mental extrema" de seus parentes por, supostamente, envergonharem suas famílias. Freba Majidi, responsável pelo escritório de proteção à mulher na região do Balkh, disse à BBC que ela lida diariamente com vários casos semelhantes de violência doméstica.

Segundo ela, o que rendeu destaque internacional ao caso de Jangory foi a maneira como a mulher foi atacada. "Trata-se da primeira vez em que vemos um homem cortar a língua de sua mulher", disse à BBC.

Apesar de a Constituição da era pós-Taleban promulgada no Afeganistão conferir direitos iguais a homens e mulheres, a ONU estima que a grande maioria das afegãs já foi submetida a algum tipo de violência doméstica.

Grupos feministas realizaram seguidos protestos nos últimos meses para expressar preocupação sobre o fato de que as melhorias conquistadas até agora nos direitos das mulheres podem sofrer uma reviravolta com a eventual inclusão de representantes do Taleban em um futuro governo.

Na quarta-feira, na capital do país, Cabul, representantes da Rede de Mulheres Afegãs - uma organização nacional de ativistas feministas - afirmaram estar preocupadas sobre o que poderia acontecer com as mulheres após a saída das tropas internacionais em 2014 .

Elas reivindicaram ao governo uma proteção mais ampla às estudantes das escolas do país após uma série de misteriosos envenenamentos, que teriam sido cometidos pelo Taleban.

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