Vídeos da CIA mostrariam suspeito 'vomitando' em interrogatório controverso

Fitas foram destruídas por ex-chefe de Centro de Atividades Clandestinas da CIA, que negou que simulação de afogamento fosse 'tortura'

BBC Brasil |

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AP
Foto sem data mostra Jose Rodriguez, ex-chefe do Centro de Contraterrorismo da CIA. Ele admitiu ter destruído as fitas por seu 'potencial explosivo'
Fitas secretas de vídeo da CIA mostram um suposto membro da Al-Qaeda, Abu Zubaydah, vomitando e gritando enquanto é submetido a sessões de interrogatório com simulação de afogamento (waterboarding, em inglês), segundo informações obtidas pela BBC.

As fitas foram destruídas pelo ex-chefe de Centro de Atividades Clandestinas da CIA, Jose Rodriguez. Em entrevista exclusiva para o programa da BBC Newsnight, Rodriguez defendeu a destruição das fitas e negou que a simulação de afogamento e outras técnicas de interrogatório fossem "tortura".

Acredita-se que as fitas da CIA venham a exercer um papel de peso no julgamento de Khalid Sheikh Mohammed , outro membro da Al-Qaeda e suposto mentor dos ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos, que está sendo realizado em um tribunal militar na prisão militar de Guantánamo.

Quando Mohammed compareceu perante o tribunal no sábado, recusou-se a colocar os fones de ouvido que lhe permitiriam ouvir o tradutor. Seu advogado civil, David Nevin, disse que ele não os usaria em represália à "tortura" que sofreu durante seu interrogatório.

A técnica de simulação de afogamento foi praticada no interrogatório de ao menos três suspeitos da Al-Qaeda. Os interrogatórios foram feitos nos "buracos negros", locais secretos usados como prisões ielgais pela CIA, em diversos países.

Mohammed teria sido privado de sono por mais de uma semana, permanecido nu ou vestindo apenas uma fralda, e sido afogado 183 vezes, segundo sua defesa. A CIA e o Departamento de Justiça dos EUA, que autorizou o programa secreto de interrogatórios após os ataques do 11 de Setembro, eufemisticamente classificaram o conteúdo das fitas como "técnicas avançadas de interrogatório".

Tortura

A maioria das pessoas provavelmente as chamaria de "tortura", mas José Rodriguez contestou esse termo. Ele escreveu um livro, Hard Measures (algo como Medidas Duras) no qual defende o uso de tais técnicas, e disse não há dúvida de que elas são eficazes. "Khalid Sheikh Mohammed foi provavelmente o mais difícil prisioneiro que já tivemos e ele resistiria até o fim de suas forças", disse Rodriguez ao BBC Newsnight.

No afogamento simulado, o detido é despido e amarrado em uma placa na posição horizontal, com os pés mais elevados que a cabeça. A água é então gotejada sobre um pano cobrindo o nariz e a boca, o que faz o detento engasgar e parar temporariamente a respiração. "Não é uma visão bonita quando você a está aplicando em alguém, vamos ser honestos", disse Rodriguez.

A CIA disse que a técnica foi usada em apenas três "alvos de alto valor". As outras duas vítimas desse tipo de tortura foram Abd al-Rahim al-Nashiri, o suposto arquiteto do ataque no ano 2000 ao navio de guerra americano USS Cole (que provocou a morte de 17 pessoas) e Abu Zubaydah, suposto agente de Bin Laden .

Al-Nashiri teria sido afogado duas vezes e Zubaydah 83. A simulação de afogamento de Zubaydah se tornou o centro da polêmica desencadeada por uma investigação da BBC.

A CIA registrou os interrogatórios de Zubaydah e os de outros presos em 92 fitas de vídeo. Em 12 delas são aplicadas as "técnicas avançadas de interrogatório", incluindo a simulação de afogamento. Em um ou mais desses registros, Zubaydah é mostrado vomitando e gritando.

John Rizzo, alto conselheiro legal da CIA, supervisionou a legalização das técnicas em uma troca de memorandos com o Departamento de Justiça. Ele queria ter certeza de que o que acontecia nos "buracos negros" estava de acordo com o que tinha sido legalmente acordado. Porém, ele não sabia que a simulação de afogamento seria usada muitas vezes.

Rizzo então enviou um de seus colegas mais experientes para um dos buracos negros, acredita-se que na Tailândia, para investigar. O colega viu todas as 92 horas de vídeo e concluiu que as técnicas estavam sendo legalmente aplicadas, mas ele afirmou ter-se sentido desconfortável com o que viu.

AFP
Khalid Sheik Mohammed, em foto de 2003
"Ele (Rizzo) disse que partes da fita, particularmente aquelas de Zubaydah sendo afogado, eram extraordinariamente difíceis de assistir", disse. "Ele (Zubaydah) visivelmente reagia de forma muito preocupante. Passava por algumas dificuldades físicas, vou deixar por isso mesmo ... 'duro de assistir em algumas partes' foi o termo que ele (Rizzo) usou."

Decisão

Rodriguez negou ter visto as fitas e disse não estar ciente de que as imagens mostram Zubaydah vomitando e gritando. "Não sei de onde você tirou isso tudo", disse. "Não sei nada sobre gritar e vomitar, digo apenas que não era uma visão bonita."

Rodriguez sabia que as fitas eram potencialmente explosivas e queria destruí-las. Ele esperou por três anos, cada vez mais preocupado com a aparente má vontade de qualquer um de esfera mais alta em assumir responsabilidade pela destruição.

Então, quando a notícia dos buracos negros da CIA vazou, a paciência de Rodriguez se esgotou. Acreditando ter autoridade para fazê-lo, ordenou que as 92 fitas fossem destruídas em um triturador industrial. "Nossos advogados disseram que era legal", disse ele.

Mas Rizzo não gostou da decisão. Afirmou que, juntamente com dois diretores da CIA, deixou claro para Rodriguez que ele não tinha autoridade para tomar a decisão de destruir as fitas. Ou seja, para Rizzo, Rodriguez desobedeceu ordens.

Proteção

Mas Rodriguez está convencido de que agiu de forma legal e diz que sua motivação em ordenar a destruição era proteger as identidades dos interrogadores da CIA para que eles não sofressem represálias. Havia, no entanto, mais do que isso.

Três dias depois de as fitas terem sido destruídas, um memorando da CIA, divulgado sob o Ato de Liberdade de Informação, trouxe os comentários de Rodriguez: "O calor de destruir as fitas não é nada comparado ao que aconteceria se as fitas entrassem em domínio público (...) fora do contexto elas nos fariam parecer terríveis - o que seria devastador para nós. Todos na sala concordaram", afirma Rodrigues no memorando. "Eu disse que sim. Se você está praticando a simulação de afogamento em alguém e essa pessoa está nua, é claro que era uma preocupação minha", disse ele ao Newsnight.

Apesar de todas as controvérsias em torno dos buracos negros da CIA e do seu programa de interrogatório, Rodriguez disse estar satisfeito por tudo o que fez. "Tive a honra de servir ao meu país depois dos atentados do 11 de Setembro. Tenho orgulho das decisões que tomei, incluindo a destruição das fitas para proteger as pessoas que trabalharam para mim. Não tenho arrependimentos."

Sem dúvida, os advogados de defesa no julgamento de Khalid Sheikh Mohammed tentarão obter acesso aos registros escritos que existem do que estava nas fitas e questionar os advogados da CIA que os viram. Mas sob as regras do tribunal militar que restringem qualquer discussão sobre a tortura, eles não devem ter muito sucesso nessa questão.

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